domingo, 28 de maio de 2017

Paisagem e passagem



Pitoco
Eclodiu
Em diminutivo.

Havia pouco
Daqueles minutos
Que o despertador tocou
Não ouvindo juntos
O sol,
A solda,
E os soldados que ficam
Na mesa da cabeceira prestes a marchar

E a guitarra flamenca 
Tomando sol na janela de (goia)beira#à beira
Do Córrego uma avenca
Despenca na estrada
Passando roda, roda, roda

Por cima da desavença do dia. 


Rodada 75 Invertida
Texto: Fernando Andrade
Imagem: Carlos Brausz

terça-feira, 23 de maio de 2017

nada do que não seja isso

a manhã indefinida
         a chaleira fervendo
o café no coador
       os pães na chapa
e duas fadigas
      em volta da mesa
disposta com a manteiga

o banho morno
      traz uma mais fácil
realidade

a hora de sísifo
     a hora de sifu

a noite foi curta
    o dia será longo


a vida também é curta

Imagem: Lúcia Dias
Texto: Guilherme Preger

domingo, 21 de maio de 2017

the new city





cães
lobos
hienas
abutres
nas ruas
elevadores
boxes dos banheiros
gavetas das calcinhas
com seus dentes
sua baba
seus estômagos
esquartejados
carcaças espalhadas
demarcando territórios
e nós obedientes
de casa para o cadafalso
do cadafalso para casa
talvez chova logo mais no centro


Rodada 75 invertida 
texto: Cesar Cardoso 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

AVESSO





Meu avesso sentimento
Desespero incontido
Abismos, prazer e arrependimento
Voo dourado, divino
Êxtase e paúra
Carinho e luxúria
Medo, sentimento 
Amor, desatino


Rodada 75 Invertida
Texto: Maria Emília Algebaile
Imagem: Rudy Trindade

Vergonha





O homem foi forte que dava gosto ver
e bonito como poucos.
Foi íntegro, intenso, inteiro.
Agora está estirado no meio da sala
ensopado de mijo e suor
coberto de medos e pavor
olhando pros filhos
como se dissesse me levem
me escondam, me afastem
dessa vergonha, enorme vergonha.
O homem foi fogoso como um touro
enfrentou fantasmas, derrubou paredes
e carregou nos ombros tantos desaforos.
O olhar do homem, que espantou desafetos
é frio e perdido no tempo, o olhar fraqueja.
O osso se desfaz e o homem rasteja
para esconder os olhos, o corpo e o choro

de si mesmo.


Rodada 75 Invertida
Texto: Luís Pimentel
Imagem: Angela Márcia dos Santos

sexta-feira, 5 de maio de 2017

O CASSETETE DO CAPITÃO




 O cassetete do capitão
 tem o tamanho que tem seu mundo. 
 Ao bater forte bem lá no fundo
 faz todo o gozo jorrar então. 

 O cassetete do capitão
 corre com ele a caçar no mato. 
 Julga e condena por desacato,
 não adianta pedir perdão. 

O cassetete do capitão
defende o Estado dessa arruaça. 
Tome cuidado, vai virar caça, 
é censitário ser cidadão.

Texto: André Calazans
Imagem: Rudy Trindade
Rodada Extra Invertida

terça-feira, 25 de abril de 2017

nenúfar nada


nenúfar nada

não é rosa ou nenúfar: nada
plácida sobre a camada
de água confusa, extática.
impassível sobre a raia
mais profunda, obnubilada,
não diz ao que veio, nada
que não seja sua quietude
contra torvelinhos: amálgama
cromática que coalesce
entre incertezas e réstias.
não é feia nem partida,
mas toda, inteira, clara,
é sua nervura súbita
que fura a nauseante
e turva inércia líquida:
ela é pacífica,
intensa,

nítida.


Imagem: Angela Márcia dos Santos
Texto: Guilherme Preger    

domingo, 23 de abril de 2017

onde


calma
ele já volta
foi só buscar a lâmpada 
e os comprimidos
não é um adeus
ainda há desejos esfarelados
que não saltaram pela janela
olha ali no canto
não é a infância abanando o rabo?
o gol os tecidos a xícara emprestada de açúcar
os ossos

calma
os silêncios já vêm te ninar
desossar teus tímpanos
ele vai calafetar as frestas os medos as cáries
a voz do pássaro cego
olha ali no canto
não é o cão vomitando vogais?


calma
esquece o choro
engole o frio
não são seus passos subindo a escada?
vem anda
alinhava teu pesponto
teu sono forrado de pregos
estende a mão
fura bolos mata piolho pai de todos
cadê o homem que estava aqui?


Imagem Glória Mota 
Texto Cesar Cardoso
Rodada 74



sexta-feira, 21 de abril de 2017

NO FUNDO DOS SEUS OLHOS VI ESTRELAS



Éramos eu e meu clã:
a disparar
contra você em silêncio.
Eles se foram, fiquei com meus pensamentos.
Atacando.
Torres de ideias.
Sólidas, perenes
te golpeando calada.
Quando elas caíram sobraram os romances, as sagas, as lendas.
arremessadas contra você, quieta.
Logo as perdi, ficando-me apenas algumas frases, citações, grandes sentenças.
Despejadas sobre sua mudez.
Depois só me valiam as palavras soltas.
Contra sua boca sem som.
Por fim nada mais para guerrear.
A não ser suas próprias armas no terreno em que você pelejava tão bem.
Foi quando te olhei.
Li seus olhos:
O desenho da íris e a composição da pupila contando-me coisas.
No fundo dos seus olhos vi estrelas.
Deserdei com o inimigo.

Imagem: Márcia Magda - Texto: Pedro Silva - Rodada 74