domingo, 19 de março de 2017

ALÉM DOS DOIS MUNDOS



A menina apreciava sentar-se na quina do salão. Refestelava-se sobre as almofadas e perdia-se a observar o mundo perverso, por isso não podia sair de casa. Não entendia bem os argumentos do pai e, menos ainda, não havia motivo para que permitissem que ficasse ali olhando pelas grades o mundo acontecendo, já que não podia estar do outro lado.
Na mesma intensidade de sua curiosidade, a luz que entrava no recinto era plena de vida. Já conhecia de cor o azul do turbante do cuidador de camelos, o cheiro das tâmaras maduras, o negro das burcas das mulheres que passavam sempre apressadas e caladas.
Um dia, ela viu. Viu e não acreditou em seus olhos tão meninos. Uma mulher andava pela rua bem devagar. Cabelos longos, soltos, balançavam para lá e para cá, num ritmo muito bonito, contrastando com o azul do céu. Suas roupas eram diferentes, usava calças compridas que deixavam marcadas as formas de seu corpo. Ela sorria e, às vezes, parecia bailar. Pôde acompanhar aquela imagem enquanto ela se movia da esquerda para a direita, enquadrada perfeitamente pela moldura das janelas gradeadas que separavam os dois mundos.
Apaixonou-se por aquela possibilidade. Não pensava em nada além da visão da mulher do outro lado do mundo. Imaginava-se lá fora e sentia um grande prazer percorrer seu corpo.
Em sua inocência, contou ao pai sua descoberta e as novas sensações que sentia. E foi assim que o homem mandou que fossem fechadas as janelas com tijolos pintados de azul.
Um azul que a menina identificou com aquele azul do céu no dia em que viu a mulher feliz de cabelos soltos na rua. Um azul pelo qual ela se dedicaria o resto de sua vida a vê-lo novamente.


Imagem: Glória Motta
Texto: Maria Emilia Algebaile
Rodada 73

segunda-feira, 6 de março de 2017

Biografia





Eu vou esquecer o nome do garçom daquele restaurante onde a gente comeu punhetas de bacalhau na nossa viagem a Lisboa, a escalação do time do Bangu campeão de 1966, que aquele sujeito numa foto velha em Minas é o meu amigo Roberto Carlier, o medo e o tesão que eu senti numa festa em Ipanema quando dei meu primeiro beijo de língua.
Eu vou esquecer o ponta esquerda do Bangu campeão de 1966, o nome daquele restaurante onde a gente comeu punhetas de bacalhau na nossa viagem a Lisboa, quem é aquele sujeito numa foto velha em Minas, o que eu senti numa festa em Ipanema quando dei meu primeiro beijo de língua.
Eu vou esquecer o que eu senti numa festa quando dei meu primeiro beijo, onde eu estava quando tirei essa foto com esse desconhecido, quem foi o campeão de 1966, o nome daquele prato que a gente comeu na nossa viagem a Lisboa.
Eu vou esquecer onde eu guardava minhas fotos, a nossa viagem a Lisboa, quando dei meu primeiro beijo.
Eu vou esquecer o meu primeiro beijo, Lisboa e quem escreveu esse versos que repetem a frase “eu vou esquecer”.
Eu vou



