segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

NO CAMINHO PARA ANGICOS





terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Húmus



da partida
ao retorno
enseivado
no húmus
mundano
me ta bo li
ca men te
esfoliado
em nervuras
estame
e corolas
coloridas
disseminando
o caminhar
de um circuito
sempiterno
e solenoidal
para reencontrar
seu princípio
de volta mas
transformado
em algo mais
outramente

diverso

Imagem: Carlos Brausz
Texto: Guilherme Preger 

domingo, 18 de dezembro de 2016

Terra Batida


Mônica morreu num dia de julho.
Era a primeira vez que eu voltava à casa e pedi para descer uns quilômetros atrás.
– Vai ficar olhando os moinhos de vento, Dom Quixote?
– Ou ao menos pedir para que olhem por mim.
Quem falava era minha atual mulher. Ela não entenderia. Eu mesmo não saberia bem explicar. Desci do carro e ela foi embora com a nossa filha. Vi quando a menina colocou a cabeça para fora:
– Tchau, papai!
Se eu pudesse, antes de vir aqui pararia no bar da Vila. Para a bebida me apagar um pouco. Mas estava longe.
Mônica morreu grávida. E dessa lembrança a cachaça não me livraria.
Eu calçava um tênis Nike de correr no asfalto, leve mas estranho à paisagem. Descalcei, amarrei os cadarços um ao outro e pendurei no ombro. Ventava muito e esse era todo o ruído que eu podia ouvir. Dois minutos depois o carro com as duas desapareceu e ninguém mais passaria por aquela estrada naquele dia, naquele ano, naquela vida. Queria ter ido ao bar da Vila. Deveria.
As pedras no chão machucavam meu pé. Dava para sentir o molhado da terra. Ficamos ali, irmanados, ela e eu, como muitos anos atrás fazíamos sempre. Aquela terra recebeu tudo que um dia me fora importante. Comeu as vísceras do primeiro bezerro que não deixei matarem e morreu de velhice, bebeu litros e litros de minha urina, tragou sem reclamar os jatos de esperma que ela dividia apenas com o tronco do umbuzeiro que me protegia dos olhos e do sol, engoliu o vômito de minha embriaguez quando aprendi a beber. Foi essa terra que comeu Seu Zózimo e minha mãe. Por isso desci antes e preferi conversar com minhas pegadas molhadas. Essa terra comeu Mônica, que era a minha mulher, e o filho que nunca foi nomeado. Minha sola grossa lixava a terra e eu me arrependia de não ter bebido.
Foi no bar da Vila que descobri uma de minhas verdades. Em casa perguntei à mãe:
– Eu sou filho do Seu Zózimo?
Meu pai – ou quem eu achava ser meu pai mas, naquele dia, descobri ser apenas o homem que me emprestara o sobrenome - já havia sumido na capital há anos. Ainda assim ela sentiu vergonha ao confirmar: “sim”. Eu saí correndo para além do curral, o dia estava seco e empoeirado, sujava a barra da calça, formava uma nuvem atrás de mim, eu engolia essa mesma terra onde hoje piso de modo que um dia ela já foi parte do meu pulmão, do meu estômago, do fio de caminho de lesma que ficou na minha cara quando a primeira lágrima escorreu.
Foi neste chão que me casei. Eu cursara toda a faculdade de engenharia no sul, mas voltara porque num desvio desta estrada morava a Mônica. Eu amava a Mônica desde que me dava por gente, desde que tinha lembrança. Por isso voltei. Porque ela havia passado seis anos me esperando. E isso era amor de verdade. Amor existe na espera. E eu não sabia o que era o amor sem a Mônica. Eu voltei para casar e logo em seguida tive de viajar novamente, últimas provas, entrega da monografia, meses no sul. Péssima escolha.
Eu também não sabia o que era alegria sem o bar. O bar da Vila. São poucas as propriedades por aqui. Quatro homens são donos de tudo o que a vista acolhe. Inclusive da vida dos peões. E peão fica xucro sem festa, sem mulher, sem beber. Por isso, uns oito quilômetros entrando pela estrada, abriram uma clareira e montaram a vila. Tinha fumo de corda, café fresco, farinha de trigo. Com o tempo começou a morar gente, umas duas famílias que viviam de abastecer a peãozada da região. Mas o que mais dava dinheiro era o bar. Era onde se agrupava todo mundo. Eu nunca soube porque gostava tanto daquilo. Talvez por um único motivo: lá não importava se eu era filho do homem que me dera o sobrenome que carrego – e de toda essa terra por onde agora caminho – ou do Seu Zózimo, cujo sangue realmente me irrigava.
O bar.
A Mônica.
Ela tinha um olho claro, como o da minha mulher de agora. Mas a natureza tinha sido tinhosa. Deu para Mônica uma boca gigantesca e uma pinta no lado direito. Boca de levantar desejo. E um fogo que correspondia. Mesmo grávida não descansava.
Nunca acharam o corpo dela. Tem quem pense que pode estar viva. Eu desconverso quando falam perto de mim, faço que não estou, mudo de prosa. O pessoal logo entende. Quando não entendem saio de perto e deixo falarem. Aqui viveu Mônica e meu filho. Se fosse menino iria se chamar Bento. Se menina, Beatriz. Foi tudo nessa terra aqui. Nunca acharam o corpo deles. Aqui viveu Mônica e um bebê que ela carregou na barriga por oito meses até o dia em que descobri, no bar, que eu não era o verdadeiro pai.
Texto: Pedro Silva
Imagem: Lucia Dias
Rodada 71

