segunda-feira, 22 de abril de 2019

SOBRE O INVERNO QUE ME INVADE




Não sei exatamente o dia em que o inverno começou, mas, agora, a luz que invade as frestas da minha alma não é mais dourada.

O ar gelado, a luz dura e os dias curtos interrompem o fluxo dos meus sentimentos.

No inverno, meu coração não oxida.

(Também a partir de Rubem Braga, que não lembrava exatamente o dia que o outono começou no Rio de Janeiro naquele 1935).

Rodada 88
Imagem: Márcia Magda
Texto: Patricia Cunegundes

sábado, 20 de abril de 2019

SUJEITO DE SORTE




“Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro”
“Sujeito de sorte” - Belchior 


Eu morri por quarenta minutos.

O mundo acontecia do lado de fora e eu o sentia pelo guincho das gaivotas. Do lado de dentro da minha morte eu conseguia avançar e retroceder o tempo. Sabia que, mesmo à prova do meu olhar, os carros trafegavam rapidamente pela orla, os donos passeavam com seus cachorros e ninguém notava o mínimo som do que poderia ser meu último preocupar-se. Pela janela aberta entravam os bafos e ruídos.

O processo de morrer é infinito. Durante ele as coisas começam lentamente a desimportarem-se:
O apartamento novo.
O emprego.
Os inimigos de si e da pátria.

Dentro daqueles quarenta minutos eu retrocedi e avancei quantas vezes desejei.
Quando relembro, sinto o cheiro da maresia misturado aos peixes da semana santa. E escuto outra vez as gaivotas que, na falta de abutres e urubus, me conduziram para o além-vida.

Morrer me fez sentir a vida com poros mais abertos.

Ainda assim espero que a próxima vez seja a última.

Vídeo: Marilene Agrizzi Nacaratti
Texto: Pedro Souza da Silva
Rodada 88

quinta-feira, 18 de abril de 2019

MAREJAR





Só consigo imaginar, pois não posso me mexer. E quem sabe do que falo? Só fecho os olhos. Aperto. Quando abro... vislumbro.

Imagino. É tudo o que posso fazer no momento. Passeios, nados, cavalgadas... mas a quem quero enganar? Me contentaria com um pique para fugir de respingos de chuva, com um simples abaixar para pegar qualquer coisa no chão. Mas nada disso posso fazer. Não no momento.

Então, aperto os olhos. E abro, esperançosa. Qual terá sido a primeira vez? Desse abrir e apertar de olhos, do imaginar? Dentro do útero, dentro do líquido. Dar longas braçadas, boiar de barriga para cima, afundar e ressurgir. Dominar o barco. Marejar.

Na televisão, o presidente perdoa o holocausto, celebra a ditadura, pergunta o que é golden shower. Tento não ouvir. São meus esses delírios? Efeitos da medicação? Fecho os olhos como quem quer pálpebras nos ouvidos. Abro os olhos como porta entreaberta. Não quero ouvir. Meus olhos marejam.

Imagino. Longos passeios de bicicleta, andar com uma xícara nas mãos. É só o que posso fazer no momento. Só posso imaginar e escuto. Quero imaginar, mas vejo. O país. À deriva. Como eu. Nesse leito.

Rodada 88
Imagem: Rachel Amaro Mendonça
Texto: Eliane França

quarta-feira, 17 de abril de 2019

DA TERRA





Sobre a madeira lapidada sentava-me plena, à tua espera

Sobre a relva sentia a brisa do verde e do vento, à tua espera

Esperar ainda mais já não respiro

Muito menos tu, agora sei

Translúcida que estou

Invisível que és

Restará só o retrato

Da paisagem
Sem nossos corpos?

Aceitas o pó?

Rodada 88 - Caneta, Lente e Pincel
Imagem: Ângela Márcia
Texto: Tatiana Peixoto

terça-feira, 16 de abril de 2019

A CANÇÃO-POSTAL






O que tem neste poema?
Neste visual celestial,
Nesta imagem bestial.
Qual é tom , o problema?
Da imagem dos pombos
Sobrepostos ao pessoal
Andando por uma França
Cheio de crianças e caixa postal.
De aonde vem tua carta?
Qual é a diferença entre a dança
Parada ou movimento ou tal
De pessoas sincronizadas ou paradas
Andando em decoro na praça
São todos deste poema-imagem talvez
Mas agora, pinto uma cena paisagem
Acrílico-cinema, poemas são cheios de graça.


