sexta-feira, 13 de julho de 2018

SEMPRE TEREMOS O BECO



 
E se Deus não chegar a tempo?
E se os anjos quebrarem as asas e o silêncio?
E se os santos nos despirem a alma?
E se o capeta nos negar o direito de pecar?

Sempre teremos o beco
Refúgio final
Engasgo seco
Perfurante
Fatal

rodada 83
Imagem: Márcia Carmo
Texto: Maria Emília Algebaile

quarta-feira, 11 de julho de 2018

basculante



o território antes do mapa,
o fundo não a figura,
sem necessidade de imagem
nem de representante,
no acolhimento da penumbra,
entre a sombra que aconchega
e a luz que perturba
nenhuma forma
apenas um basculante.


Imagem: Gloria Mota
Texto: Guilherme Preger

terça-feira, 10 de julho de 2018

CHARANGA



- Já, já te conto. Antes, vamos tomar alguma coisa.
-Você toma alguma coisa... eu sempre fico só na água. Às vezes, nem isso!
- Quero dizer, eu tomo algo, a gente senta...
- Tô mais pra deitar mesmo. De preferência, de barriga pra cima.
- Ou você deita, faz o que quiser.
- Vou poder subir na cadeira?
- Só não vai poder subir na cadeira! Seu Arlindo não gosta!
- Anda mais rápido! Parece um bobo alegre...
- Acho que devo até estar andando diferente...
- Tá andando engraçado... Mais rápido, por favor! Parece que não me escuta!
- Deve ser a tal da felicidade!
...
- Duas cervejas. Quer dizer, uma cerveja e uma água. Uma água você toma, né?
- O que eu posso fazer? Nunca me deixa beber cerveja...
...
- Gosta de fazer um suspense, hein? Quero mais água, não. Conta logo!
- Cervejinha boa...
- Que som é esse?
...
Vai demorar a perceber, já sei. Eu sempre escuto antes.
...
- É fanfarra! Tá ouvindo?
- Já disse que eu escuto antes. E melhor! Também tenho o olfato melhor. Dá de mil a zero no teu.
- Não sabe o que é?
- É lógico que eu sei o que é, seu tonto! Você sempre me tratando como se eu fosse um animal irracional.
...
- É banda!
- Eu já disse que sei o que é!
- É charanga...!
- Olha aí! Menosprezando minha inteligência...
- “Vai, vai, vai começar a brincadeira... tem charanga tocando a noite inteira...”.
- Tá alegre, né?
- Tirei uma linda foto hoje! Mas essa não é a notícia, não.
- Zzzzzz...
- Vou te dar um pouquinho de cerveja. Hoje você merece! Todo mundo merece. Queria gritar pro bar inteiro ouvir... Anunciar na charanga!
- Se você gritar, ajudo na algazarra! Mas Seu Arlindo não gosta... Me leva ali pra ouvir mais de perto a charanga. Aproveito e dou uma mijada.
- Mais um gole só e bora lá ouvir a fanfarra de mais perto!
...
- Que som! A...u...a...uuuuuhhh...
- Vai gostar do que eu tenho pra te contar!
- Vou?
- Dá aqui tua orelha...
...
- Ela tá grávida, amigo. Finalmente, grávida!!!

Rodada 83
Imagem: Rudy Trindade
Texto: Eliane França

BALANÇO




1.
Sempre que anoitecia, minha mãe chegava com aquelas pessoas.  Quando eles iam embora, eu abria os olhos e o dia já tinha voltado pela janela. Mesmo sozinho, eu me despedia: até de noite, Emília, Dona Benta, Tia Anastácia, Visconde de Sabugosa.
2 .
Não comi, não falei nada. Meu pai me mandou sentar: abre a boca. Descobriu o dente de leite e montou o consultório numa mesinha improvisada. Algodão, gaze, álcool, linha. Uma cerveja e dois copos. “Primeiro, a anestesia.” E encheu os copos, fazendo espuma.
3.
A avó me proibiu de balançar. “Você tem quarenta minutos para pensar no que o pastor disse.” Foi assim que aprendi a ver as horas.
4.
O avô sentava e dormia imediatamente. Mas começava a fazer uns barulhos. E de repente, acordava completamente mudado. Agora ele era o Monstro do Milharal e, mesmo mancando de uma perna e com o corpo todo torto, saía correndo atrás da gente, grunhindo. Até o dia em que ele sentou, dormiu em silêncio e o Monstro do Milharal nunca mais apareceu.


