sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

IMPORTANTE, LEIA COM ATENÇÃO!!

Prezados,

Toda família tem um doidão. Normalmente um tio. Todo mundo tem um tio doidão. Ou quase todo mundo. Bem, eu tenho. É meu tio Paulo. O tempo parou para o tio Paulo. Parou em 1968. Cogumelo, baseado, ópio e trombeta estão no seu cardápio. Tio Paulo mora no mato, onde se ocupa plantando comida e drogas. Vez por outra se agrega a atividades militantes, justificando-as sempre com fundamentos pseudofilosóficos, tais como: ampliação da solidariedade social; expansão da energia amorosa; abertura ao amor universal. Isso quando não usa a palavra “paradigma” e seus derivativos, que ele ama, como: “participo dessa manifestação em busca de uma alteração dos paradigmas estabelecidos”; ou “o governo tem que estar atento à alteração paradigmática dos valores éticos a que nos submeteu o novo milênio com a aproximação da Era de Aquários.” E assim vai. Jamais fundamentos socioeconômicos.

Tio Paulo nos conta muitas histórias. Histórias loucas, de gnomos, pinheiros respirando com bronquite, saci pererê... Mas quando é perguntado se havia consumido alguma substância entorpecente, a resposta é sempre a mesma: sim. E as histórias não se sustentam, bastando indagar um pouco sobre os detalhes que se nota tratar-se de viagem de drogado.

Entretanto, recentemente tio Paulo vem narrando-nos uma história nova. Ele garante que não estava sob efeito de tóxicos e nos conta com impressionante riqueza de detalhes. Eu tenho ficado cada vez mais assustado. Como sou jornalista resolvi entrevistar meu tio. Eis a degravação do seu depoimento:


“Bicho, eu tava plantando cebola e ouvi um barulho estranho. Um som que era uma mistura de místico com tecnológico, assim como é a pós-modernidade, saca? Ele pairava no ar, tomava o ambiente com sua freqüência elevada que fazia com que desse pra ouvir muito bem, embora fosse baixo. Olhei em volta e vi uma nave espacial parada quase em cima da minha cabeça. Me assustei, larguei a enxada e saí correndo, mas de repente se materializou um E.T. na minha frente. Parei e comecei a tremer que nem vara verde. Ele era da forma clássica: verdinho, humanóide, com olhão. Ele pegou um instrumento, colocou na frente da boca e falou: “bom dia, terráqueo”. Concluí que aquele negócio era um tradutor. Continuei tremendo, a boca aberta, em pânico. Cara, o pânico era tanto que... pô... enfim... acabei molhando a calça. Fiquei calado. O verdinho repetiu num tom vigoroso: “bom dia, terráqueo!”. A voz soava eletrônica, porque vinha do aparelho que ele segurava em frente à boca. Respondi: “bom dia, senhor E.T.”, com a voz trêmula, é claro. Aí ele começou o discurso.

- Terráqueo, gostaria que você informasse aos outros de sua espécie que em breve seu planeta será ocupado pelo Movimento dos Sem Planeta, o MSP, haja vista que não está sendo cumprida a função social da Terra.

Fiquei calado dois segundos. É... meio... meio chocado com aquilo tudo, com o que eu tava ouvindo. Vamos e venhamos, já é uma situação surreal ser interceptado por um alienígena. Ouvir aquilo que ele acabava de dizer, então! Bicho, que viagem! MSP, nunca ia imaginar, nem na mais profunda viagem de trombeta. Mas passados os dois segundos fui tomado por uma certa revolta pelo que ele falou, então avoquei a qualidade de representante da humanidade, tomei as dores de todos os terráqueos injustiçados e passei a lançar argumentos.

