quinta-feira, 21 de junho de 2018

ESPELHO D'ÁGUA



A atriz se olha no espelho e descobre que nem tudo está perdido.

O cenário está no lugar, as malas na plataforma, o trem não apitou na estação e não foi dado ainda o terceiro sinal para entrar em cena.

A atriz admira o próprio corpo, ainda tão desejado. Ensaia a voz e o canto que encantam deuses. E sorri para o espelho. Encanta-se com a própria imagem que a tantos encanta.

Então se atira no espelho.

Mas é um espelho d' água. Um espelho de águas profundas. Ela sempre ouviu sobre a necessidade imperiosa de ir ao fundo da arte.

No mergulho da atriz, o drama final.


Imagem: Rachel Amaro Mendonça
Texto: Luís Pimentel
Rodada 83

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Feirar




Se pudesse, não voltava nunca mais para lá. O cheiro, o barulho, as pessoas. Aquelas notas amassadas de dinheiro, o contar de moedas, o dia passando tão lento, os gritos de sempre. Tudo me enojava. Não por causa dos cadáveres de bichos mortos pendurados. Não pela sujeira, pelas gotas de sangue coagulado espalhadas pelos cantos. Não me tirava o chão o meu pai dizendo, sem disfarçar ironia, que aquilo tudo seria meu. Aquilo tudo o que? Essa tristeza de depenar galinhas? Esse falso sorriso que sou obrigada a vender junto às carcaças que seriam cozidas, assadas ou fritas? Aquilo tudo o que? Eu me perguntava, mas não conseguia dizer: hoje eu não vou. Não vou nunca mais. Vou aceitar aquela bolsa de estudos, vou me pendurar em algum trapézio de algum circo que venha me resgatar, vou aceitar o noivado com um filho de fazendeiro qualquer, nem que seja psicopata ocioso, qualquer coisa... menos voltar à venda. Tudo, menos voltar a ter a mão do próprio irmão do meu pai a me alisar quando ninguém estava olhando. A colocar o dedo indicador sobre a boca, com uma piscadela asquerosa, quando ia embora. Não sem antes passar também a mão na caixa registradora. E meu pai a me acusar, cadê o dinheiro que devia estar aqui? E eu, muda. Sem falar nada. Isso, sim, me fazia ficar sem chão. Perdida ali. Nesse mundo. Que não consigo escapar. Coragem nenhuma. De falar nada. Vergonha. De tudo. Vontade. De entrar no corpo desse felino e fugir daqui.

Rodada 82
Imagem: Marilene Nacaratti
Texto: Eliane França

sábado, 19 de maio de 2018

gênesis




caminho faz horas. caminho é um jeito tênue de contar: muito mais arrasto os vestígios de mim pela areia úmida da praia, enfim deserta nas primeiras horas do novo ano. as cinzas de quem eu era se misturam aos farelos da manhã, restos de comemoração dispersos à maneira de um quebra-cabeças recém desfeito.
diante de mim, uma oferenda devolvida pelo mar - ou, ao menos, é o que os meus olhos precários entendem ser. com os dedos dos pés, passo a desenhar contornos, setas e sinais, conferindo à oferenda assimetrias e identidade.

logo eu que, há pouco, era apenas resíduo, transmuto-me em artesão,  criador poderoso a lançar tintas de cores vivas na tela nua. e pressinto que, no momento exato em que as coisas estavam maduras para terminar, curiosamente parecem outra vez prontas para nascer.


Rodada 82
Imagem: Pilar
Texto: Robson

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Ilusão de ótica






Borracha queimada
em crosta no piso
Ferida
sessenta e seis itens
na lista

evasão

atrito do corpo
com a vida –

Encontrar a si mesma
no espelho
a fina linha que corta
a entrada de oxigênio
no sistema

haverá
o laranja enraizando as cidades
às treze pras sete da noite
haverá
o azul e o vento
a cada milímetro cúbico

Lindo de doer
o cheiro do eucalipto na beira do asfalto
à beira do
abismo à beira
do ataque:

o pote de ouro vazio –
Você foi enganada!

O sol e a chuva se beijam
de novo borracha queimada
outra vez dilacerante
mas há de passar,
parece que vai, agora dá jeito –
(rota de fuga de fora pra dentro tampouco)
Não sabem de nada:

só há arco-íris mantida                                                                         a distância


Rodada 82
Imagem: Magali Rios
Texto: Maíra Fernandes de Melo

domingo, 13 de maio de 2018

MANUAL PARA CIMENTAR CULTURAS





Homem, 28 anos, pelos nos braços, camisa social:
PODE: militar, empresário, vendedor, técnico da NET.
NÃO PODE: manicure, babá, entregador de panfleto no sinal, borracheiro.

