sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O paraíso









Até o dia em que tomou a decisão:
“Vou, antes que o mundo exploda em meus olhos, que o tempo me cobre todo o tempo que me deu por empréstimo”.
E assim o fez: descobriu o endereço do paraíso e picou a mula com destino ao desconhecido. Lá se instalou, entre pássaros exóticos, árvores misteriosas, pedras e praias virgens.
Uma beleza.
Um dia, enquanto apreciava o balé das ondas e cantava “O barquinho vai, o barquinho vem”, sentindo o corpo ainda molhado a estirar-se na areia, ouviu a voz bem conhecida (até ali, naquele fim de mundo?):
– Acorda, meu amor, vamos procurar um médico. Você está ardendo em febre e ensopado de suor.
Ah, o paraíso... O paraíso vai ter que ficar para outro dia.


Rodada 73
Imagem: Lucia Dias
Texto: Luís Pimentel

Admirável mundo narravê-lo





corretivo
coletivo
revertido?
Consentido?
O que Ivo
viu no androide da involução
O que ouviu?  da voz paranoide
Um vírus vivo?
Deambula em impressos virtuais.
Consecutivo seria? um opioide
Onde a dor seria um sonâmbulo
para o máscáraterhumanoide. 

Rodada 73
Imagem: Márcia Magda
Texto: Fernando Andrade  


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

TÃO


Não desliga. Preciso te falar isto ao menos desta vez. Sabe aquela noite em que nos sentamos ao lado no cinema? Quis segurar sua mão e dizer o quanto éramos... acho que especiais. Mas, sabe, isto não seria uma declaração de amor qualquer, nem seria declaração de nada, somente confissão. Éramos especiais naquela época. Acho que por conta de nossos gostos, das nossas muitas faces, dos nossos gestos. Como? Repete que o som tá baixo. Especiais para quem? Acho que um para o outro. Talvez para quem estivesse por perto. Você nunca sentiu isto? Poxa, é triste pensar assim. Algo tão forte. E somente eu senti. Por que eu não disse antes? Porque não deu tempo. Andava cansado. Andava pouco. Mal pude contar agora. Sei lá, a timidez.

Como? O que espero de você? Acho que o direito de ser especial. Não tá bom? Calma, não é cobrança. Respira. Não, não quero mudar nada. Só te dizer que queria ter dormido no seu colo nos últimos anos. Sei que é muita coisa. Não chora. Não muda nada. O que? Ao fundo? É aquela música bonita da moça que diz que "quer dois filhos, um barco à velas e respostas" e que ouvimos na casa da minha mãe. Não, minha mãe nunca soube, deixa disso. Você era especial só para mim. Só para dentro.

Eu sei, não precisa repetir... ok, tá bom, juro que não toco mais neste assunto... combinado. Eu só tentei ficar aqui, só tentei ficar sozinho, sabe? Ficar bem. Mas é tão difícil, tão...

Eu sei que parece pretensão demais. Imagina, nunca quis ser seu dono, nem agora nem naquela época. É egoísta, mas é que dói tanto, sabe?  A ideia de que você é livre para fazer o que quiser (inclusive pra não me ver mais) é angustiante. E se um dia você escolher ir embora para sempre? É tão difícil.

Pois é, tentei te ligar outras vezes. Foi. Tento sempre. Sua mãe me disse que as horas que você passa em casa tem sido casa vez mais curtas, mais vazias. Que você tem dormido mal, murmurado pesadelos. Sabe, me preocupo, poxa. Só isto. No mais, foi você quem me ensinou a... tá bom... também não toco mais nisso. O "tema das coisas que você me ensinou". Assunto esgotado. O problema é que foram tantas...

Não precisa, estou bem com a grana daqui. Ok, ligo se precisar, juro. Mas o que tem faltado não é isso, tem faltado aquela palavra mágica, como a do Ali-babá que abria portas. As fechaduras não têm mais aceitado palavras geniais. Mas por que você pergunta isto? Realmente importa? Porque odeio que sintam pena de mim. Odeio isto, essa coisa disfarçada de amor. Eu não acabei. Eu tô só começando. E o que temos para diante não pode ser pequeno. Ou talvez não exista um deus.

Quando você mandou?! Nunca recebi! Vinha perfumada? Será que extraviou? Para com isto! Nunca! Nunca mentiria! Ok, eu sei. Mas você sabe que aquela voz do cara que cantava dizendo que o amanhã não existe sempre me emocionou. Por isso sou tão imediato.