- Mas isso é uma injustiça! Veja o meu caso, por exemplo. Você escolheu um péssimo espécime pra fazer esse seu discursinho! Aproveito o planeta. Uso meu pedaço de terra, cultivando e consumindo tudo que nesse chão dá. Viajo, aproveito as cachoeiras, o mar. Entro até em contato com os entes de outras dimensões. Como eu, conheço muitos. Aproveitamos esse pedaço de rocha solta no espaço sideral, utilizamos ele, até demais. Já existe gente em excesso, mais espaço ocupado do que o ideal, produção em massa, sobreutilização dos recursos naturais...

- Terráqueo – o E.T. me cortou -, sua visão de cumprimento da função social é limitada. Você acha que cumprir a função social é utilizar, aproveitar. Não é apenas isso, mas usar com sabedoria. Vocês estão destruindo o planeta. A Terra está se aquecendo demais, os pólos estão derretendo, os desastres naturais se ampliam, o buraco na camada de ozônio não mostra sinais de redução. Vocês estão tornando inabitável o planeta mais privilegiado pra se morar na Via Láctea depois do fora de concurso e inacreditavelmente perfeito - peraí, deixa eu olhar o nome do planeta num papel, que eu anotei... ai, cadê isso... ah, tá aqui... é... bom vamos lá, ele continuou, é... -Opoledidigogobalatixxxxxxxxcaipamdongtápalpapumdoin, que é realmente inigualável. Você tem que ver os brotos que são as fêmeas das duas principais espécies desse planeta. No dia em que você vir isso jamais achará a Gisele Bündchen gostosa. No máximo pegável, mas jamais gostosa.

Respondi ao alien que a gente tava realmente fazendo muito mal ao planeta, mas que aos poucos estávamos nos conscientizando, com ações como o Protocolo de Kyoto. Mas aí ele sumiu. Porra, que susto! Não é só porque o bicho tinha se materializado na minha frente minutos antes que eu já havia me acostumado com aquilo de um ser alienígena aparecer e desaparecer. Tomei, segundos depois, outro susto, quando ele reapareceu com um enorme papel enrolado. O verdinho desenrolou o tal papel no chão, se ajoelhou junto dele, pediu pra que eu me aproximasse e começou a me mostrar um enorme estudo, com inúmeras incógnitas e gráficos. Cara, foram horas de explicações. Fórmulas matemáticas complexíssimas, doidas, que nunca vi e que provavelmente nenhum ser humano já viu, um treco de outro mundo. Os gráficos, então! Puta que pariu! Quinze mil planos. O fato é que o alienígena me provou, matematicamente e de forma irrefutável, que se a Terra continuar controlada pelos seres humanos, em 427 anos terrenos se tornará inabitável. Bicho, não tive nem como contestar. Fiquei parado sem argumentos. Perguntei, então, o que eles pretendem fazer com os terráqueos quando ocuparem o planeta. Ele falou. Bicho, ele falou que a gente vai ter que ir embora da Terra. Pra onde? Pra onde bem entendermos. É isso aí, tchau e bênção. Caso alguém se recuse a sair, ele me garantiu que vai ser ejetado no espaço sideral com um traje espacial que eles vão dar pra compensar a falta de pressão, mais oxigênio e soro na veia suficientes pra duas semanas. Duas semanas terrenas, ele esclareceu. Mas eles não se responsabilizam pelo destino das pessoas lançadas no vazio. Porra. Vai jogar a gente no espaço, bicho! Tem noção disso!?! Imagina o que é você ficar solto flutuando no espaço! Aliás, não só você, mas sete bilhões de pessoas! Porra, que viagem! Perguntei, então, se aquilo era mesmo uma ocupação ou uma desapropriação. Pô, sei lá, associo ocupação mais com um lance de desobediência civil, não com uma violência dessa, de mandar o cara pro espaço. Ele me falou que era mesmo uma ocupação realizada pelo MSP, pra pressionar o governo da galáxia a desapropriar a Terra, um dos planetas ocupados por seres que não lhe dão sua função social. Por isso eles vão lançar os seres humanos em trajes espaciais, pois se, por acaso, a ocupação for considerada ilegal, então eles terão que desocupar o planeta e naves do governo vão levar os humanos vagando pelo espaço de volta pra Terra, ainda com vida, pois o Judiciário galáctico não é tão lento quanto o brasileiro e duas semanas é tempo mais do que suficiente pra, ao menos, analisarem e darem cumprimento a uma liminar. Cara, nosso destino vai ficar nas mãos de juízes e desembargadores aliens! Porra, imagine um alien de terno, gravata e toga decidindo se a gente vive ou morre solto no espaço! Que merda!

