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Exposição CCJF - Abril e Maio de 2012

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terça-feira, 13 de março de 2012

Dívida


Vídeo:Paulo Resende

Eu gosto ficar sozinho por um minuto. Se desse pra ser no silêncio era melhor, mas não dá: é mais ou menos na hora em que a escola anterior está terminando o desfile que eu fico sozinho. Aí é barulho de gente gritando, de gente aplaudindo, da imprensa correndo prum lado e pro outro pra entrevistar as madames fantasiadas. Aqui onde eu fico ninguém entra. Os meninos já avisam: é hora da concentração do Mestre Toco.

Eu saio da concentração diferente. Dali em diante, o mundo todo está em câmera lenta, menos eu. Teve um ano em que até os barulhos pareciam ter ficado grossos, daquele jeito arrastado de quando o toca-fita dá problema. Eu batalhei durante muitos anos pra comprar um toca-fitas. Hoje eu tenho uns três, e eles não valem mais nada.

Quando chego na frente da bateria eu não lembro o nome de ninguém. Não existem nomes ali, nem mesmo pessoas. É todo mundo um corpo só, o meu corpo. Assim, quando meu sangue corre nas veias, ele também corre por entre os tamborins e caixas. Quando meu coração pulsa, o surdo de primeira imediatamente soa. Quando meu peito enche de ar, a cuíca afina o tom. E quando solto o ar o agogô dá a pausa de um quarto. O que eu faço eles fazem. Eles são meu corpo.

Nesse carnaval tinha avisado que iria acelerar as coisas. Antes de começar fui trocar uma idéia com o menino do cavaquinho base, o Tico. Ele tem 17 anos. Um dia, em sua casa, seu pai estava se masturbando assistindo a um filme pornô comprado na Uruguaiana. Sua mãe chegou mais cedo, e o pai do Tico, no instinto, mudou o canal da tevê. Sem ver, ele colocou num canal novo da Gatonet que só passa luta. A mãe do Tico viu o pai do Tico excitado com dois homens se atracando e concluiu que ele era viado. Dois dias antes do desfile, ele foi morto a pauladas por dois irmãos da igreja que a mãe do Tico, o Tico e o próprio pai do Tico freqüentavam.

Coisas da vida.

Cheguei no ouvido dele e disse que esse ano o samba ia parecer uma locomotiva. Um trem doido, dez vezes mais rápido do que o da Supervia, em que a gente entrasse pra sair dali, pra sair da vida, e desembarcasse onde quer que fosse, longe da gente mesmo, pra poder ser outro cara, outro tipo de gente. “Lembra só do seu pai, Tico, e segue o tempo”.

Quando eu marquei o tempo e o Tico puxou o refrão no cavaquinho, os caras da bateria me olharam assustados. O Bubu chegou a perguntar: “É nesse tempo mesmo, professor?” O pai do Bubu foi preso por ajudar o próprio irmão a esconder um corpo que ele nem sabia de quem era. A mãe do Bubu costurava pra escola. Ela era muito gorda e fumava dois maços de cigarro por dia. As tromboses foram levando ela embora aos pouquinhos, pedaço a pedaço, bem na frente do Bubu, bem longe do seu pai.

Coisas da vida.

Quando meu corpo ordenou a partida da locomotiva, eu juro que cheguei a ver o Sambódromo ficar escuro por uns dois segundos. A Rainha de Bateria reclamou com o Diretor que não ia conseguir sambar nessa velocidade com aquele salto todo. Ele mandou ela se fuder. Ela era uma atriz famosa, nascida nas Laranjeiras. O primeiro papel dela numa novela das oito tinha sido ano passado. Mas no meio da novela ela abandonou o namorado de infância, “problemas de agenda”. Ele saiu da casa dela dizendo que entendia e que iria esperar por ela a vida toda. Saindo do Leblon, um ônibus espremeu seu carro na calçada e o carro capotou pra dentro do canal, parecendo uma bolinha de papel.