Rodada nº   73
Texto: Cesar Cardoso 
Imagem: Ângela Márcia 

domingo, 5 de março de 2017

Carpe Diem




O patrão agora deu de ficar estranho. Foi depois que ele resolveu fazer aula de filosofia toda terça-feira até quase meia noite. Comecei a notar que tinha alguma coisa errada quando ele começou a ficar olhando pro pão na hora do café e me perguntar se a vida era comer pão com manteiga todo dia. Eu tentei dizer que tinha requeijão, tinha bolo, mas ele não quis ouvir. Agora, bota as roupas do Rodriguinho e sai. Se Dona Marluce pergunta onde vai, ele levanta os braços e fica repetindo uma palavra em inglês: carpedí! Carpedí! Deve ser inglês, porque eu sei que é a única língua que ele sabe. Ele só viaja pros esteites e eu sei que lá se fala inglês. Dona Marluce diz que é fase, que a idade chega pra todo mundo. Quer dizer, pra ela também, né? Mas ela continua igualzinha como sempre foi. Mas seu Adalberto, quer dizer, seu Beto, que é assim que ele quer ser chamado, seu Beto está cheio de problemas com a fase dele. Deve estar com a fase trocada. Na minha cidade, gente assim, a gente dizia que tinha parafuso a menos ou que tinha três telhas, mas ele tem mesmo é carpedí. E eu não posso mais fazer comida comum. Ele só quer comer japonês. E até fez uma plantação de cabelos. Achei esquisito quando ele chegou com a careca toda espetada com pontinhos pretos. Parecia plantação de milho quando começa a brotar. Dona Marluce disse que estava ridículo e o Rodriguinho disse que era sinistro. Não entendi. Às vezes eles usam umas palavras que eu não sei dizer se é bom ou ruim. Sinistro. Pra ser sincera, eu acho que tem mulher nova na jogada. Homem mais velho assim que nem seu Beto, quando muda demais é porque tem gado novo no pasto. E ele está carpedí pra caramba. Mas meu pai já dizia que homem velho e mulher nova, ou é chifre ou é cova. Dona Marluce que não abra os olhos e daqui a pouco seu Beto pega o carpedí e se manda de casa! Se a idade chega pra todo mundo, o que que ela está esperando pra não carpedí também? Ontem no forró da feira eu falei pra um bonitão que estava me olhando muito: carpedí! E ele me agarrou e me lascou um beijo. Não sei se eu conto isso pra Dona Marluce, mas gostei muito! Carpedí pra todo mundo, e que essa minha fase demore bastante!!



Rodada 72 invertida
Texto: Maria Emilia Algebaile
Imagem: Magali Rios

sábado, 4 de março de 2017

BOCA DE LOBO

 Cheguei em casa sem camisa.

Seria Botafogo e Flamengo no Engenhão, começou o maior quebra pau. Eu que não sou de briga saí correndo, me escondi atrás de um poste e fiquei só vigiando. De repente, vem a torcida do Botafogo dobrando a curva. E eu trajado no manto. Não pensei duas vezes: tirei, enrolei, joguei na boca de lobo pra ninguém achar e me misturei com eles. Como era o hino mesmo? “Sou tricolor de coração...”, não, cacete, esse é do Fluminense.

E voltei pra casa sem a camisa.

Daí a vó logo me perguntou:

Nego, cadê sua roupa?
Tá suja, vó. Tirei porque tava fedendo.
Então me dá logo pra lavar.

E eu não soube o que dizer. E ela ainda completou, acabando comigo:

Deu tanto trabalho da última vez. Coarei duas vezes pra tirar a mancha do suvaco. Usei uma bacia só pra ela. Porque sei que você não pode com mancha...

 Então eu lembrei que a vó já fazia isso antes d’eu nascer.

Quando ela se mudou para cá não tinha a grade de vergalhão pra proteger da queda lá embaixo. A vó era linda e quando vinha para a laje esfregar roupa ficava um monte de marmanjo espiando de longe. O vô, mulato forte, baiano tranquilo, nem trinta anos completo, sabia que podia confiar na nega. Só gritava lá de dentro “entra que tá ventando, Palmira”. E a Palmira criou os oito filhos fazendo isso. Eram duzentas fraldas de uma vez, roupinha de bebê, roupinha de menino, roupinha que recebia de gente de fora. Depois começou a lavar roupa dos outros. E teve um tempo que ela ganhava mais dinheiro do que o vô. E ainda estendia a roupa da minha mãe e dos tios, deixava tudo branquinho.

A vó assistiu todos estes prédios sendo construídos. As crianças crescendo, o cabelo ficando mais ralo. Via aqui de cima, enquanto cuidava das cuecas sujas e do encardido dos uniformes. Tinha dia que ventava e a poeira das obras subia. E ela tinha de lavar tudo de novo. Duas bacias e um balde. Esfregava no primeiro, enxaguava no segundo e completava no terceiro.

A vó criou os oito meninos e mais os dezessete netinhos. Cuidava de criança do mesmo sangue dela e de mais um monte, filha de gente que trabalhava cedo e não tinha dinheiro pra creche.