Fiquei assustadíssimo com a história e perguntei pra quando eles planejavam a invasão e ele disse que já pra dali a dois dias de Adrotemo, o planeta de origem daquele humanóide, do qual ele foi desalojado por conta da concentração de terras, tornando-se um sem planeta. Perguntei a quantos dias da Terra aquilo equivalia, mas ele falou que havia esquecido seu calendário comprado no banheiro da loja de conveniência do posto espacial no qual ele parou durante a viagem pra cá, onde havia comprado uma barra de cereal andrômedo que, garantiu ele, não é tão eficaz pra regularização da flora intestinal quanto o cereal terreno.

Depois ele pediu pra eu divulgar a ocupação. Pensei, nessa hora: “ah, a gente tem que adiantar o nosso lado, né?”. Pô... pois é... tive que correr atrás do prejuízo. Aí eu perguntei se ele poderia me levar, quando invadissem a Terra, pro planeta... aquele lá do nome grande, que é cheio de fêmeas gostosas. Ele me falou que aquele planeta já tá lotado, pois muita gente imigrou pra lá, então eles não tão aceitando mais ninguém, até pra manter a qualidade de vida. Usam a Terra como exemplo. Dizem que não querem deixar que aconteça o mesmo que aqui e por isso não topam que mais ninguém vá pra lá. Até visto de turista pra esse lugar é difícil de conseguir. Visto, veja só, precisa de visto pra ir pra outro planeta! Bom, depois eu questionei por que eu a receber e ficar responsável por divulgar a ´boa nova` e por que ela tinha que ser dada, uma vez que a ocupação já tava decidida. Ele me falou que era pra dar tempo pros humanos se organizarem e que tinha sido eu o escolhido porque ele tinha ido com a minha cara, tanto que me ofereceu uma cerveja plutônica, que ele tava carregando numa cantoneira invisível. Não gostei. Muito forte e amarga. Mas deu um barato com uma tulipa só. A propósito, a tulipa deles é totalmente diferente. Parece um negócio meio cubista, lembra um pouco Kripton, é muito doido. Fiquei tonto com a bebida e o extraterrestre também. Aí ficamos conversando amenidades. O nome dele é João. Descobri que eles captam ondas da nossa televisão e que Terra Nostra foi um grande sucesso em alguns planetas. As televisões possuem aparelhos tradutores que permitem eles entenderem qualquer língua da Terra. Inclusive, novamente ele sumiu – porra, outro susto - e voltou - caralho, mais um susto - com um grande papel cheio de fórmulas e gráficos, que provava, ainda no início do Brasileirão de 2008, que o Vasco seria rebaixado. Provou, também, através de fórmulas que desconheço, que o Flamengo será campeão brasileiro em 2009. Perguntei, então, por que eles acompanham o nosso futebol, pois qual seria a graça de acompanhar um esporte no qual já se sabe, de antemão, o que vai ocorrer? Ele me falou que é uma das únicas hipóteses em que, por vezes, raras vezes, os cálculos falham, e que isso é objeto de estudo. Mas... questionado sobre mala branca, ele disse que jamais tinha ouvido falar no assunto. Estavam explicados os erros...