Rodada 83
Texto: Cesar Cardoso
Imagem: Walter Vinagre



sexta-feira, 6 de julho de 2018

TANTAS ASAS


Eram tantas as asas
Quando tinha os cabelos escuros
Tantos voos
Com as pernas ainda sãs
Tantos sonhos
E desejos
E planos
E agora este rés de chão
Olhando para baixo
Para baixo
Para dentro do meu coração

Imagem: Marilene Nacaratti
Texto: Maria Emilia Algebaile
Rodada n°83


quarta-feira, 27 de junho de 2018

IMAGEM AZUL


Sombra branda vulto que branda que verseja poema samba no azul onde a sombra é movimento, balanço Sobre o vento, lembrança do azul de uma sombra brasileira Painel de pai, paisagem alegórica Não baça a lente perfil de galegos O que é frente ou fundo na dança? Imagem fremida ou congelada Sombra de um animal d'onça Vida & festa infesta neste post Caneta Lente Pincel, vida desassossegada. 

Texto: Fernando Andrade
Imagem: Pilar Domingo

quinta-feira, 21 de junho de 2018

ESPELHO D'ÁGUA



A atriz se olha no espelho e descobre que nem tudo está perdido.

O cenário está no lugar, as malas na plataforma, o trem não apitou na estação e não foi dado ainda o terceiro sinal para entrar em cena.

A atriz admira o próprio corpo, ainda tão desejado. Ensaia a voz e o canto que encantam deuses. E sorri para o espelho. Encanta-se com a própria imagem que a tantos encanta.

Então se atira no espelho.

Mas é um espelho d' água. Um espelho de águas profundas. Ela sempre ouviu sobre a necessidade imperiosa de ir ao fundo da arte.

No mergulho da atriz, o drama final.


Imagem: Rachel Amaro Mendonça
Texto: Luís Pimentel
Rodada 83

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Feirar




Se pudesse, não voltava nunca mais para lá. O cheiro, o barulho, as pessoas. Aquelas notas amassadas de dinheiro, o contar de moedas, o dia passando tão lento, os gritos de sempre. Tudo me enojava. Não por causa dos cadáveres de bichos mortos pendurados. Não pela sujeira, pelas gotas de sangue coagulado espalhadas pelos cantos. Não me tirava o chão o meu pai dizendo, sem disfarçar ironia, que aquilo tudo seria meu. Aquilo tudo o que? Essa tristeza de depenar galinhas? Esse falso sorriso que sou obrigada a vender junto às carcaças que seriam cozidas, assadas ou fritas? Aquilo tudo o que? Eu me perguntava, mas não conseguia dizer: hoje eu não vou. Não vou nunca mais. Vou aceitar aquela bolsa de estudos, vou me pendurar em algum trapézio de algum circo que venha me resgatar, vou aceitar o noivado com um filho de fazendeiro qualquer, nem que seja psicopata ocioso, qualquer coisa... menos voltar à venda. Tudo, menos voltar a ter a mão do próprio irmão do meu pai a me alisar quando ninguém estava olhando. A colocar o dedo indicador sobre a boca, com uma piscadela asquerosa, quando ia embora. Não sem antes passar também a mão na caixa registradora. E meu pai a me acusar, cadê o dinheiro que devia estar aqui? E eu, muda. Sem falar nada. Isso, sim, me fazia ficar sem chão. Perdida ali. Nesse mundo. Que não consigo escapar. Coragem nenhuma. De falar nada. Vergonha. De tudo. Vontade. De entrar no corpo desse felino e fugir daqui.

Rodada 82
Imagem: Marilene Nacaratti
Texto: Eliane França

sábado, 19 de maio de 2018

gênesis




caminho faz horas. caminho é um jeito tênue de contar: muito mais arrasto os vestígios de mim pela areia úmida da praia, enfim deserta nas primeiras horas do novo ano. as cinzas de quem eu era se misturam aos farelos da manhã, restos de comemoração dispersos à maneira de um quebra-cabeças recém desfeito.
diante de mim, uma oferenda devolvida pelo mar - ou, ao menos, é o que os meus olhos precários entendem ser. com os dedos dos pés, passo a desenhar contornos, setas e sinais, conferindo à oferenda assimetrias e identidade.

logo eu que, há pouco, era apenas resíduo, transmuto-me em artesão,  criador poderoso a lançar tintas de cores vivas na tela nua. e pressinto que, no momento exato em que as coisas estavam maduras para terminar, curiosamente parecem outra vez prontas para nascer.


Rodada 82
Imagem: Pilar
Texto: Robson