Depois que o vô morreu ela ainda viu a mata diminuir e mais casinhas sendo construídas. Tudo sem nunca deixar de usar sabão em pedra na barra da calça jeans. Ela estava aqui quando ficou perigoso. Cinquenta anos de vida mas dizem que nem parecia. Braço forte da viúva espantava os engraçadinhos que pensavam em tomar o lugar do vô. Ela viu o neto entrar na faculdade e lavou a camisa que eu usei no primeiro emprego. Na borda da laje a vó plantou coentro e pimenta. Recolheu pipa caída e gritou forte quando um moleque soltou um rojão quase na cara dela.

Eu voltei do jogo sem camisa e a corda já estava cheia de roupinha de bebê. Dos filhos do Aldo, a terceira geração de macacãozinho que a dona Palmira ajudava a cuidar, sem nunca reclamar da mão cortada ou de dor na coluna.

A vó ensaboou todos os meus jeans, minhas camisas da escola, as meias brancas.

E eu peguei o manto lavado pela vó e joguei num bueiro no Engenho de Dentro.


Porra, que merda que eu fiz?



_ _ _
Imagem: Rudy Trindade
Texto: Pedro Silva
Rodada 73

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O paraíso









Até o dia em que tomou a decisão:
“Vou, antes que o mundo exploda em meus olhos, que o tempo me cobre todo o tempo que me deu por empréstimo”.
E assim o fez: descobriu o endereço do paraíso e picou a mula com destino ao desconhecido. Lá se instalou, entre pássaros exóticos, árvores misteriosas, pedras e praias virgens.
Uma beleza.
Um dia, enquanto apreciava o balé das ondas e cantava “O barquinho vai, o barquinho vem”, sentindo o corpo ainda molhado a estirar-se na areia, ouviu a voz bem conhecida (até ali, naquele fim de mundo?):
– Acorda, meu amor, vamos procurar um médico. Você está ardendo em febre e ensopado de suor.
Ah, o paraíso... O paraíso vai ter que ficar para outro dia.


Rodada 73
Imagem: Lucia Dias
Texto: Luís Pimentel

Admirável mundo narravê-lo





corretivo
coletivo
revertido?
Consentido?
O que Ivo
viu no androide da involução
O que ouviu?  da voz paranoide
Um vírus vivo?
Deambula em impressos virtuais.
Consecutivo seria? um opioide
Onde a dor seria um sonâmbulo
para o máscáraterhumanoide. 

Rodada 73
Imagem: Márcia Magda
Texto: Fernando Andrade  


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

TÃO


Não desliga. Preciso te falar isto ao menos desta vez. Sabe aquela noite em que nos sentamos ao lado no cinema? Quis segurar sua mão e dizer o quanto éramos... acho que especiais. Mas, sabe, isto não seria uma declaração de amor qualquer, nem seria declaração de nada, somente confissão. Éramos especiais naquela época. Acho que por conta de nossos gostos, das nossas muitas faces, dos nossos gestos. Como? Repete que o som tá baixo. Especiais para quem? Acho que um para o outro. Talvez para quem estivesse por perto. Você nunca sentiu isto? Poxa, é triste pensar assim. Algo tão forte. E somente eu senti. Por que eu não disse antes? Porque não deu tempo. Andava cansado. Andava pouco. Mal pude contar agora. Sei lá, a timidez.

Como? O que espero de você? Acho que o direito de ser especial. Não tá bom? Calma, não é cobrança. Respira. Não, não quero mudar nada. Só te dizer que queria ter dormido no seu colo nos últimos anos. Sei que é muita coisa. Não chora. Não muda nada. O que? Ao fundo? É aquela música bonita da moça que diz que "quer dois filhos, um barco à velas e respostas" e que ouvimos na casa da minha mãe. Não, minha mãe nunca soube, deixa disso. Você era especial só para mim. Só para dentro.

Eu sei, não precisa repetir... ok, tá bom, juro que não toco mais neste assunto... combinado. Eu só tentei ficar aqui, só tentei ficar sozinho, sabe? Ficar bem. Mas é tão difícil, tão...

Eu sei que parece pretensão demais. Imagina, nunca quis ser seu dono, nem agora nem naquela época. É egoísta, mas é que dói tanto, sabe?  A ideia de que você é livre para fazer o que quiser (inclusive pra não me ver mais) é angustiante. E se um dia você escolher ir embora para sempre? É tão difícil.