Bem, João acabou passando a noite no meu sofá porque ele havia bebido e tinha medo de pegar uma blitz no caminho de volta pra lua que ele habita desde quando foi praticamente expulso do seu planeta natal. No dia seguinte pela manhã ofereci iogurte de leite de cabra e geléia de pêra. Ele ficou extasiado com o sabor dos quitutes e disse que não via a hora de vir colonizar a Terra, planeta de sabores esplendorosos, e que tinha gostado tanto de minha casa que era lá mesmo que ele moraria, o que, segundo ele, me deixava em vantagem, pois eu já conhecia o ser que me expulsaria do meu lar. Bem, fiquei na dúvida se isso era realmente algo a ser comemorado, mas acabei ficando na minha. Depois disso a gente se despediu plantando bananeira – ele planta bananeira com uma facilidade fora do comum – e dando três chutinhos com as pernas pra cima, que é a forma de despedida amistosa no planeta de origem do meu singular visitante. Em resumo, foi isso”.


Repare, nessa história, que meu tio só fica alterado após a cerveja plutônica, estando em perfeito juízo até então. Por essa razão parece-me bastante assustadora. Envio, portanto, esta carta, com a íntegra da gravação da entrevista em anexo, para que o Ministério da Defesa e a Associação Brasileira de Ufologia avaliem e tomem as medidas que julgarem adequadas.


Att.,

Apparício da Silva Torrely.


Texto por: Renato Amado

Imagem: Maria Matina, inspirada no texto.


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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Vermelhos e Crus


Quando eu perguntei se ele gostava de mim, ele respondeu mecanicamente, “gosto, ué”, e percebi que ele estava mentindo. Mas ele baixou os olhos e ficou levemente vermelho, como se sentisse uma súbita vergonha da mentira, e eu entendi que aquilo mudava totalmente o sentido da frase, porque uma mentira que você diz mecanicamente já é diferente de uma mentira que você tem vergonha de dizer. Ele não sabe, mas é por isso que eu volto. Eu podia dizer que não trabalho aos domingos, ou nem atender o celular quando vejo o número dele. Mas eu lembro daquela carinha vermelha e me dá vontade de saber o que tem atrás daquela cor. Já era a terceira vez, a gente fazia tudo sempre igual. Ele tirava a primeira, depois me oferecia sorvete, ligava a televisão, a gente ficava de bobeira, ele fumava, eu lixava unha, ele tirava a segunda e dizia que ia me chamar um táxi, que eu sei que é o jeito de um cliente dizer pr’eu ir embora. A mulher, quando vi a foto no porta-retrato, pensei que talvez ela estivesse morta. Não tinha idade para morrer, mas existe câncer, bala perdida, acidente de carro, tanta coisa que pode acontecer... Mas um dia alguém telefonou, e ele falou “sei, sei”, depois falou “é claro, amor”, e eu percebi que ela estava bem viva e ainda pedindo pr’ele passar no supermercado. Desde aquele dia eu olho a foto de um jeito diferente. Essa mulher tão feinha, essas rugas, esse sorriso amarelo, ela parece tão infeliz. Eu sinto no seu cansaço a quantidade de sonho frustrado, as viagens que ela não fez porque o menino estava com bronquite, a empregada que ela não contratou porque tinha que sobrar para o curso de inglês, os livros que ela não leu porque não queria ler mesmo, mas ela consegue pensar que também foi por causa do menino ou do marido. Então penso em todos os livros que eu li, penso naquelas tardes maravilhosas em Cabo Frio, recordo aquele cliente generoso que me apresentou ao arpaccio e ao petit-gateau, e me custa admitir que eu também sou infeliz. Mas eu estou cansada de ser infeliz do meu jeito, queria tanto ser infeliz do jeito dela! E, mesmo presa no silêncio da foto, seu riso agora é um riso de zombaria. De alguma forma ela percebe que saiu vitoriosa, ela sente que a infelicidade dela é melhor que a minha. É quando eu digo que vou beber água, mas não estou com sede, eu quero é entrar mais uma vez na cozinha, olhar os recados na geladeira, cheirar os vidrinhos de tempero, espantar as mosquinhas que já começam a incomodar as frutas. E de repente eu percebo que tem alguma coisa nessa cozinha que me escapa completamente, algo que nunca vou conhecer, mesmo que me aposse daquele homenzinho da sala e conviva para sempre com seu hálito e sua calvície. É talvez buscando essa coisa misteriosa que abro a geladeira
e descubro, numa vasilha de vidro, os corações de galinha, vermelhos e crus, quase como morangos. Eu sei fazer coração, é muito fácil, é só refogar com tempero e cebola. Eu posso fritar agora e a gente come no palitinho, enquanto ele descansa e vê televisão. Uma alegria boba me invade, sinto que vou me apropriar de uma pequena parte da cozinha. A mulher da foto já vai me olhar de outro jeito quando eu voltar à sala, talvez assustada, acuada na sua moldura de porta-retrato. Mas eu chego na sala e o homem está abotoando a calça, o cigarro está morto no cinzeiro, ele pega o telefone e diz que vai me chamar um táxi.

