sexta-feira, 21 de abril de 2017

NO FUNDO DOS SEUS OLHOS VI ESTRELAS



Éramos eu e meu clã:
a disparar
contra você em silêncio.
Eles se foram, fiquei com meus pensamentos.
Atacando.
Torres de ideias.
Sólidas, perenes
te golpeando calada.
Quando elas caíram sobraram os romances, as sagas, as lendas.
arremessadas contra você, quieta.
Logo as perdi, ficando-me apenas algumas frases, citações, grandes sentenças.
Despejadas sobre sua mudez.
Depois só me valiam as palavras soltas.
Contra sua boca sem som.

Por fim nada mais para guerrear.
A não ser suas próprias armas no terreno em que você pelejava tão bem.

Foi quando te olhei.
Li seus olhos:
O desenho da íris e a composição da pupila contando-me coisas.

No fundo dos seus olhos  vi estrelas.

Deserdei com o inimigo.

Imagem: Márcia Magda - Texto: Pedro Silva - Rodada 74

terça-feira, 11 de abril de 2017

ORAÇÃO



Olho e não percebo
Minha imagem e semelhança
Sou vil, astuto, canalha
Mentiroso, sujo, desonesto
Não tenho fé, esperança.
Cuspo palavras que ferem
Sangue pinga de minhas mãos
Não dou água a quem tem sede
Sou cego ao sofrimento de irmãos.
Não temos, Senhor, qualquer traço semelhante
O que seria Tua herança
Perdeu-se pelo caminho 
Sou simples ser errante
Corrompido e agonizante
Muito descrente e sozinho.
Não se reflete em minh'alma
Teu desejo de harmonia e calma
Não peço instante de paz 
Quero sempre algo a mais 
Já que a vida seguirá
Indiferente e sem trauma.

Rodada nº 74
Imagem: Carlos Brausz
Texto: Maria Emília Algebaile

domingo, 2 de abril de 2017

A pescaria




Ao acaso solícito
O ocaso explícito.

Raso e razoável
Um dia aprazível.

Uma rosa suave
Uma ave (voa)amável?

Uma moça suada
Um sol de veludo

A moça sentada
Joga a isca e não pisca
A vara escolhi
A sua piscadela ao moço.

O peixe mordi o olho
Da isca, um flambado petisco?

Ocasião? Para o homem ali
Esperando a pesca para a conversa. 




rodada 74
Imagem: Rudy Trindade
Texto: Fernando Andrade

segunda-feira, 27 de março de 2017

Janela do tempo




Pela janela do tempo
o tempo não é regrado.
Todo ele nos pertence.
De dentro para fora
(do corpo ou dos sonhos)
é belo e imenso o cenário
e são tantos os desejos
generoso é o braço de céu
que contemplamos
(e que abraça toda a nossa pequenez).
Imenso o mundo e todo nosso
à distância.
Só quando nos aproximamos
a verdade se revela maior, bem maior
que o tempo: as grades.
Para sempre as grades.


Rodada 74
Texto: Luís Pimentel
Imagem: Lúcia Dias


domingo, 26 de março de 2017

Rotina alvissareira


Minha redundância
repete gestos
compõe movimentos
levanta o dedo em riste
e pede licença pra entrar
bailando frases incompletas

