quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Ela, eu, o fusca, Drummond e Noel




Ela, eu, o fusca, Drummond e Noel
(Uma crônica embrulhada em letra de canção)

Eu e ela e o fusca
e um fim de tarde
que parecia não
anoitecer jamais.
Eu e ela no fusca
entre gravetos
que nos levavam
por um caminho
que não era estrada
que não era esperança
que não era nada.
Eu e ela e no fim
do caminho tinha uma pedra
que Drummond desconhecia.
O fusca estancou na pedra
e nós estancamos no sonho
quando finalmente
chegava o entardecer
ah, o entardecer...
Abrimos as portas
e descemos para fumar
e olhar o tempo
e contemplar o mundo.
Eu cheio de amor para dar
ela mastigando palavras
entre uma tragada e outra:
A-ca-bou. Você não entende?
A-ca-bou...
Naquele dia, pela primeira vez,
o motor do fusca não pegou
e jurei não mais amar,
plagiando Noel Rosa
pela décima vez.

 Rodada nº 71
Imagem: Magali Rios
Texto: Luís Pimentel


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Sobre ventar

A persistência dessa vontade
que volta como tempestade
que nem ventania após a estia

Inspiro cada suspiro
e sopro bem querer
furacões pulsam meus pulmões

- Abra todas as janelas!
Também sou brisa
e quero ficar
Ela diz...



Rodada 70
Imagem: Carlos Brausz
Texto: Carolina de Araujo

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O mais belo pôr do sol




     Depois de dar uma banana para o motorista que buzinava e xingava e mordia o painel do carro, que freara a poucos passos do seu corpo magro, ele olhou para cima e atravessou a avenida em dominó, atingindo o calçadão reticulado e mergulhando os pés descalços na areia quente.
A mochila no ombro.
     E ali, diante do mar, um olho nas ondas e outro no voo oblíquo da gaivota, sorrindo ao céu e à cadência da moça que mergulhava das pedras, exibindo no dorso o mais belo pôr do sol, acomodou os ossos entre o menino que jogava frescobol e o vendedor que espalhava picolés baratos e mate com limão geladinho.
E assim abriu a mochila aninhada sobre as pernas rútilas de varizes cinza, coçou a sola de um pé com a unha do outro e abraçou com as duas mãos o sanduíche de mortadela. A primeira mordida no momento exato em que a moça retornava, as gotas de água pingando dos bicos dos dois irmãos sobre o seu sanduíche. Os olhos acesos no brilho do mais lindo pôr do sol só conseguiram gaguejar:
– Quer um pedaço?
– Quero – ela disse.
Era quase noite, o dia morria ali por trás da Pedra da Gávea.

 (Do livro “Cenas de cinema – conto em gotas”. Editora Myrrha)

Rodada nº 70
Imagem: Gloria Mota
Texto: Luís Pimentel

domingo, 13 de novembro de 2016

HIMENÓPTEROS FOMICÍDEOS






Passei a tarde toda desenhando formigas. De todos os tamanhos, formatos e cores.
A formiga-de-bode, azulada e que não dá picadas. A de ferrão, bem preta e de corpo alongado. A correição, com suas enormes mandíbulas. A lava-pé ou malagueta, miúda, sem olhos. A chiadeira, também chamada formiga-de-bentinho ou feiticeira, de cor avermelhada e abdômen arredondado. A asteca, a mais gordinha de todas, talvez por viver comendo os frutos dos cacaueiros da Bahia. A violenta cabaça, que se alimenta de cupins bem maiores do que ela. A açucareira, tão miudinha e roxa, sempre catando doces nas nossas cozinhas. A argentina ou cuiabana, amarelada e de antenas longas. A quenquém ou caçadora, que voa com desenvoltura. A estranha formiga-leão, que parece uma libélula. E as nossas tão conhecidas saúva e tanajura, temidas na lavoura e apreciadas na farofa.
À noite, enquanto eu dormia, mansamente elas saíram dos cadernos. Tanajuras, saúvas, leões. Em largas filas bem ordenadas, desceram pelas pernas da mesa e tomaram todo o chão da sala. Quenquéns, argentinas, açucareiras, cabaças. Atravessaram a casa em marcha, até subir pelos pés da minha cama. Astecas, feiticeiras, malaguetas, correições, de ferrão, de bode. Lentamente devoraram o cobertor e me cobriram.   