Mulher, branca, 16 anos, seios pequenos, uniforme da escola:
PODE: capa da revista, jogadora de vôlei, aprendiz no Carrefour, aluna de inglês.
NÃO PODE: aposentada, voar entre prédios, motorista de carro forte, pastora.

Minhoca, 4 anos, 4cm, marrom:
PODE: jardim, vaso, vara de pescar, morar no Brasil.
NÃO PODE: astronauta, atriz, morar na Lua, borboleta.

Mulher, cor indiferente, 29 anos, burca:
PODE: esposa, mãe, compradora no supermercado, fofoqueira.
NÃO PODE: frentista, salva-vidas, taxista, umbanda, big brother.

Pomba, 2 anos, cinza, América do Sul:
PODE: pipoca, praça, cagar na cabeça, igreja.
NÃO PODE: operador de caixa, cozinheira, padre, halterofilista.

Homem, 79 anos, bigode, circunferência abdominal de 150cm:
PODE: deprimido, erudito, corretor de imóveis, hipertenso.
NÃO PODE: teletransporte, rapper, piloto de fórmula 1, hostess.

Espírito, idade indeterminada, transparente, malvado:
PODE: assustar, possuir, atravessar paredes, ser exorcizado.
NÃO PODE: gandula, servente de pedreiro, meretriz, geneticista.

Homem, negro, 35 anos, forte:
PODE: jogador de basquete, estivador, chapa de caminhão, símbolo sexual.
NÃO PODE: banqueiro, projetar raios laser pelos olhos, marcheteiro, vender orquídeas.

Historiador, 29 anos, branco, paulista:
PODE: Cuba, ler biografias, escrever biografias, bigode.
NÃO PODE: ler irmãos Neto, olimpíadas de matemática, economista, furar greve.

Extraterrestre, 35 anos, pele verde, duas cabeças:
PODE: dublê de filme, juiz de futebol, torcedor do Palmeiras, votar no Bolsonaro.
NÃO PODE: autor de contos, vendedor de loja de grife, cirurgião, presidente do Brasil.


Texto: Pedro Silva
Foto: Marcia Magda

quarta-feira, 9 de maio de 2018

QUERIDO DIÁRIO




Os fiapos da memória perfilados, se apoiando pelos corrimãos da casa. Retratos cansados atravessaram oceanos e nos olhamdo quintal. O que é que faz silêncio lá fora? O gado? Os imigrantes? Meu filho?
Lá vai uma barquinha carregadinha de ódios e carícias.

Daqui não vemos, mas lembro da bandeira trêmula, sempre na entrada. Ah! Bons tempos em que Machado de Assis era branco. Agora, nem desejo, nem lei, nem sina. Só os sinais na margem do caderno. Tudo na margem. Essa placidez, esses dedos que aplaudem e estrangulam.

Cadê o país que estava aqui? O gato comeu. E depois vomitou.

 IMAGEM:Glória Mota
TEXTO: Cesar Cardoso

sexta-feira, 4 de maio de 2018

cum grano salis









entre terra e céu
o que guarda
tem carnadura
não forma
mas algo
de amálgama
que se adensa
e agarra
em seu visco
o fulgor
do sol
que roça
tal brisa
plácida,
e a impregna
com gosto,
o temp(er)o
conserva: sal
ga.



Imagem: Raquel Amaro Mendonça
Texto: Guilherme Preger

domingo, 29 de abril de 2018

Périplo triplo pelo trânsito da Lapa



Perigo
 Roda
 Perigo
 Ronda roda arco, que hora são? 
 Perigo pedala
 Perigo presságio
 Aro da roda, qual horário?
 Perigo mandala
 Perigo adágio -  operário vai? 
 Pedala uma bicicleta ronda os arcos da Lapa 
 Vai ao circo passa pelo verde ou azul, um simples corsário
 Esta pressa de ir pelo caminho( carro ou bicicleta) para e diz 
- tem um cigarro? não me aguento.  
 

Rodada 82
Imagem: Ângela Márcia dos Santos
Texto: Fernando Andrade

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Ausência




Eu completamente nua
Servida num banquete crua
Pintada e completamente   obscura
Sou qualquer prato, pessoa ou pintura
Sou descrente
Imanente à falta de nomenclatura
Inerente a essa falta que me tortura
Sou a ausência
Essa aderência que me macula



Rodada 81 Invertida
Texto: Gláucia Fortes
Imagem: Magali Rios