No caminho para casa, passo num mercado vinte e quatro horas. Quando os corações estalam na frigideira, eu ainda tenho a vaga lembrança de um porta-retrato, uma mulher triste que teima em sorrir, um homem que transa de meias e precisa de óculos até para ver televisão. Mas logo depois estou engolindo a carne macia, e consigo acreditar que comprei coração apenas porque é barato e fácil de fazer. Posso estar triste agora, mas sei que, quando amanhã chegar, vou achar que hoje foi apenas mais um domingo.


Texto por: Ronaldo Brito Roque







Imagem : Pilar Domingo, inspirada no texto

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Segundo Encontro - 08/12


Terça-feira da próxima semana, dia 08/12, às 20:00 h, ocorre o segundo encontro aberto do Projeto Caneta, Lente & Pincel.

No primeiro encontro, realizado em 05/11, foi eleita a imagem à esquerda, de Marcelo Damm. Agora, todos estão convidados a escrever textos inspirados nesta imagem. O texto eleito será postado no site do projeto, em companhia da imagem campeã do encontro passado.

Em seguida, abriremos espaço para apresentação de qualquer tipo de manifestação artística sobre qualquer tema, para que elejamos a obra de arte inspiradora dos textos a serem lidos no encontro de janeiro.

Até lá!

Espaço Cultural Multifoco,
Av. Mem de Sá, 126, Lapa.
R$ 2,00
08/12
20:00 h.

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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

De uma janela, em Copacabana


Onde ela nasceu não é assim pequeno pros lados, mas é pequeno pra frente. A pessoa cresce, não precisa nem ser muito, e vai trabalhar na lanchonete da avó, na vendinha da mãe, no açougue do pai. Lá onde ela nasceu, quem tem sorte, divide o pai com muita gente. Quem não tem, tem só a mãe mesmo. Mas tá bom. Pra ser alguém na vida, só indo pra cidade grande, ela pensava. Grande pra frente, de oportunidade. Oportunidade é uma palavra que ela aprendeu no jornal da TV e gostou, passou a usar. Assim como passou a usar “muito maneiro”, ao invés de “muito massa”, embora os irmãos estranhassem nas cartas.

Agora ela está na cidade grande, no bairro grande, no apartamento que é um exagero. Nunca tinha visto tanto espaço vazio junto. Ela trabalha em Copacabana, bem no finzinho, dá até pra dizer pras amigas que é quase Ipanema. Ipanema é muito maneiro, ela pensa. Agora ela está na janela, quer dizer, atrás da janela fechada, mas que tá tão limpinha, que é como se estivesse aberta, dá pra ela ver tudinho. O mar, que logo que ela chegou, contava quantas vezes o tinha visto, mas quando chegou na vez 30, parou de contar. Lá de cima, da janela, ela não consegue ver os peixes, de coisa que nada, ela só vê mesmo uns barquinhos lá no fundo e uns homens. “Eu que num tenho coragem”, é o que ela diz pra Dona Elizabeth quando a patroa pergunta se ela já mergulhou.