Rodada nº 70
Imagem de Paulo Rezende
Texto de Cesar Cardoso

O caso apalavrado Do pavão palavrão.


O caso apalavrado
Do pao palavrão.
O caso apalavrado
Do pao palavrão.
O caso apalavrado
Do pavão palavrão.


Não é uma asa
De uma xícara o cão da
Casa do vovô
Não é a torre de
Pizza o voo da
Preguiça de galho em galho
Nem por um átimo os abraços
Do espantalho com a mão aberta no
Milharal, nem mesmo o vozerio do Tim
Nem os erres arrastados do freguês dizendo caralho
Um exame oral, um timbre, uma camada de tinta,
Ali no jardim da República, um pavão
Passeia altivo, sem falar português.   

Rodada nº 70
Imagem de Paulo Rezende
Texto de Fernando Andrade





domingo, 6 de novembro de 2016

água


o lugar é aqui
                    onde h’água
onde é possível
                    agarrar coas mãos
o que se oferece
            o que se dá
o que está e é
onde o sorriso fácil
            a alegria brota
           feito uma fonte
numa bacia
o lugar é agora
         no agora-aqui
nesse ponto
        onde se põem os pés
há promessa aqui
       onde o erro é possível
       para o estar de cócoras
onde uma luz foca
       o súbito possuir
       o nada-quase
pulsar de vibração
aqui se sente
      o que não se acumula
o que se possui
     apenas quando escapa

Imagem: Rudy Trindade
Texto: Guilherme Preger

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Descaminhos



DESCAMINHOS

Noves fora
os rastros
o futuro
desertou

----

Texto: Igor Dias
Imagem: Magali Maciel Rios

domingo, 16 de outubro de 2016

Sonho




Esta noite sonhei com o tom da sua voz. Estava mais grave que o habitual, anasalada e sóbria, querendo me dizer algo que eu desconhecia. Os passos no corredor invadiram meu sono, ritmados e perplexos. Uma sirene de bombeiros fazia com que tudo acontecesse ao mesmo tempo. Mas sua voz sobressaía, grave, dentre os ruídos oníricos do meu inconsciente. Você falava em um idioma desconhecido que parecia russo, mas poderia ser ucraniano ou polonês. Nessa hora, me arrependi de não ter aprendido tudo que podia com você. Me arrependi de ter permitido sua partida violenta, abrupta e solitária. Acordei sobressaltada, com um medo, que me vinha sóbrio e ruidoso. O medo imenso de perder a lembrança de sua voz.

Rodada 69 Invertida
Texto de Danielle Schlossarek
Imagem de Magali Rios

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Ancorados


dois navios tentam se encontrar
mas só fazem rodar em torno
de si mesmos

um deles descobre:
está ancorado
o outro descobre:
está ancorado
e juntos descobrem:
estão ancorados
- na mesma âncora -

o primeiro manda ao mar
seu melhor mergulhador
que aparta da âncora
o navio

o segundo
faz o mesmo

agora podem se encontrar
nenhuma âncora mais os prende
agora
é fácil

os capitães se olham
e tristes
seguem
entretanto
em direções opostas

o encontro sucumbe
à imensidão do oceano

do alto da liberdade
e avante
a todo vapor
bandeiras hasteadas nos mastros
de um mundo novo
a descobrir

confiam
(mais do que querem
mais do que acreditam
mais do que sabem)
confiam


na curvatura da Terra.

------

Texto: Igor Dias
Imagem: Carlos Brausz