quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Dentro de mim mora um rio





Ana passava os dias sentada no banco na beira da calçada, olhando para o outro lado da rua, lá longe, buscando o horizonte.
“Um dia eu crio coragem”, falava ao vento.
No que o vento perguntava: “Coragem para quê?”.
“Para navegar nesse rio”, respondia.
“Mas aqui não tem rio”, replicava o vento.
“No rio que mora dentro de mim.”



Rodada 86
Imagem: Pilar Domingo
Texto: Patrícia Cunegundes

domingo, 9 de dezembro de 2018

VISÕES




Após tantos anos, senti ser o momento de rever a pedra.
Em todos os verões da infância e adolescência - os mais belos e o mais triste, era a pedra que me acolhia. Ali eu me escondia dos demônios e me entregava aos prazeres de forma plena. Compartilhava com ela sonhos e pesadelos. Traçava planos e fugas.
Foi na pedra que eu voei e, num dia cinza, de lá também caí de ponta-cabeça, mudando os rumos da minha vida e me trancando feito concha.
Durante anos lutei para esquecer aquele dia, uma guerra inglória, que me encontrava sempre derrotada a cada amanhecer. Batalhas e batalhas, dia após dia, a pedra me fazendo lembrar que o fim está a um passo. 
Sentia uma quase necessidade de retornar ao local onde estavam presos os sabores mais suaves e os mais acres, onde meu olhar se mantinha atado ao horizonte, impedindo-me de olhar em volta. Era preciso voltar a respirar, ainda que apenas uma vez mais. 
Após tantos anos, uma coragem me invade e volto à casa de vovô. Num ímpeto, caminho até a pedra e não a percebo. O que me chama a atenção é uma imensa árvore florida. Galhos enormes, raízes fortes, flores brancas e miúdas preenchem minha visão. Uma criança corre livre e me deixo levar por sua imagem tão deslumbrante.
Enlevada pela imagem viva da árvore em flor, o espectro da pedra vai se distanciando de meus pensamentos e de meu coração.
Aquela pedra cinzenta vai assumindo 
seu lugar no passado das minhas emoções. A árvore assume o protagonismo ante meus olhos e me toma por inteiro - esta sim me apresenta um espetáculo que só a vida pode oferecer. 
Eu agradeço e, aliviada, aceito de bom grado.


Rodada 86
Imagem: Angela Márcia dos Santos
Texto: Maria Emilia Algebaile

domingo, 2 de dezembro de 2018

o preço da passagem





o que para no que passa?
sombra sem sombra na praça
tantosilêncio contado
relógiostantoscansados
milhona contramão
vida pedindo não
amarelinhasem giz
caminho de meio triz
saudadena mão do pai
e você que também vai
sob esse sol quase escuro
de tinta de pedra de muro
que traz poeira e memória
e em cada traço uma história

Rodada 86
Imagem: Lucia Dias
Texto: Cesar Cardoso

A Boa Esperança não cabe na TV






A Boa Esperança não cabe na TV
Pois não cabe na política
Não cabe na oração
Pois não cabe na caridade despojo
Não cabe em versículos
Pois nem mesmo cabe no verso
Não cabe na letra e
Não cabe na vista
Quem dói não cabe.

[Não jogar entulho.

Carece,
Chefe.]

Rodada 86
Imagem: Rudy Trindade
Texto: Tatiana Peixoto.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018


Tétis
Estava
Tramando
Imponente
Sonda

Genesíaca
Explosão
Navegava
Enfoque
Sísmico
Íntimo
As águas
Confluíram
AVEVOCEU.

rodada 85
Imagem: Pilar Domingo
Texto: Tatiana Peixoto

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

o novo mundo luta para nascer





pela janela aberta
sentimentos
quereres
e ânimo escapam
apreendidos

a opressão dos dias
rodeia
o que era rota de fuga
agora é apenas uma porta emoldurada

fantasmas escondidos no pó da mobília
confabulam, animados
- é chegado o tempo dos monstros

até o chão, quase firme, fraqueja

fechojanelas
desligo luzes e conexões
adormeço instintos
removo poeiras esquecidas
até que o silêncio
possa ser percebido
em sua inteireza.

ainda a
ainda é
ainda há



(*) Livremente inspirado na frase de Antonio Gramsci, “O velho mundo está morrendo, e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros".


rodada 85
Imagem: Gloria Mota
Texto: Robson Aguiar

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Notícias populares







- Rádio Notícias Populares, repórter Ana Guimarães, boa tarde.
- Ana, é Pedrosa, da 5ª DP, tudo bem?
- Tudo bem uma ova, né, Pedrosa. Dois dias sem uma dica boa, cara. Quer acabar com a minha carreira? Tão no meu pé aqui.
- Por isso que tô te ligando, Ana. Tem sangue fresquinho pra você. Corre na rua do Lavradio.
- Até que enfim! Te encontro em dez minutos.
- Tô esperando, vem logo.

Dez minutos depois. Ana chega ao local do crime. A cena é chocante. Seu olho brilha. Entrevista algumas pessoas, faz umas anotações e liga para a redação:
- Trindade, é Ana. Nunca mais reclama quando eu passar dois dias sem entregar nada bom. É sangue e crueldade que você quer? É isso que vou te dar. Você sabe que sempre vale a pena me deixar de butuca, esperando a história certa. Essa vai bombar a audiência. Prepara aquela sonoplastia dramática. Tudo pronto pra eu gravar? Posso falar?