Coisas da vida.

Eu segui ditando o samba, apitando as ordens e me sacudindo. Realmente o tempo tava muito rápido. Na hora eu pensei que de repente eu tivesse cheirado um pouco mais de cocaína do que o normal. Ela tava mais molhadinha mesmo, o Gezinho falou pra segurar as pontas. Mas eu não queria segurar nada. Eu precisava pilotar minha locomotiva.

A locomotiva que ia levar o Tico pra longe dos caras que mataram seu pai. A locomotiva que deixava o Bubu numa estação em que sua mãe está viva e seu pai, solto. A locomotiva que jogaria a agenda da Rainha no fogo e deixaria a menina namorar um homem e a fama ao mesmo tempo.

Eu tinha uma missão ali.

Uma dívida.

A bateria é meu corpo, e meu corpo a bateria. Quando me deu o suadouro, senti os tamborins pastosos, sem pegada, “tamborim de bloco”, que nem a gente diz. Quando meu peito doeu, o surdo deu uma rateada que assustou os puxadores. Quando eu parei de sentir a perna, as caixas desencontraram.

Quando eu caí no chão, a Sapucaí assistiu, atônita, à maior paradinha de bateria de todos os carnavais.

Era a locomotiva parando para eu saltar.

Coisas da vida.

Texto: Saulo Aride

Como seria um bom filme

Um filme que começa com um close na cara de uma criança gritando, loucamente, aí o close vai pra o fio de baba que está escorrendo. Depois entra uma cena numa farmácia. O farmacêutico fala algo sobre o lanche que ele fez pra vó dele. Depois corta pra uma cena muito curta de menos de um segundo, na qual um cu é golpeado com um bastão, logo depois um homem fala algo sobre o lóbulo da orelha de uma moça que ele viu rapidamente vinte anos antes, mas ele não se lembra bem pra falar a verdade. Enquanto ele fala sobre isso ele tropeça e cai num poço. Ao lado do poço uma menina brinca de arrancar as patas de uma formiga. Com os dentes. Depois ela caminha até sua irmã e cospe as patas dentro do olho dela, mas como ela está gripada vem com muito catarro amarelado; os olhos da irmã ficam totalmente cobertos pelo muco. Por não conseguir ver nada, a pequena irmã caminha correndo o mais rápido que consegue, em qualquer direção, se chocando com os obstáculos do caminho, até que ela bate a cabeça numa ponta de faca e morre.

Texto: Rafael Sperling.
Imagem, inspirada no texto: Pilar Domingo.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O Meu Café

O meu café é mais que líquido. O meu café é momento, é esperança que se descortina a vinte passos, ainda que frágil, retorcida, despedaçada. O meu café é sem açúcar porque a esperança é moída junto com o pó e dói um pouco. Poderia vir de aspartame, mas é que as coisas devem ser como são, sem fantasias ou ilusões, cruas, sem algo que lhes retire ou acrescente.

O meu café não se dobra e não se amua, é pó preto na água quente sem segredos, é acidez controlada, é mau hálito programado, é quase látex o meu café. O meu café é a minha força e é também a minha fraqueza, é lapso de memória o meu café. O meu café não gosta de mim e eu quase não gosto dele, mas é necessário o meu café. O meu café é pretexto, é culpa e é desculpa, o meu café é frustração e é muita frustração, o meu café é sofrimento, é mágoa e desespero, é lágrima retesada o meu café é aquilo que não se mostra, é a minha face mais invisível o meu café sou eu dentro da garrafa térmica, o coração batendo enquanto o tempo não passa, é o que eu sinto e o que eu não quero sentir o meu café é a minha tristeza, a minha fala prolixa, a conversa de elevador, é o meu descaso o meu café é a minha inércia, é a minha preguiça medrosa o meu café é o meu quase nada corriqueiro, é o meu choro e a minha súplica, é a minha raiva comedida, é o meu trabalho o meu café é exatamente isso, exatamente o que eu venho procurando no meio disso tudo o meu café, só o meu café enquanto as coisas não se decidem por mudar ou por permanecer.

