domingo, 1 de abril de 2018

Méchant


«Tenho medo que você seja um méchant», dizia ela.
O estado atual em que ele se encontrava a amedrontava: um grande sismo, uma ruptura, uma vida que gritava para ser refeita.
Um farrapo desprezível de gente se apresentava na frente dela.

Ele já tinha visto uma vida nascer, já tinha sentido aquilo que vem do íntimo e das profundezas a explodir por todos os poros.
Ele já havia dado o que não tinha e recebido aquilo que não precisava.
Ele sabia, também, que é o peso - o peso daquela que entra neste jogo de dar o que não se tem a quem não quer - que é o peso desta mulher que reordena a vida de um homem.

«Tenho medo que você seja um méchant», dizia ela, insistentemente.
«Putain» ela também dizia quando tinha prazer do seu corpo através do corpo dele, ao mesmo tempo que o agarrava com suas pernas, com seus braços, com seus beijos, com seu suor.

Ele viu que a cama dela era bagunçada como a sua.
Ele aprendeu com ela a comer iogurte no café da manhã - ele puro, ela com passas e granola.
Ele queria uma filha com ela, queria vê-la nessa transformação, transformação que desafia o homem a ser capaz de contemplar, acompanhar, admirar e fascinar-se, fascinar-se por esta que o acolheu e incorporou, fascinar-se por esta que agora faz esse algo que só se pode dizer com o testemunho do próprio corpo masculino feito presença inteira, silenciosa, firme e contemplativa.

A foto dela tinha um mistério, um mistério que se mantinha quando ela estava ali na sua frente como mulher inteira, entregue ou reticente.
Extático.
Ela o fascinava de um jeito completamente novo e extremamente intenso.
Ele se abriu.
Ela o invadiu com tamanha intensidade, rapidez e fluidez que ele não pôde bloquear, despertando o que ele havia de mais profundo sem a possibilidade de seleção.

«Tenho medo que você seja um méchant», sussurrava.
E o corpo dele estremecia e se esfarelava.
A voz já estava dentro e ele já não tinha um espaço para ver-se de frente a partir de si.
Já não tinha espaço, desci.
Já não tim rá ex-passo desejo de si.
Um ex que não passa o desejo, desci, cedido.

«Coloque-me no seu passado», ela lhe disse.

Paralisia:
Do francês «paralysie», substantivo feminino
1. [Medicina]  Doença em que alguma parte do corpo perde a sensação ou o movimento ou ambas as coisas ao mesmo tempo.
2. [Figurado]  Marasmo, entorpecimento.
3. Impossibilidade de operar.

Todo seu corpo ficou imóvel no centro da sala.
Nenhum músculo a mover-se, nenhum ar.
Estático, somente a pele sentia uma brisa deslizando, tal como aquela meditação que destruiu a potência de tudo.

Nada se movia.
Nada pulsava, andava.
Nada corria, chorava, fervia ou vivia.
Nada fazia, nem sentido fazia.
Nada. Atonia.

Nem a janela, aquela janela que sempre se quis pular, nem ela era algo possível ou desejada.
Ficou imóvel, contemplando a sensação de arrancado, de peito, de transparência, de oco, de pouco e de muito, de nada, de plenitude seca dilacerada roubada perdida e espremida.

Ficou imóvel por dias.
Por dias ficou a ressoar a voz: «Méchant, coloque-me no seu passado!».

Seria possível ter uma capacidade de desprezo a ponto de rejeitar os afetos e se desligar completamente pedindo que se seja colocada como um passado?
Ou seria isso uma fuga, um medo de um envolvimento, de uma vida, de um laço?
Seria possível ser um méchant mesmo frente a um sentimento assim intenso?

Se fosse forçado a escolher entre o desprezo e a méchanceté, por buscar o caminho que o levaria a algo afetuoso, ele escolheria esta palavra francesa que ele não é capaz de traduzir…

Ficou imóvel.
E contemplou o jardim secreto.
E vislumbrou flores, o verde, o rio.
E contemplou.

E jogou-se a cultivar esse espaço jardim para si só e a não saber mais sobre o futuro, nem pelo sim, nem pelo não, nem pelo encontro, nem pelo desencontro, sem esperança e sem esperar, ex-perar.