Imagem: Magali Rios
Texto: Carolina de Araujo
Rodada 73

domingo, 19 de março de 2017

ALÉM DOS DOIS MUNDOS



A menina apreciava sentar-se na quina do salão. Refestelava-se sobre as almofadas e perdia-se a observar o mundo perverso, por isso não podia sair de casa. Não entendia bem os argumentos do pai e, menos ainda, não havia motivo para que permitissem que ficasse ali olhando pelas grades o mundo acontecendo, já que não podia estar do outro lado.
Na mesma intensidade de sua curiosidade, a luz que entrava no recinto era plena de vida. Já conhecia de cor o azul do turbante do cuidador de camelos, o cheiro das tâmaras maduras, o negro das burcas das mulheres que passavam sempre apressadas e caladas.
Um dia, ela viu. Viu e não acreditou em seus olhos tão meninos. Uma mulher andava pela rua bem devagar. Cabelos longos, soltos, balançavam para lá e para cá, num ritmo muito bonito, contrastando com o azul do céu. Suas roupas eram diferentes, usava calças compridas que deixavam marcadas as formas de seu corpo. Ela sorria e, às vezes, parecia bailar. Pôde acompanhar aquela imagem enquanto ela se movia da esquerda para a direita, enquadrada perfeitamente pela moldura das janelas gradeadas que separavam os dois mundos.
Apaixonou-se por aquela possibilidade. Não pensava em nada além da visão da mulher do outro lado do mundo. Imaginava-se lá fora e sentia um grande prazer percorrer seu corpo.
Em sua inocência, contou ao pai sua descoberta e as novas sensações que sentia. E foi assim que o homem mandou que fossem fechadas as janelas com tijolos pintados de azul.
Um azul que a menina identificou com aquele azul do céu no dia em que viu a mulher feliz de cabelos soltos na rua. Um azul pelo qual ela se dedicaria o resto de sua vida a vê-lo novamente.


Imagem: Glória Motta
Texto: Maria Emilia Algebaile
Rodada 73

segunda-feira, 6 de março de 2017

Biografia





Eu vou esquecer o nome do garçom daquele restaurante onde a gente comeu punhetas de bacalhau na nossa viagem a Lisboa, a escalação do time do Bangu campeão de 1966, que aquele sujeito numa foto velha em Minas é o meu amigo Roberto Carlier, o medo e o tesão que eu senti numa festa em Ipanema quando dei meu primeiro beijo de língua.
Eu vou esquecer o ponta esquerda do Bangu campeão de 1966, o nome daquele restaurante onde a gente comeu punhetas de bacalhau na nossa viagem a Lisboa, quem é aquele sujeito numa foto velha em Minas, o que eu senti numa festa em Ipanema quando dei meu primeiro beijo de língua.
Eu vou esquecer o que eu senti numa festa quando dei meu primeiro beijo, onde eu estava quando tirei essa foto com esse desconhecido, quem foi o campeão de 1966, o nome daquele prato que a gente comeu na nossa viagem a Lisboa.
Eu vou esquecer onde eu guardava minhas fotos, a nossa viagem a Lisboa, quando dei meu primeiro beijo.
Eu vou esquecer o meu primeiro beijo, Lisboa e quem escreveu esse versos que repetem a frase “eu vou esquecer”.
Eu vou



Rodada nº   73
Texto: Cesar Cardoso 
Imagem: Ângela Márcia 

domingo, 5 de março de 2017

Carpe Diem




O patrão agora deu de ficar estranho. Foi depois que ele resolveu fazer aula de filosofia toda terça-feira até quase meia noite. Comecei a notar que tinha alguma coisa errada quando ele começou a ficar olhando pro pão na hora do café e me perguntar se a vida era comer pão com manteiga todo dia. Eu tentei dizer que tinha requeijão, tinha bolo, mas ele não quis ouvir. Agora, bota as roupas do Rodriguinho e sai. Se Dona Marluce pergunta onde vai, ele levanta os braços e fica repetindo uma palavra em inglês: carpedí! Carpedí! Deve ser inglês, porque eu sei que é a única língua que ele sabe. Ele só viaja pros esteites e eu sei que lá se fala inglês. Dona Marluce diz que é fase, que a idade chega pra todo mundo. Quer dizer, pra ela também, né? Mas ela continua igualzinha como sempre foi. Mas seu Adalberto, quer dizer, seu Beto, que é assim que ele quer ser chamado, seu Beto está cheio de problemas com a fase dele. Deve estar com a fase trocada. Na minha cidade, gente assim, a gente dizia que tinha parafuso a menos ou que tinha três telhas, mas ele tem mesmo é carpedí. E eu não posso mais fazer comida comum. Ele só quer comer japonês. E até fez uma plantação de cabelos. Achei esquisito quando ele chegou com a careca toda espetada com pontinhos pretos. Parecia plantação de milho quando começa a brotar. Dona Marluce disse que estava ridículo e o Rodriguinho disse que era sinistro. Não entendi. Às vezes eles usam umas palavras que eu não sei dizer se é bom ou ruim. Sinistro. Pra ser sincera, eu acho que tem mulher nova na jogada. Homem mais velho assim que nem seu Beto, quando muda demais é porque tem gado novo no pasto. E ele está carpedí pra caramba. Mas meu pai já dizia que homem velho e mulher nova, ou é chifre ou é cova. Dona Marluce que não abra os olhos e daqui a pouco seu Beto pega o carpedí e se manda de casa! Se a idade chega pra todo mundo, o que que ela está esperando pra não carpedí também? Ontem no forró da feira eu falei pra um bonitão que estava me olhando muito: carpedí! E ele me agarrou e me lascou um beijo. Não sei se eu conto isso pra Dona Marluce, mas gostei muito! Carpedí pra todo mundo, e que essa minha fase demore bastante!!