O meu café é a minha pausa para decisão, e enquanto o mundo explode, a única decisão que sou capaz de tomar é sair do meio dos papéis e da mediocridade, nem que seja só por dois minutos, e ir tomar um pouco de café, o meu café.



Texto: Igor Dias.
Música: Gilson Beck.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Saudades de Mim

Quando vejo alguém morrendo, me dá saudades de mim e acho que é por isso que eu choro. Eu me lembro de tudo que já vivi, tudo que já sonhei e percebo que, um dia, eu também vou morrer e talvez não dê tempo de fazer tudo o que eu desejo nem de sonhar coisas para o futuro.
Eu penso que, quando me olhava no espelho, eu via uma cara que eu não vejo mais... mas, ao mesmo tempo, o meu olhar me diz que aquela lá dentro ainda sou eu e tenho medo de que um dia eu deixe de ser.
Eu me recordo dos banhos de chuva que tomei, dos mergulhos que eu dava no mar, da sujeira que eu fazia com a farinha de trigo na cozinha de minha mãe aprendendo a fazer bolo e eu não queria deixar de fazer isso tudo. Mas um dia eu vou deixar.
E é por isso que eu sinto saudades de mim, daquela que eu fui lá atrás e daquela que eu serei antes de morrer, porque, quando a gente ainda está vivo, não dá importância a comer um feijão fresquinho, não presta atenção ao cheiro do sapato novo, não dá o devido valor ao calor do abraço, às vezes nem mesmo registra quantos litros de lágrimas já choramos ou quantos metros de dentes brancos já mostramos ao darmos gargalhadas. Simples assim.
E quando eu vejo alguém morrendo, eu acho que morro um pouco também, porque a gente não é só a gente, a gente vive na relação com o outro e se os mil outros que nos fazem perceber a vida, se alguns desses mil outros se vão, um pouco da gente vai também.
Eu sinto saudades do que eu ainda não fui, que é pra ver se ganho tempo. Tanta planta que eu ainda não plantei, tanto sangue que ainda não ajudei a estancar, tanto beijo que ainda preciso dar, netos que vão nascer, aquele tapete que eu bordo há mais de 15 anos...
Tanta coisa eu tenho pra começar, pra terminar, pra simplesmente deixar acontecer: matar as formigas que vivem atacando minhas roseiras; experimentar aquela receita nova que minha filha me deu, repetir exaustivamente, sem nunca conseguir fazer igual, aquela receita que minha mãe me passou e que só ela sabe preparar; ensinar a alguém as coisas que eu aprendi nas aulas de literatura, de vinho, de francês, principalmente o que aprendi com a vida.
Eu não tenho medo de morrer, eu tenho medo de não viver, Vitor Hugo já falou isso muito antes e muito melhor e eu não tenho o menor pudor em dizer de novo pois, quando a gente lê algo que nos marca profundamente, a gente acaba por internalizar as palavras, que vão se transformando em sentimento e aí a gente já não sabe bem quem pensou aquilo primeiro, nós ou o escritor. E também por isso eu choro, pelas saudades de tudo o que eu poderia ter dito e pelas coisas que, um dia, vou parar de dizer.
E talvez seja por tudo isso que eu vibro quando acordo de manhã e vejo que acordei de verdade, que não é um sonho ou uma visagem. É porque eu gosto de viver e, quanto mais viva eu estiver, menos saudades eu vou sentir de mim.
Texto: Maria Emília Algebaile

Foto, inspirada no texto: Marcelo Damm.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Volta, Teresa