E jogou-se a cultivar o seu jardim secreto, pois sabe da morte e a faz uma companheira à vida.
E jogou-se a cultivar o seu jardim secreto, pois sabe da sedução e da jouissance.
E jogou-se a cultivar o seu jardim secreto, pois necessita do cultivo constante e cuidadoso.
E jogou-se a cultivar o seu jardim secreto, pois tenta fazer do afeto sua escolha possível.

Este jardim, ele o deseja inteiro.


Rodada 81 Invertida
Texto: Gilson Beck
Imagem: Angela Márcia

sexta-feira, 30 de março de 2018

um homem de sorte




 faz um par de dias que não consigo parar de pensar. sei que é preciso dar significado às horas, mas nenhuma ideia precisa me ocorre. meu cérebro não sossega, como se estivesse tentando abrir caminho na multidão de possibilidades. são tantas e nenhuma, como pode? duas da manhã: passo à varanda e observo. é possível ouvir cada estalo do bairro. esparsas telas acesas denunciam consultas tardias às redes. que respostas buscam as pessoas? de repente, o mundo ficou urgente e nada pode esperar. cogito descer, examinar o quarteirão, as árvores e as casas sem os adornos da rotina. desisto. a hostilidade dos dias encheu de cinza as ruas. ainda assim, sempre há aqueles que seguem fazendo exatamente tudo o que faziam, e há mesmo aqueles que acreditam que não há nada de diferente que pudessem fazer. decerto não lhes interessa investigar o universo de coisas a que devemos atentar. e quanto a mim? me reconheço na pessoa que me tornei? quão honesta seria a resposta, houvesse resposta? distraio-me: há uma série de coisas pra não serem feitas de que me ocupar. sou um homem de sorte.

Rodada 81 Invertida
Texto: Robson Aguiar
Imagem: Lucia Dias


quinta-feira, 29 de março de 2018

Casos de hoje, janelas de perto

Casos de hoje, janelas de perto

Sim, bebi o sangue
E sorvi a linguagem,
O sangue derramado
parecia poema minerado.
Um corpo em pó
Esmasculado da sua extrema
força política em virar lua-luta.
Sol-selvagem como emblema dos temas possíveis
casos de hoje janelas de perto, enterrado.

Rodada 81 invertida
texto: 'Casos de hoje, janelas de perto' de Fernando Andrade
Vídeo arte 'Janela' de Maria Matina



terça-feira, 27 de março de 2018

PARA O SEU CONFORTO




Estamos trabalhando para o seu conforto. Venha, sorria, estacione, fique à vontade. É para o seu conforto.
Há muita gente que não deseja o seu conforto, sabia?Você nem imagina do que eles são capazes.  Mas não fique nervoso. Nós estamos aqui. Só não vê quem não quer. Mas quem não quer? 
E o que você quiser, nós levamos até você. Basta pedir. Ou nem isso. Nós sabemos. Nós adivinhamos. Vivemos só para te servir. E para a sua total segurança, essa nossa conversa está sendo gravada.
Neste exato momento, por exemplo: você quer um drinque? Um cachorrinho? O seu rosto num outdoor? Na tv? Nós damos um jeito, nós fazemos a sua felicidade. Ainda há barulho lá fora? Não se assuste. É um pesadelo, sim,mas está lá fora. E vai ficar lá. Porque nós estamos aqui.
Por favor, nos acompanhe.
É para o seu conforto.

Rodada 81 Invertida
Texto: Cesar Cardoso
Imagem: Rachel Amaro 

domingo, 25 de março de 2018

Miudeza




      – Quanto é a bala de tamarindo? – eu perguntei.
     – Um real o pacotinho com cinco – respondeu o menino.
     Passei a nota de dois. Ele não tinha troco.
     – Pego o troco outra hora – eu disse.
     – Não. Pague depois – disse ele.
     As grandes cenas, as falas monumentais e os gestos grandiosos a mídia reproduz e o tempo apaga.
     Não se iluda, meu filho. Só ficam mesmo os momentos singelos, os diálogos toscos, a expressão miúda.
    