Rodada 72 invertida
Texto: Maria Emilia Algebaile
Imagem: Magali Rios

sábado, 4 de março de 2017

BOCA DE LOBO

 Cheguei em casa sem camisa.

Seria Botafogo e Flamengo no Engenhão, começou o maior quebra pau. Eu que não sou de briga saí correndo, me escondi atrás de um poste e fiquei só vigiando. De repente, vem a torcida do Botafogo dobrando a curva. E eu trajado no manto. Não pensei duas vezes: tirei, enrolei, joguei na boca de lobo pra ninguém achar e me misturei com eles. Como era o hino mesmo? “Sou tricolor de coração...”, não, cacete, esse é do Fluminense.

E voltei pra casa sem a camisa.

Daí a vó logo me perguntou:

Nego, cadê sua roupa?
Tá suja, vó. Tirei porque tava fedendo.
Então me dá logo pra lavar.

E eu não soube o que dizer. E ela ainda completou, acabando comigo:

Deu tanto trabalho da última vez. Coarei duas vezes pra tirar a mancha do suvaco. Usei uma bacia só pra ela. Porque sei que você não pode com mancha...

 Então eu lembrei que a vó já fazia isso antes d’eu nascer.

Quando ela se mudou para cá não tinha a grade de vergalhão pra proteger da queda lá embaixo. A vó era linda e quando vinha para a laje esfregar roupa ficava um monte de marmanjo espiando de longe. O vô, mulato forte, baiano tranquilo, nem trinta anos completo, sabia que podia confiar na nega. Só gritava lá de dentro “entra que tá ventando, Palmira”. E a Palmira criou os oito filhos fazendo isso. Eram duzentas fraldas de uma vez, roupinha de bebê, roupinha de menino, roupinha que recebia de gente de fora. Depois começou a lavar roupa dos outros. E teve um tempo que ela ganhava mais dinheiro do que o vô. E ainda estendia a roupa da minha mãe e dos tios, deixava tudo branquinho.

A vó assistiu todos estes prédios sendo construídos. As crianças crescendo, o cabelo ficando mais ralo. Via aqui de cima, enquanto cuidava das cuecas sujas e do encardido dos uniformes. Tinha dia que ventava e a poeira das obras subia. E ela tinha de lavar tudo de novo. Duas bacias e um balde. Esfregava no primeiro, enxaguava no segundo e completava no terceiro.

A vó criou os oito meninos e mais os dezessete netinhos. Cuidava de criança do mesmo sangue dela e de mais um monte, filha de gente que trabalhava cedo e não tinha dinheiro pra creche.

Depois que o vô morreu ela ainda viu a mata diminuir e mais casinhas sendo construídas. Tudo sem nunca deixar de usar sabão em pedra na barra da calça jeans. Ela estava aqui quando ficou perigoso. Cinquenta anos de vida mas dizem que nem parecia. Braço forte da viúva espantava os engraçadinhos que pensavam em tomar o lugar do vô. Ela viu o neto entrar na faculdade e lavou a camisa que eu usei no primeiro emprego. Na borda da laje a vó plantou coentro e pimenta. Recolheu pipa caída e gritou forte quando um moleque soltou um rojão quase na cara dela.

Eu voltei do jogo sem camisa e a corda já estava cheia de roupinha de bebê. Dos filhos do Aldo, a terceira geração de macacãozinho que a dona Palmira ajudava a cuidar, sem nunca reclamar da mão cortada ou de dor na coluna.

A vó ensaboou todos os meus jeans, minhas camisas da escola, as meias brancas.

E eu peguei o manto lavado pela vó e joguei num bueiro no Engenho de Dentro.


Porra, que merda que eu fiz?



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Imagem: Rudy Trindade
Texto: Pedro Silva
Rodada 73