Dali ela vê os meninos vendendo côco o dia todo. O côco prontinho, aberto e com canudo. Ela se pergunta quem é que sobe na árvore pra catar a fruta, já que esses meninos são muito magrinhos pra isso. Tem também muita gente com pressa embaixo dos pés, que vai de carro, de ônibus, de van, de todo jeito. E ela olha, olha, mas como não tem pressa embaixo do olho, não consegue acompanhar.

Se a patroa chegasse agora, ia ver as bochechas dela pegando fogo, é que acabou de passar no calçadão, o Raimundo, o porteiro do 1530, da praia mesmo, que ela conheceu na feira. Ela gostou dele. Mas não está entendendo porque é que ele sentou ali no banco, ao lado do homem de ferro, que fica o ano todo lá parado, sentou e pegou o telefone, bem na hora do serviço. Ela podia até gritar, mas não gosta de abrir a janela pra não parecer que tá à toa, sem fazer nada. Ela ouve um barulho que não é a campainha. É o celular novo, cor de rosa, que começou a tocar na cozinha. Deve ser Raimundo.

texto: Ilana Reznik



Imagem: Marcos Semola, inspirada no texto (www.s4photo.co.uk).


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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Lembranças

Inevitavelmente tem acento?
- Não, como não tem nenhuma palavra terminada em mente, porque a sílaba tônica é men, mesmo se tivesse til - que não é acento, é sinal de nasalidade (Como é que alguém termina jornalismo sem saber isso??)

O editor-chefe entrou na sala um pouco atordoado, interrompendo a conversa. Quando ele entrava na sala assim, ela já sabia: ele não estava satisfeito. Pediu desculpas pelo atraso, sentou-se e começou a reunião. As pautas da semana seguinte realmente não estavam lá muito interessantes: o perfil da nova RTV de uma agência de publicidade da moda, um grupo de homens adultos que se encontravam todo final do dia pra jogar botão num subúrbio da cidade, o campeonato de remo dos padres vicentinos, a mania de arroz de pequi que saíra de Minas e estava dominando todo o Sudeste, o filho recém-nascido da atriz de novela. Júlio logo escolhera o perfil da publicitária. Carla pedira a fraternidade do botão. Entre o catolicismo e o mundo das celebridades, o arroz de pequi era pelo menos mais exótico. Manoela ficara com ele. Depois de todos terem dito em que pé se encontravam, gradativamente a equipe foi deixando a sala de reunião. Todos saíam, o editor-chefe juntava alguns papéis, e notou que ela estava mais esquisita do que o seu normalmente esquisito.

- Tá tudo bem?
- Tá.
- Tem certeza?
- Ahn?
- Tem certeza?
- Ah, tenho.
- Bom, qualquer coisa berra, tá? Até segunda.
- Até segunda.

Manoela foi pra casa direto aquele dia. Quando chegou, o entregador da farmácia já estava na porta esperando por ela. Ela pagou correndo, morrendo de medo de que os vizinhos conseguissem enxergar qual era o remédio que comprava. Entregou a receita para o rapaz como se naquele pedaço de papel estivesse o maior segredo do ocidente - e subiu. A noite estava com um ar esquisito. O azul marinho do céu se juntava ao preto dos prédios, que de novo se juntava ao azul marinho da Lagoa Rodrigo de Freitas, tornando a paisagem um enorme e contundente borrão escuro. A nesga de lua por trás das nuvens criava uma atmosfera ainda mais dramática. Era uma noite bonita, com um levíssimo ar frio - na medida em que o Rio de Janeiro pode ser frio em fevereiro... Ela acendeu um Marlboro vermelho, serviu-se de uma taça de vinho e foi para a varanda. Ficou lá, parada, contemplativa, fazendo a única coisa que fazia com verdadeiro prazer: pensar. Sempre que se dava conta, ficava abismada com a maneira como funcionava seu cérebro - sempre projetando, sempre inventando histórias, criando situações em que ela fosse protagonista, mas com subtextos e contextos sempre aleatórios. Assim, podia viver em pensamento suas outras vidas, e seguir em frente com a sua própria história. Tinha sido assim desde que se conhecia como gente e não fazia idéia de como era pensar de outro jeito. Suas primeiras lembranças eram de sua vitrola que fechava como uma malinha - ela oitenta centímetros rodando em volta da música - e vivendo as vidas além da sua. Toda uma nova maneira de existir se abriria pra ela depois daquele mínimo objeto, e de repente ela sentiu um medo que jamais tinha conhecido antes. Estava com muito medo de que, de agora em diante, não fosse mais assim, fosse de um jeito todo novo, desconhecido (mas não era exatamente para isso que tinha trocado o almoço pela consulta com o psiquiatra, mais cedo?). Um tipo de medo pesado, denso, sufocante. Manoela engoliu o remédio a seco. Em voz alta, ela pediu ao tempo que fechasse e chovesse a noite inteira. Mas não ia chover. Ia continuar aquele clima estranho ainda por muito tempo. Até de manhã. Até a hora em que Manoela ficasse cansada de chorar e fosse dormir.