Rodada 81 Invertida
Texto:  Luís Pimentel
Imagem: Marilene Nacaratti

terça-feira, 20 de março de 2018

DOIS DIAS





1. Água clorada e fluoretada, sabonete antisséptico, líquido para lentes de contato, creme de barbear, gel pós-barba, desodorante antitranspirante, creme de pentear, pasta de dente, enxaguante bucal, hidratantes diversos, talco, perfume importado. Oxalato de escitalopram, álcool gel, aspartame, margarina sem gorduras trans, detergente. Odorizador de automóveis, gasolina aditivada, óleo para motores, cera automotiva. Tinta para caneta, tinta para carimbo, silício, alumínio, silicone, aço, aspirina, café descafeinado, spray antiodor, sabonete em barra, água clorada e fluoretada, omeprazol, sal iodado, metal antioxidante, refrigerante, álcool em gel, perfume importado, tinta para caneta, silício. Ketchup, suco em caixinha, pasta de dente, enxaguante bucal, água clorada e fluoretada, xampu, condicionador, travesseiro anti-ácaro, descongestionante nasal, clonazepam. 

 2. Água clorada e fluoretada, sabonete antisséptico, líquido para lentes de contato, creme de barbear, gel pós-barba, desodorante antitranspirante, creme de pentear, pasta de dente, enxaguante bucal, hidratantes diversos, talco, perfume importado. Oxalato de escitalopram, álcool gel, aspartame, margarina sem gorduras trans, detergente. Odorizador de automóveis, gasolina aditivada, óleo para motores, cera automotiva, adrenalina, óleo na pista, álcool a 70%, gel condutor,  clorexidina, soro fisiológico, amiodarona, epinefrina, fentanil, tinta para caneta, formol, necromaquiagem, mdf.


Rodada 81 Invertida
Texto: Pedro Silva
Imagem: Pilar Domingo

domingo, 18 de março de 2018

AS BRUMAS DA BAÍA DA GUANABARA







Naquele dia, as brumas chegaram mais tarde. Um início de sol já esquentava as carcaças dos cariocas quando uma névoa branca veio chegando pelo mar e invadiu praias, ruas, túneis, pessoas, bairros, chegando aos recantos mais distantes da Baía da Guanabara, das almas, dos corações e das  mentes.
Por onde passava, despertava comportamentos fundamentados sabe-se lá em que parte obscura da mente e do coração. Aos que pensaram nas Brumas de Avalon, foi fácil imaginar rituais sob a densa cerração com homens e mulheres dionisíacos dançando, bebendo e fazendo sexo pelas areias das praias desertas, quando o Rio ainda não era o que é hoje, mas já tinha nas entranhas a promiscuidade e a lascívia.
Quem achou tratar-se do fim do mundo, aproveitou-se do espesso nevoeiro para dar sentido à vida e se entregar à realização dos mais escondidos pecados, coisas em que nem ousavam pensar. Não era nem preciso fechar os olhos e deixar-se ir. As brumas tinham esse efeito embriagador e provocador, ao mesmo tempo em que serviam de escudo e esconderijo.
Alguns pensaram numa passagem bíblica e buscaram sua religação com o divino, abandonando seus sagrados corpos aos prazeres exigidos pelos deuses do amor e da luxúria. Rituais de encantamento e fertilidade cederam lugar aos comportamentos 3X4 das revistas de fofocas e as pessoas se sentiram mais felizes.
Homens e mulheres de negócios que, no início, ficaram com raiva por conta do atraso nos vôos da ponte aérea, deram-se um momento de folga, afrouxando a gravata, pisando descalços o chão gelado dos aeroportos, pensando em nada como fórmula para obter o maior lucro daquela situação. Era muito bom não ser.
Muitos sentiram um cheiro de fumaça no ar, coisas queimando no inferno, rabos e tridentes vermelhos fustigando a rotina e a mesmice. Sentiram o perfume de pizza, churrasco, fogão à lenha e fogueira de São João e alguns choraram de saudades da infância.
Quem usava óculos, teve as lentes embaçadas e os que não usavam, tiveram a sensação de que havia algo escondido a ser decifrado. O que viam não estava muito claro e passaram a desconfiar das sombras e da claridade. Para se prevenirem de acidentes mais graves, pensaram em ligar os faróis de neblina, mas a vida ainda não inventou um dispositivo desses para o corpo humano, de modo que tiveram que guardar a desconfiança e deixar que a crença ocupasse o pouco lugar à luz do dia, daquele dia.
 Eu fiquei pensando nas noites que não vivi, nas camas que não frequentei, nos poemas que tentei escrever, nas lágrimas que já verti à toa e me deu uma vontade louca de viver de verdade. E aí, um vento começou a soprar, um vento brando desses de beira de mar que me revirou os cabelos, os sonhos, os medos e me revirou o jeito de achar que as coisas não tem solução, de pensar que eu não tenho juízo, de fazer força para encobrir o que há de bom na vida. E esse vento foi ficando mais forte, as brumas se dissiparam, o sol voltou a brilhar. E brilhou tão intensamente que me inundou de luz. As pessoas retomaram seu curso. E eu corri para viver a minha vida porque já estava atrasada para ser feliz.