Pois é, tentei te ligar outras vezes. Foi. Tento sempre. Sua mãe me disse que as horas que você passa em casa tem sido casa vez mais curtas, mais vazias. Que você tem dormido mal, murmurado pesadelos. Sabe, me preocupo, poxa. Só isto. No mais, foi você quem me ensinou a... tá bom... também não toco mais nisso. O "tema das coisas que você me ensinou". Assunto esgotado. O problema é que foram tantas...

Não precisa, estou bem com a grana daqui. Ok, ligo se precisar, juro. Mas o que tem faltado não é isso, tem faltado aquela palavra mágica, como a do Ali-babá que abria portas. As fechaduras não têm mais aceitado palavras geniais. Mas por que você pergunta isto? Realmente importa? Porque odeio que sintam pena de mim. Odeio isto, essa coisa disfarçada de amor. Eu não acabei. Eu tô só começando. E o que temos para diante não pode ser pequeno. Ou talvez não exista um deus.

Quando você mandou?! Nunca recebi! Vinha perfumada? Será que extraviou? Para com isto! Nunca! Nunca mentiria! Ok, eu sei. Mas você sabe que aquela voz do cara que cantava dizendo que o amanhã não existe sempre me emocionou. Por isso sou tão imediato.

Também não mais. Cansei daqueles livros que me entristeciam. Agora eu me choro nas minhas próprias palavras. Minhas e suas, se você quiser. Tá bom, eu te mando, mando sim.


Ontem passou uma moça ao meu lado que estava exatamente com aquele cheiro. Sim, o que você trouxe da viagem. Ela perfumou todo o saguão do prédio. Mas talvez só para mim aquele cheiro fizesse sentido. Sempre gostei de pequenos prazeres e lembrar aquilo que você significava ao meu nariz é das menores e maiores coisas que posso ter. Sua lembrança será sempre tão, tão...

Texto: Pedro Silva
Imagem: Carlos Brausz
Rodada 72 (fevereiro de 2017)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

LIFE ON DEMAND




Nas rodoviárias dezenas de messias descendo dos ônibus num empurra-empurra. Nos aeroportos centenas de messias saindo dos voos lotados e aguardando o milagre da liberação na alfândega. Nos portos milhares de messias nem esperam os navios atracarem, já se atiram ao mar e caminham por sobre as águas até a terra firme e prometida. 
Não precisamos de cidadania, título de eleitor, identidade. Nossa identidade é o tênis que usamos, o carro que compramos. Viver é gastar no cartão. Amor, eu sou um novo homem, solicitei pra hoje mesmo o programa completo pela Central de Atendimento.
E chegamos. Ah! Grandes corporações escrevem poesia. Indústrias das armas dançam balé. Cartéis de drogas tocam sonatas. Das maternidades saem bebês-propaganda. Os discursos se falam sem precisar de bocas, faringes, cordas vocais, ar nos pulmões. O silêncio foi proibido em todo o território internacional e as letras S foram transformadas em cãezinhos para crianças pela reengenharia genética.   Todos os fatos são pardos. Que importância têm as coisas? Chips subcutâneos nos fazem reproduzir, escolhem a programação do compceltv, autorizam amores, bombardeiam países. O fundamentalismo ao alcance de todos. A catatonia em três lições. Os dez pixels para a felicidade.
Liberdade, liberdade, abre as patas sobre nós.




Rodada 72 invertida

Texto: Cesar Cardoso 
Imagem: Lucia Dias

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Além


por todo seguir do traço
o que cambaleia persiste
por entre dois reinos
aparentemente distantes:
por um lado o conforto
dos fios emaranhados
por rede que a tudo guarda
e embalança: é multicolor
e multiforme o espaço
interior: profícuo,
extensamente situa
e orienta: o tempo
escorre, caloroso coloide,
para o lado de fora: o outro,
o confuso, o gasoso,
o ruidoso, o perigoso.
de lá todo vento ruge
qual ciclone que
avança: perturbação
impossível de reter,
monstro ou equívoco,
e o passo vacila e despenca
para o lado de dentro(?) NÃO!
não aquém da borda,
-linha, limite-
porém aonde leva o desejo
longe

para além do horizonte

Rodada 72 Invertida
Imagem: Gloria Mota
Texto: Guilherme Preger