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Sempre em linha reta





Mais complexo que meu medo de ficar, é esse desejo de ir em linha reta. Sem manuais, sem exemplos, sem saber por onde começar ou desviar, tracei um rumo e vou. Meu pai me disse que não é bem assim, que a terra é redonda, que a vida não basta, que os caminhos são armadilhas e labirintos. Meu pai me disse mas, como eu nunca acreditei nele, simplesmente ignorei. Ele também me disse que amou minha mãe, mas acho que se esqueceu de mostrar isso para ela. Ele também me disse que Elzinha não era flor que se cheirasse e eu o encontrei com o nariz entre as pernas dela lá nos fundos do quintal. Elzinha, minha primeira e última tentação. Eu vou em frente, nada me desvia do meu rumo. Não hei de ser nau perdida em mar bravio como o velho. Eu vou em frente. Sem curvas, sem pensar em alternativas, sem vontade de recomeçar. Ele me avisou rapaz, faça isso com sua vida não... Mas ele queria que eu fizesse com a minha vida o que ele fez com a dele? Ele me disse que andar na montanha russa é melhor que ficar quarando ao sol. Morcegos são mais interessantes que lagartos. Ele me disse muita coisa, mas sigo em frente. Pode ser que nos encontremos um dia, embora nossas vidas paralelas nos levem a pontos de chegada tão distantes...porque, no fim, tanto faz.


Imagem: Paulo de Resende
Texto: Maria Emilia Algebaile
Rodada 71

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Além do horizonte




O tempo agora se fixa na existência dele, na labuta diária, ocasião em que seu olhar se perde à procura do próximo instante, como se pudesse prever aquele momento que está na iminência de acontecer. O tempo se fixa nesse ponto exato entre a memória e a expectativa, onde tudo ainda é perfeito, porque incompleto e inexistente. O olhar se perde em vazios preenchidos por mar e concreto, enquanto o tempo constrói seus instantes suspensos entre as saudades e os sonhos. Saudades de jogos nostálgicos de pião, da voz do filho que foi embora, dos tropeços do acaso. O olhar se perde e reconstrói o desconhecido a partir de uma ou mais expectativas frustradas. O olhar se perde e se fixa em sonhos, que esbarram exatamente na linha do horizonte. Logo ali, onde o construído afirma o tempo todo a existência do homem.