Texto por: Maíra Fernandes de Melo

Imagem por: Bruno do Amaral, inspirada no texto.

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Eterno Retorno

Imagem: Fernanda Franco (- perfil)




“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio” (A Gaia Ciência / Friedrich Nietzsche).



A astrologia explica como retorno de saturno. Um café e um livro do Nietzsche. Eterno retorno, ele diz. Daqui a 20 dias, 30 anos. Ainda cheia de citações de livros e filmes que eu já vi.


Vomito palavras para salvar minha própria vida, ou para evitar verbalizar todo o clichê da mulher de 30.


Mas o homem chegou, e eu o mandei ir embora.


Existe um trabalho que segura a onda e as contas.


Existe a grana, o apartamento, a viagem dos sonhos, o gato em cima do sofá.


Existe um buraco no estômago, uma fome de não saber o que, e ainda livros espalhados pelo chão para que me expliquem inclusive, a ânsia que eu tenho de escrever.


Escolho um boteco sujo no Lido. Vontade de descer do salto de menina bem nascida e me misturar com as putas e o resto. O tempo passa e aparentemente aos 30 a gente já precisa saber quem é. Eu passo longe disso.


Nos cinco primeiros minutos eu vejo que não sou tão descolada assim. Deixo a cerveja de lado e morro de medo dos caras que passam. Saio com decote e salto para desaparecer no meio de todas aquelas pessoas que transpiram sexo e putaria. Mas a minha própria presença incomoda demais.


Volto a casa.


Os livros continuam no chão.


Nietzsche me encara.


A merda do eterno retorno.


Acendo um cigarro na janela, não parei de fumar, ainda olho as cartas do cara que mandei ir embora, escrevo de volta, tento dormir cedo, trabalho logo ás 9h, ainda não sei quem eu sou, os 30 anos chegam em 20 dias, não consigo ser puta mesmo que eu queira e sim...


Ainda procuro o amor.


Tudo que vai, volta.


Ele previu.


E talvez seja mesmo essa a maldição a que me colocaram à prova.


Mas num impulso infantil de ironia, ou de vontade de me salvar a vida ou a insônia que chega, eu lembro de todas as grandes coisas que já passaram por este mesmo apartamento que agora me encara, e abro as portas para que as coisas retornem.


Aquieto-me.


E recomeço de onde parei.


Texto: Paula Gicovate (- perfil)

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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Tema de Frank (ou o avesso da verdade)

Performance: Renata Mafra



Quando a conheci, ela estava bebendo um Dry Martini e lendo um livro do Gregory Corso. Costumava aparecer às segundas, às vinte horas e trinta de cinco minutos. Pontual e exata como não costumava ser em sua vida. Sempre vestia preto e usava os cabelos presos num rabo de cavalo desalinhado. Sentava num banco junto ao balcão, pedia sua bebida e, calmamente, lia o jornal. Às vezes parava de ler e conversava um pouco com o barman. Depois, riam um pouco, ela pedia outro Dry Martini e olhava em volta. Um dia veio falar comigo, segurando firmemente seu copo meio cheio, meio vazio.