Volta e meia ele pensava em Teresa, que deu meia volta e partiu numa segunda-feira nublada de um outono imprevisível e nunca mais apareceu. Teresa, que sabia exatamente como se enfurnar em seus braços e mantê-los à sua volta, enroscando-se frágil e docemente, como se pudesse aconchegar o mundo em seu abraço. Teresa partiu e não deixou carta, nem bilhete, apenas algumas roupas velhas e um perfume de lembrança. Partiu e deixou um quadro incompleto de um gato azul, que o encarava de modo perturbador, e o fazia dar voltas na cama, procurando o sono perdido em recordações de Teresa. Depois que Teresa partiu usando um colar verde de três voltas e um vestido comprido estampado, ele pensava que, nessas voltas que o mundo dava, certamente a reencontraria, e ela o veria feliz, de novo inteiro, com outra mulher e talvez filhos e sacolas de compras na mão, voltando do cinema ou do Shopping Center. Teresa partiu enquanto ele pensava que ela saíra para dar uma volta ou comprar um pão fresco ou, quem sabe, tintas novas para pintar outros angustiantes gatos azuis ou vermelhos. Teresa partiu enquanto ele andava às voltas com uma fórmula matemática e, depois disso, ele passou dias a calcular probabilidades de voltar a encontrá-la em esquinas ou bares, cinemas ou teatros, ruas movimentadas ou vielas esquecidas. Depois que Teresa partiu, ele passou a beber todos os dias, a esperar todas as horas, a procurar nos rostos conhecidos todas as suas memórias, a buscar nos rostos desconhecidos qualquer sinal ou solução que a trouxesse de volta pra casa.


Numa dessas voltas da sorte, avistou Teresa entrando num ônibus circular. Tentou alcançá-la, o que foi absolutamente em vão. Pôde apenas sussurrar, no instante em que imaginou que ela também olhava pra ele:


- Volta Teresa.


Naquele momento, ludibriando todas as probabilidades, acreditou, com toda firmeza, que a teria de volta em seus braços.


Texto: Danielle Costa



Imagem: Rudy Trindade

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os Quarksson


Tudo ia bem na casa dos Quarksson, até que a sirene soou.

A mãe se levantou rápida, no intuito de proteger seus dois filhos das coisas ruins que iriam acontecer, como aconteceu também daquela outra vez; e ela se lembrava, se lembrava bem. Mas pouco conseguiu fazer além de ficar andando como uma tonta pela casa com as mãos nos ouvidos.

A filha mais velha ligou para o terceiro ex-namorado: disse que o amava muito ainda, e que queria continuar com ele para sempre, onde quer que se reencontrassem (e caso se reencontrassem). Mas teve tempo pra dizer, e era isso que importava.

O filho mais novo foi ao banheiro e começou a gritar. Gritou alto, agudo. Olhou para o espelho e começou a chorar, e chorava mais à medida que seu reflexo também chorava. Começou a tomar todos os remédios que foi encontrando dentro do armário.

O pai se conformou no sofá da sala, e se manteve lendo as notícias da terça-feira que dentro em pouco talvez acabasse, ou virasse outra coisa. Nada o movia. Soava a sirene, o café respingava no pijama, soava a sirene, as torradas com manteiga estalavam lentas quando mastigadas. Soava a sirene e era como se tudo não passasse de mais uma chuva ou de uma revoada de bichos-da-luz em setembro.


Texto: Igor Dias
Imagem: Diego Kern Lopes


* Este é um post extra. Devido a uma falha, essa imagem do Diego Kern Lopes foi recebida por dois escritores simultaneamente, que a intepretaram de formas diferentes. A primeira postagem, com texto do Rafael Sperling, pode ser vista aqui. Achamos bacana a coincidência e decidimos postar ambos os textos. Acreditamos que a beleza e a graça às vezes se escondem na falha, no erro, na coincidência e no insólito. E nós, do Caneta, Lente & Pincel, não perderíamos essa oportunidade de mostrar como a arte pode ser ainda mais múltipla e mais plural do que geralmente somos levados a crer.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Smashed

It is not really clear
how you broke my voice
how you dare to leave me
with any other choice.
I could have asked
if there was still energy for braveness
what’s the matter here?
But in a night like this
such an exquisite fear
seems like a souvenir
and far outside this closest window
there is a couple who claims for a pale moon.
Unfortunately my mouth is sewed
and my hands are tired
in my head full of shit and noise
can’t any solace find a room
but except for a tiny openness
in my so bruised ear
can your extremely frail words
find a shelter and rejoice
as they can lose themselves
in the other obscure realm of clarity.