Rodada 88
Imagem: Magali Rios
Texto: Fernando Andrade

terça-feira, 2 de abril de 2019

MOSAICO





Assim é a vida
Mosaico de sensações
Dia após dia
Às vezes denso
Às vezes turvo
De vez em quando florido
A vida vai sendo tecida
Uma hora, um mês, alguns anos
Se o mosaico se completa
Não se sabe
Mas as peças acabam
E restará só o susto das cores

Rodada 88
Texto: Maria Emília Algebaile
Imagem: Walter Vinagre


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

BAHIA 2019


Assim a sombra daquelas
caravelas
apareceram distantes
no manto parassempre verde-azul
qual nuvens rastejantes
aproximando-se das costas
onduladas da baía (Baêa!),
feito um céu caído,
eis os dias novos
e enevoados, massivos,
chegarem às praias plácidas
onde formas vivas e curvas,
ensolaradas,
aguardam abertamente,
em suas carnes mansas
e sobre as areias fofas,
o ímpeto de violentos ventos
que empurram umas velas
e apagam outras,
para amortecê-los
e escoá-los,
e para que se espraiem
por toda orla
e deles só restem
lufadas, brisas
e sopros.

Imagem: Lúcia Dias
Texto: Guilherme Preger

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

UM QUARTO



Seria bom voltar a ter um quarto. Um quarto grande, com janelas sempre abertas por onde entrasse o esturricante sol da tarde e o vento leve da madrugada. Um quarto com uma cama simples, forrada de chita colorida e com um urinol embaixo. Um quarto onde eu ouvisse histórias antes de dormir e onde as criasse durante as sestas depois do almoço.
Seria bom. Não digo um bom no sentido de razoável, mas bom como definitivo. Um quarto. Não uma cela, não uma suíte, não um latifúndio com móveis caros, não um espaço frio de lojas de decoração. Um quarto simplesmente.
Um quarto com cortinas ao invés de portas, um quarto em que a cama pudesse ranger ao mais leve movimento do corpo contando histórias enferrujadas alojadas nas molas históricas.
Um quarto onde eu pudesse chorar a noite inteira e onde o sol me surpreendesse com o mais alegre sorriso da manhã.
Após tantas camas divididas, tantos tetos diferentes a me perscrutar durante as noites de insônia, após tantos criados mudos com fotos de mudos desconhecidos, seria bom ter um quarto calmo, sem surpresas boas nem más, um quarto que me protegesse de mim.


Rodada 87 Invertida
Texto: Maria Emilia Algebaile
Imagem: Ângela Márcia

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

[o vão das coisas]





Eu deveria buscar o copo de água na geladeira frost free inox com dispenser – a expressão do vendedor da loja do shopping ficara congelada em minha mente depois de meses – e apenas me deitar, vencido. Mas eis que de repente chega o momento da vida adulta em que passamos a depositar toda possibilidade de alegria em um determinado instante, e apesar do cansaço consulto o celular a cada 2 minutos à espera de uma mensagem. Decerto uma ligação me faria muito mais feliz, afinal não é simples apreender o quanto há de autenticidade em breves palavras digitadas. É exagerado imaginar-me merecedor de tal cuidado: somos pouco mais que colegas de trabalho e um telefonema, todos sabem, requer uma intimidade superior nos dias de hoje. Examino a casa, até há pouco tempo cheia de vozes e movimentos, mas todos partiram e resta aqui um homem só e a miríade de espaços a preencher. A máquina do expresso está quebrada, então resolvo passar um café  convencional – pequenas panaceias da vida moderna. Não há pó, lembro agora do bilhete da faxineira, nem é possível sair pra comprar a uma hora dessas, e essa é exatamente a situação que me faz entender o quanto há de adequado nas tentativas de equalizar o cotidiano e de como seria simples o hábito de ir às compras, caso eu o tivesse. É quase desumano o esforço de acompanhar o ritmo das coisas. Troco o café por um copo de água com gás, gelo e limão e ligo a tevê num canal a cabo de cinema. Sempre me assusta a quantidade de opções: de quantas vidas precisarei até esgotar esses títulos e todos os outros que virão? Sintonizo em qualquer deles, e das poucas coisas que identifico é a fala castelhana, sonoridade recheada de expressões familiares. A sinfonia aos poucos se completa em quase perfeição e são necessários poucos minutos para que eu adormeça, o copo a ponto de tombar dos dedos vacilantes. Em algum lugar o telefone toca, com insistência. Não há ninguém para atender. 

Rodada 87 Invertida
Texto: Robson Aguiar
Imagem: Rachel Amaro Mendonça