Eu estava pensando... - ela disse, indiferente como num filme francês - preciso esquecer algo que me aconteceu hoje, e estava aqui pensando que talvez você seja a companhia perfeita para isso.

Sentou-se à minha frente, respirou profundamente e bebeu dois goles de seu Dry Martini. Ela sabia. Eu já estava em suas mãos e mais cedo ou mais tarde teria que me abandonar. Sofria de um tédio incomum, anormal, sombrio.

O que aconteceu hoje que você quer esquecer?

Eu quero esquecer. Se você me perguntar, vou embora. Quero esquecer. Só preciso lembrar disso amanhã.

Lembrar de quê?

De que hoje consegui esquecer.

E o que eu posso fazer pra você esquecer?

***

No dia seguinte ela me acordou gritando. Gritou no meu ouvido, enlouquecida, como se estivesse cortando seu corpo com uma faca afiada, como se cortasse seu dedo indicador e o deixasse de lembrança para mim. Gritou durante minutos. Ou, pelo menos para mim pareciam eternos minutos, devastadores para os tímpanos e minhas relações com a vizinhança.

No meio de seus berros, ela gritava: “vamos grita comigo. Grita comigo, por favor. Grita agora.” E não sei como ou por que razão, aquilo foi uma ordem para mim. Gritei, de forma temerária, violenta. E num ímpeto, ela me calou, me dando um beijo fundo e repentino.

Agora escute o silêncio, ela disse. E me indagou com os olhos. Então?

Não estou ouvindo nada.

Nada?, ela disse. Eu estou.

O quê?

O tema de Frank.

Que tema?

O seu tema.

***

Ela não tinha telefone, por isso eu precisava esperar suas ligações. Invariavelmente, elas vinham nos horários mais improváveis e, logo, o imprevisto passou a ser habitual. Eu esperava atender suas ligações no meio da noite, no meio da madrugada, às seis da manhã, quando eu conseguia dormir depois de tentar esquecê-la. Também ao meio-dia quando ela me perguntava onde eu estava e depois de ouvir que eu estava trabalhando, ela respondia com desprezo, ahnnn, é que quero ver você hoje à noite.

E eu aceitava, como aceitei tudo que vinha dela.

Preciso que hoje seja ontem de novo.

Como assim, garota?

Frank, preciso que hoje seja ontem de novo. Preciso disso agora, e preciso disso com você.

Tudo bem, vou pegar minha máquina do tempo.

Ela me apertou com força porque sabia ser violenta, me beijou de seu jeito próprio, quase gritante, e sussurrou:

Preciso que hoje seja ontem e preciso que você remova de mim essa vontade de ir embora daqui.

***

Durante alguns dias foi ontem, como ela queria. Foi um mesmo dia, repetidamente, dia após dia. Mas não consegui enganar o tempo e, assim, foi numa terça-feira de manhã que ela partiu. Na quarta, na quinta, na sexta, no sábado, no domingo, na segunda, na terça, na quarta, na quinta e em todos os dias seguintes fiquei esperando suas improváveis ligações. Dormi pouco, comi pouco, pensei pouco e só quis de volta as suas vontades enlouquecidas de gritar e de que todos os dias fossem um só novamente.

Um dia ouvi seus gritos. Procurei em dezenas de janelas iluminadas dos prédios à minha volta, calculando a direção daquele som. Gritei de volta, querendo que ela me escutasse. Depois, sobreveio o silêncio, sem sua boca violenta me beijando.

Invadindo o silêncio ouvi uma canção que dizia algo como: I promise when the sun comes up. I promise I’ll be true.

Não consegui mais dormir. Nem naquela noite, nem nas seguintes.

Esperando o sol nascer, esperando o dia de ontem de novo. Esperando por ela, que sempre foi o avesso da verdade. O avesso do esquecimento.



Texto: Danielle Costa

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