Texto: Guilherme Preger

Imagem: Marcos Sêmola, www.s4photo.co.uk

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

- O que há com as cariocas?

- Carioca: aquele que é oriundo da capital do estado do Rio de Janeiro.

- Por que elas não me querem? Não consigo entender.

- Entender: verbo que denota compreensão.

- Se eu morasse em outro estado seria um Don Juan.

- Don Juan: comedor.

- Devo me mudar?

- Mudar: deslocar-se de um local para outro com ânimo definitivo ou de longa permanência.

- Não sei... O que acha?

- Achar: ter uma opinião sobre alguma coisa; encontrar algo.

- Penso que sim, mas...

- Mas: conjunção adversativa.

- Mas e o meu emprego?

- Emprego: venda da força de trabalho em troca de uma remuneração.

- Peço transferência?

- Transferência: mudança.

- É, acho que é isso que eu devo fazer.

- Fazer: tomar determinada atitude, realizar certa ação.

- Essa sua definição está errada.

- Errado: aquilo que não é correto; o que discrepa da realidade.

- Se “fazer” fosse tomar determinada atitude, realizar certa ação, como as pessoas responderiam à pergunta “o que você está fazendo?” com “não estou fazendo nada”? Ora, claro que o nada também é um fazer, se não as pessoas responderiam “não faço”. Então, “fazer” não é, necessariamente, tomar determinada atitude, realizar certa ação. Pelo contrário, pode ser a ausência delas.

- Delas: “de” mais “elas”. O que pertence a elas.

- Não concorda?

- Concordar: estar de acordo; consentir.

- Portanto, você terá que encontrar outra definição para o verbo “fazer”.

- Fazer: tudo.

- Faz sentido, afinal, se aquele que nada faz na verdade está fazendo, isso significa que o nada pode ser definido como um fazer, portanto o fazer é tudo, se dele nem o nada escapa. O que está morto, logo mergulhado no nada, então está fazendo, não faz sentido?

- Sentido: direção; que tem lógica; posição militar de rigor.

- Caramba, todos fazem! Até uma pedra faz, afinal, a pedra é como um morto e está no nada, logo nada é o que ela faz, então ela está, de uma certa forma, fazendo, afinal, posso dizer, “a pedra faz nada”. Esse é o seu fazer, o nada.

- Nada: completa ausência.

- Rapaz, o nada não existe, pois até nessa suposta completa ausência há o fazer, logo não existe completa ausência, de forma que não existe o nada.

- Nada: ausência de tudo, menos do fazer.

- Boa.

- Boa: o que é bom, no feminino.

- Mas se o fazer é tudo e o nada é a ausência de tudo, menos do fazer, na verdade o nada é tudo, de forma que são palavras sinônimas e se a vida é tudo e a morte é nada, elas são absolutamente idênticas.

- Idênticas: coisas absolutamente iguais.

- Essa sua mania de definir tudo está me irritando.

- Prefere que eu defina nada?



Texto: Renato Amado.


Imagem: Diego Kern Lopes

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Solo

Imagem: Maria Matina


Estava há meses pensando nesse momento. Depois de trinta anos sem lançar material novo, voltaria ao estúdio com um quinteto pela primeira vez. Inicialmente pensei em usar meu antigo trompete; cheguei a tirá-lo do case, mandei para a revisão. Mas o produtor do disco me disse que uma empresa estava disposta a lançar uma linha de trompetes com meu nome.

Fui a uma reunião com os meninos do marketing da empresa de trompetes, que me mostraram uns slides que ligavam minha carreira à liberdade. “Afinal, o senhor é o maior expoente da era do free jazz, e free jazz nada mais é do que a liberdade, não é?”