Rodada 81 Invertida
Texto: Maria Emília Algebaile
Imagem: Márcia Carmo

sexta-feira, 16 de março de 2018

Multi...




Catei pedras 
construí estátuas
móbiles de confusão
pensamentos.

As rodas submersas
os eixos perdidos
nas esquinas, tropeços.

Ventania - estopins - poeira
como qual coisa real: multidão!





Rodada nº 81 Invertida
Poesia: Carolina de Araújo
Imagem: Glória Mota


terça-feira, 13 de março de 2018

TÉDIO RECOMEÇADO


                                                
            Só de pensar no que tinha para fazer, o desânimo era total. Vontade de largar tudo para lá, ou para qualquer outro lugar e se deixar cair em um canto da poltrona. Ou mesmo ir escorregando de mansinho até o chão.  E, assim quietinha, quem sabe se esquecessem dela. E as coisas por fazer talvez se esquecessem de que tinham que ser feitas. Mas ela não conseguia se esquecer. Nunca teve esse dom de se mesclar na multidão e se engrenar tão perfeitamente em uma rotina que ela não havia escolhido para si. Lembrou-se, então, de si mesma e das coisas a serem feitas. Recolheu os papéis assoados há dias. Jogou restos de comida na lixeira quase entupida. Desentupiu lixeiras. Livrou os ralos dos cabelos. Empilhou os livros sem tê-los lido. Colocou frascos para reciclar e quando cansou, jogou fora potes misturados à comida mesmo. Separou roupas sujas se enganando com as limpas, pois ao cheirar não sabia qual era qual. Limpou, lavou, torceu, esfregou, suou. Tudo como sua mãe lhe havia ensinado. Por fim, sentou-se. No mesmo lugar onde começara a pensar nas coisas por fazer.
            Em breve, teria de fazer tudo de novo. E de novo. E de novo. E se não fizesse nada? Se só fizesse o que lhe ditasse a necessidade? A partir de então, só levantasse para assoar o nariz, comer, evacuar. Ler, luxo. Tomar banho só quando não suportasse mais o cheiro... Em seu apartamento, colecionar cheiros de todos os papéis usados e de todos os objetos nunca limpos. Perder-se em uma montanha do que seria considerado lixo. Não conseguir andar sem esbarrar em algo, em muitos algos. Cortando-se nas latas, inflamando-se os membros, abrindo feridas purulentas que a deixariam inchada. Cansada. Com febres. Os cabelos não mais nos ralos porque não os pentearia. As unhas se transformando em garras. Dentes amarelando, tornando-se podres, caindo. As roupas grudando na pele. Os insetos que surgiriam de todos os cantos. Assoar o nariz no braço sem nem precisar sair do chão. Deixar de fazer as coisas comuns do cotidiano, pequenos fardos que temos medo de abandonar. Desobrigar-se daquela rotina domesticada. Ter aquela despreocupação com a higiene da casa, postura considerada tão natural em seus irmãos.
            Queria então, não desejar coisa alguma. Não possuir nada. Ou, pelo menos, não adquirir mais nada. Sem nem mesmo encontrar o que procurasse. O telefone tocando debaixo de pilhas. O cheiro que, em breve, ela deixaria de sentir. De sentir qualquer coisa. Paraíso? Liberdade. Teria coragem? Tantos pensamentos lhe deram dor de cabeça. Levantou da poltrona. Recomeçou a limpar. Mesmo o que já estava limpo. Lembrou-se dos elogios que sempre recebia quando se esmerava em limpar tudo. Sentou-se novamente. E agora sim...
            Pronto. Estava pronta para recomeçar o tédio. Agradecendo por ele existir. Sem saber se ele voltaria. Quem sabe semana que vem. Na nova faxina. Ou na que sempre fazia... depois que acabava a primeira. Tudo impecavelmente limpo? Paraíso? Prisão.

Rodada 81 Invertida
Texto: Eliane França
Imagem: Walter Vinagre