Imagem: Gloria Mota
Texto: Danielle Schlossarek

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Ela, eu, o fusca, Drummond e Noel




Ela, eu, o fusca, Drummond e Noel
(Uma crônica embrulhada em letra de canção)

Eu e ela e o fusca
e um fim de tarde
que parecia não
anoitecer jamais.
Eu e ela no fusca
entre gravetos
que nos levavam
por um caminho
que não era estrada
que não era esperança
que não era nada.
Eu e ela e no fim
do caminho tinha uma pedra
que Drummond desconhecia.
O fusca estancou na pedra
e nós estancamos no sonho
quando finalmente
chegava o entardecer
ah, o entardecer...
Abrimos as portas
e descemos para fumar
e olhar o tempo
e contemplar o mundo.
Eu cheio de amor para dar
ela mastigando palavras
entre uma tragada e outra:
A-ca-bou. Você não entende?
A-ca-bou...
Naquele dia, pela primeira vez,
o motor do fusca não pegou
e jurei não mais amar,
plagiando Noel Rosa
pela décima vez.

 Rodada nº 71
Imagem: Magali Rios
Texto: Luís Pimentel


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Sobre ventar

A persistência dessa vontade
que volta como tempestade
que nem ventania após a estia

Inspiro cada suspiro
e sopro bem querer
furacões pulsam meus pulmões

- Abra todas as janelas!
Também sou brisa
e quero ficar
Ela diz...



Rodada 70
Imagem: Carlos Brausz
Texto: Carolina de Araujo

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O mais belo pôr do sol




     Depois de dar uma banana para o motorista que buzinava e xingava e mordia o painel do carro, que freara a poucos passos do seu corpo magro, ele olhou para cima e atravessou a avenida em dominó, atingindo o calçadão reticulado e mergulhando os pés descalços na areia quente.
A mochila no ombro.
     E ali, diante do mar, um olho nas ondas e outro no voo oblíquo da gaivota, sorrindo ao céu e à cadência da moça que mergulhava das pedras, exibindo no dorso o mais belo pôr do sol, acomodou os ossos entre o menino que jogava frescobol e o vendedor que espalhava picolés baratos e mate com limão geladinho.
E assim abriu a mochila aninhada sobre as pernas rútilas de varizes cinza, coçou a sola de um pé com a unha do outro e abraçou com as duas mãos o sanduíche de mortadela. A primeira mordida no momento exato em que a moça retornava, as gotas de água pingando dos bicos dos dois irmãos sobre o seu sanduíche. Os olhos acesos no brilho do mais lindo pôr do sol só conseguiram gaguejar:
– Quer um pedaço?
– Quero – ela disse.
Era quase noite, o dia morria ali por trás da Pedra da Gávea.

 (Do livro “Cenas de cinema – conto em gotas”. Editora Myrrha)

Rodada nº 70
Imagem: Gloria Mota
Texto: Luís Pimentel

domingo, 13 de novembro de 2016

HIMENÓPTEROS FOMICÍDEOS






Passei a tarde toda desenhando formigas. De todos os tamanhos, formatos e cores.
A formiga-de-bode, azulada e que não dá picadas. A de ferrão, bem preta e de corpo alongado. A correição, com suas enormes mandíbulas. A lava-pé ou malagueta, miúda, sem olhos. A chiadeira, também chamada formiga-de-bentinho ou feiticeira, de cor avermelhada e abdômen arredondado. A asteca, a mais gordinha de todas, talvez por viver comendo os frutos dos cacaueiros da Bahia. A violenta cabaça, que se alimenta de cupins bem maiores do que ela. A açucareira, tão miudinha e roxa, sempre catando doces nas nossas cozinhas. A argentina ou cuiabana, amarelada e de antenas longas. A quenquém ou caçadora, que voa com desenvoltura. A estranha formiga-leão, que parece uma libélula. E as nossas tão conhecidas saúva e tanajura, temidas na lavoura e apreciadas na farofa.
À noite, enquanto eu dormia, mansamente elas saíram dos cadernos. Tanajuras, saúvas, leões. Em largas filas bem ordenadas, desceram pelas pernas da mesa e tomaram todo o chão da sala. Quenquéns, argentinas, açucareiras, cabaças. Atravessaram a casa em marcha, até subir pelos pés da minha cama. Astecas, feiticeiras, malaguetas, correições, de ferrão, de bode. Lentamente devoraram o cobertor e me cobriram.   




Rodada nº 70
Imagem de Paulo Rezende
Texto de Cesar Cardoso