Também não mais. Cansei daqueles livros que me entristeciam. Agora eu me choro nas minhas próprias palavras. Minhas e suas, se você quiser. Tá bom, eu te mando, mando sim.


Ontem passou uma moça ao meu lado que estava exatamente com aquele cheiro. Sim, o que você trouxe da viagem. Ela perfumou todo o saguão do prédio. Mas talvez só para mim aquele cheiro fizesse sentido. Sempre gostei de pequenos prazeres e lembrar aquilo que você significava ao meu nariz é das menores e maiores coisas que posso ter. Sua lembrança será sempre tão, tão...

Texto: Pedro Silva
Imagem: Carlos Brausz
Rodada 72 (fevereiro de 2017)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

LIFE ON DEMAND




Nas rodoviárias dezenas de messias descendo dos ônibus num empurra-empurra. Nos aeroportos centenas de messias saindo dos voos lotados e aguardando o milagre da liberação na alfândega. Nos portos milhares de messias nem esperam os navios atracarem, já se atiram ao mar e caminham por sobre as águas até a terra firme e prometida. 
Não precisamos de cidadania, título de eleitor, identidade. Nossa identidade é o tênis que usamos, o carro que compramos. Viver é gastar no cartão. Amor, eu sou um novo homem, solicitei pra hoje mesmo o programa completo pela Central de Atendimento.
E chegamos. Ah! Grandes corporações escrevem poesia. Indústrias das armas dançam balé. Cartéis de drogas tocam sonatas. Das maternidades saem bebês-propaganda. Os discursos se falam sem precisar de bocas, faringes, cordas vocais, ar nos pulmões. O silêncio foi proibido em todo o território internacional e as letras S foram transformadas em cãezinhos para crianças pela reengenharia genética.   Todos os fatos são pardos. Que importância têm as coisas? Chips subcutâneos nos fazem reproduzir, escolhem a programação do compceltv, autorizam amores, bombardeiam países. O fundamentalismo ao alcance de todos. A catatonia em três lições. Os dez pixels para a felicidade.
Liberdade, liberdade, abre as patas sobre nós.




Rodada 72 invertida

Texto: Cesar Cardoso 
Imagem: Lucia Dias

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Além


por todo seguir do traço
o que cambaleia persiste
por entre dois reinos
aparentemente distantes:
por um lado o conforto
dos fios emaranhados
por rede que a tudo guarda
e embalança: é multicolor
e multiforme o espaço
interior: profícuo,
extensamente situa
e orienta: o tempo
escorre, caloroso coloide,
para o lado de fora: o outro,
o confuso, o gasoso,
o ruidoso, o perigoso.
de lá todo vento ruge
qual ciclone que
avança: perturbação
impossível de reter,
monstro ou equívoco,
e o passo vacila e despenca
para o lado de dentro(?) NÃO!
não aquém da borda,
-linha, limite-
porém aonde leva o desejo
longe

para além do horizonte

Rodada 72 Invertida
Imagem: Gloria Mota
Texto: Guilherme Preger

sábado, 28 de janeiro de 2017

Ilusões


A vida padece e parece
um aparente descarte
do que não aparece.

O que carece: Descartes!



Rodada 71
Imagem: Rudy Trindade
Texto: Carolina de Araujo

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Data e hora



Dê sua data e hora
Para um relacionamento.
Ata-me pelos seus dias.

Inserir atalhos, piora?
Porque o amor tá uma obra difícil.
Há que cantar alhos por bugalhos,
Há que subir em árvores
Colher flores e frutas, balançar em galhos

O instante vem depois dos vetores,
Relógios medem atos e ficções.
Para um Pã desiludido, um quazar
Onde o erotismo possa ter pelo menos, umas (re)feições.

Rodada nº 72 invertida
Texto: Fernando Andrade
Imagem: Magali Rios



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

NO CAMINHO PARA ANGICOS





terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Húmus



da partida
ao retorno
enseivado
no húmus
mundano
me ta bo li
ca men te
esfoliado
em nervuras
estame
e corolas
coloridas
disseminando
o caminhar
de um circuito
sempiterno
e solenoidal
para reencontrar
seu princípio
de volta mas
transformado
em algo mais
outramente

diverso

Imagem: Carlos Brausz
Texto: Guilherme Preger