“Na sala, o silêncio torturante atazanava o juízo dos que aguardavam ser chamados. A esperava já durava quase toda a manhã. Além da falta de retorno da secretária, o plec-plec do ar-condicionado parecia contribuir para abafar ainda mais o ambiente. O número de pessoas que aumentava a cada instante e a proibição de fumar tornavam a espera mais e mais angustiante. Não havia como acomodar ninguém decentemente na sala diminuta e quente, de decoração decadente, com as plantas de plástico empoeiradas que pendiam nos vasos ordinários, também de plástico, mas que imitavam terracota. Já havia quem estivesse sentado nos braços dos sofás. Ao todo, eram dez pessoas.
O décimo primeiro a entrar na sala esforçou-se ao máximo para obedecer à placa que pedia silêncio. O homem abriu a porta com todo o cuidado, entrou pisando macio e a fechou com mais cuidado ainda, usando as duas mãos para garantir que a manobra fosse precisa e não emitisse um único ruído.
Não havia mulheres na sala. Apenas homens com ternos baratos, alguns talvez emprestados, ansiosos por um emprego. Um deles batia sem parar o maço de cigarros na perna, enquanto outro, sentado próximo à porta, mantinha um apagado entre os dedos. A maioria expressava desesperança no olhar; alguns ainda mantinham certo brilho, talvez pela expectativa de serem chamados a qualquer momento. Havia pelo menos duas horas e meia que a senhora atarracada e aparentando cinquenta e poucos anos desaparecera com os currículos. Ninguém conversava. Uns poucos fingiam ler o jornal ou uma revista semanal com páginas faltando e alguns aniversários na mesinha de centro.
O homem sentiu a garganta seca e estava intimidado pelo ambiente silenciosamente hostil quando pigarreou para chamar a atenção de alguém. Precisava saber a quem deveria se dirigir, pois aparentemente não havia ninguém responsável pelo escritório naquele lugar. De repente sentiu que todos o olhavam. Novamente a garganta seca e notou que os olhares se desviaram, na tentativa de encobrir a animosidade pela chegada de um possível concorrente. A densidade do ar talvez fizesse, agora, com que o tempo corresse mais devagar. E tudo aconteceu em câmera lenta. O homem que batia impacientemente o maço de cigarros na perna foi o primeiro a levantar quando o último a entrar na sala fez menção de perguntar alguma coisa. O soco inesperado derrubou no chão o desempregado que usava um terno emprestado e que acordou, naquela manhã, com a esperança de voltar para casa com uma boa notícia. Assim como todos os outros que aguardavam naquela sala abafada. O segundo golpe foi um chute no estômago. E assim, um a um, os homens descarregaram todas as frustrações da manhã interminável. O linchamento terminou quando a secretária, que vestia um conjunto de saia e blazer de tecido azul barato abriu a porta. Atraiu todos os olhares, aliviados e novamente esperançosos. Ouviram apenas a frase: “Voltem amanhã, pois o chefe não vai poder atendê-los hoje. Obrigada”. E não havia mais vida no corpo do homem de terno emprestado, estendido no meio do tapete roto.”

Os telefones da rádio não paravam de tocar, pedindo para a história ser reprisada, em forma de rádio novela.
Ana Guimarães não se cansava de receber os elogios dos colegas, mas continuava na cola do Pedrosa para garantir o novo sucesso da Rádio Notícias Populares.


Rodada 85
Imagem: Rudy Trindade
Texto: Patrícia Cunegundes

domingo, 21 de outubro de 2018

em xeque





queria criar um repente pensei em rimas ranger de dentes era a última vez e eu sabia disso pois ele levantou bradando um e se eu fizesse isso queria saber cantar essa peleja em que um era meu pai e o outro seu irmão meu tio minhas unhas ficaram só no sabugo meus olhos esbugalhando ali na praça para todo mundo ver eles movendo as peças como se suas vidas dependessem daquele jogo minhas costas suadas só pensava naquele duelo queria ser cineasta colocava naquele tabuleiro um ser humano e a morte mas não sei fazer repente não sei fazer filme só sei assistir assim como via aquele confronto que não teria volta eles não seriam mais amigos depois daquela disputa era certeza que eu tinha pois não sabia quem seria o vencedor que nem sempre está com a razão e antes do peão chegar à última casa antes mesmo te digo se fosse um plano de cinema eu aproximaria a câmera mostrando o peão sem poder virar rainha e meu tio levantando e a praça toda vendo e eu comendo os dedos quando meu tio levantou e jogou o tabuleiro no chão e as peças voaram e meu pai gritando fascista fascista eu era nova não entendia as palavras democracia ditadura e meu pai gritando que o outro não respeitava as regras e o povo tentando separar quando meu tio pegou uma faca e disse isso vai acabar veado tem que morrer e eu não sabia o que era veado e eu ainda não tinha visto o sétimo selo e mais tarde naquele dia meu pai me ensinou tudo o que ele sabia sobre xadrez e política e fomos embora sem um “mas” da minha mãe sem uma vírgula dos meus avós e sem nem mesmo um ponto final

Rodada 85
Imagem: Magali Rios
Texto: Eliane França

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Réstia




RÉSTIA

A réstia é tudo o que nos resta
e já é muito
mais do que uma nesga,

porque não nos nega.
É o que nos inflama
mas não nos cega.  

Cansada da estrada
a carne se esparrama
sobre o duro estrado

e atesta:
LUZ.




Imagem: Angela Márcia dos Santos
Texto: Guilherme Preger