Não, meu filho, não é. Mas era tarde pra lhe dizer isso, então eu aprovei a divulgação do meu trompete.

Depois vieram me perguntar sobre as características do instrumento ideal. Peguei meu velho trompete e disse: “façam como esse”. Eles me disseram ser impossível, não teriam acesso àquele material tão nobre. “Eram outros tempos”, me disseram quando viram meu trompete.

Então façam qualquer merda. Mas era tarde para dizer isso, então eu aceitei mexer bem pouco no melhor modelo que eles já fabricavam.

Só então o produtor me perguntou o que eu pretendia gravar. Eu tinha conversado com a rapaziada do quinteto, todos estudantes de música, jovens, ecléticos, antenados. Os meninos me perguntaram de cara: “como o senhor concebe os seus solos?”

“Eu apenas sinto a base e, na hora certa, começo a ouvir o solo que devo fazer tocando em minha cabeça”.

E eles abriram as bocas, espantados. E o que eu disse nada mais é do que a verdade para quase todo artista de jazz. Mas eles não conviveram com muitos artistas de jazz, então se espantaram.

Todos concordaram com minha ideia de fazer uma versão hard bop de “Muito Barulho por Nada”, de Shakespeare. Eles começaram naquele momento a estudar a peça e a se preparar. Mandaria as bases para eles um mês antes de entrarmos no estúdio; todos praticaríamos e improvisaríamos em cima, já no estúdio.

O produtor me perguntou se, dentro dessa ideia, não poderia encaixar uma versão easy listening para uma canção que vinha fazendo muito sucesso na voz de uma jovem cantora do interior de São Paulo.

Não se mexe num álbum conceito. Mas era tarde para dizer isso, então aceitei fazer a tal versão.

De saco cheio de tanta reunião insuportável, decidi me recolher por um mês para praticar e pegar intimidade com meu novo trompete. Passei um mês em casa, tocando várias horas por dia. Ainda tinha boas ideias; as escalas continuavam no sangue, e sabia brincar bem com as sextas bemóis que sempre caracterizaram as tensões do meu estilo de tocar. Estava tinindo.

Todo dia, depois de praticar, passava perto do porta-retrato da minha falecida esposa e sorria para ela. Parei de tocar por sua causa; ela me acusou de estar enlouquecendo, de me afastar cada vez mais das pessoas e até mesmo dela. Quando ela me pediu para largar o jazz e viver a vida com ela, parecia que ela tinha razão.

E eu realmente parei de tocar. Abandonei o free jazz.

Depois disso, ela sempre debochava dos meus discos, dizia que eram insuportáveis, coisa de gente chata, e me disse que eu nunca mais conseguiria tocar.

Estou conseguindo. Mas era tarde para dizer isso, então apenas sorri diante do seu retrato.

Finalmente o primeiro dia no estúdio. Antes de sair de casa conferi se tudo estava desligado - mania de velho viúvo e solitário. Fechei as janelas. Decidi, de última hora, levar meu velho trompete, apenas por segurança. E olhei para o retrato da minha falecida esposa, com seus olhos me fulminando e duvidando de que fosse tocar algo.

Cumprimentei os meninos do quinteto, que estavam super animados. Dei um abraço no produtor, que me disse que o disco iria vender muito na internet. Não entendi o que ele quis dizer com isso. Como parecia ser uma coisa boa, agradeci.

Tomei minha posição.

Peguei meu novo trompete.

“Free jazz nada mais é do que a liberdade, não é?”

“Seus discos são insuportáveis. Coisa de gente chata”.

“Eram outros tempos”.

“Vamos vender muito na internet”.

“Você nunca mais vai pensar em tocar”.

Tanta coisa que a gente ouve na vida.

E naquela hora, no estúdio, quando os meninos começaram a tocar a base da primeira música e eu esperei ouvir o solo que deveria fazer, eu só ouvi o silêncio.

Texto: Saulo Aride.