terça-feira, 20 de junho de 2017

MINH'ALMA






Minh'alma voa,
tão leve e rota,
na brisa à toa.

E nesse céu
sobe sem dó
de quem ficou,
partindo só.

Minh'alma é louca,
lava-se e leva-se
ao infinito,   
e ressuscito.


Rodada: 76
Imagem: Carlos Brausz
Texto: André Calazans

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O ovo de Deus







A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo”. 
Hermann Hesse (Demian)

    Contam que o maluco do bairro era um leitor voraz de Machado de Assis. Conhecia toda a obra do tal do bruxo, e subia e descia ladeiras repetindo que Capitu não traiu Bentinho.
     – Não traiu! Não traiu!
     Quem já o conhecia bem não estranhava. Ao cruzar com ele, fazia uma reverência respeitosa e apenas confirmava:
     – Não, não traiu.
     O maluco ficava feliz. E seguia o seu caminho, casmurro, forrado de Esaú e de Jacó, elogiando Quincas Borba e repetindo trechos do Alienista, onde encontrara o seu personagem preferido:
     – Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu – ele repetia.
     – Ele quem? –perguntei, no dia em que o conheci.
     – Aquele, o lunático do Machado.
     – Que Machado?
     – De Assis.
     – Ele era lunático?
     – Não. O personagem que era. Não leu “O alienista”?
     – Não.
     – Aquele, sim, não dizia coisa com coisa?
     – O Machado?
     – Não. O personagem.
     – Sim. Mas o Machado dizia, não é?
     – O ovo de Deus que engendrou Davi... Compreende?
     – Acho que sim.

     – Isso não importa. Mas não esqueça: o segredo e o mistério não estão na vida, e sim  no ovo.


Rodada: 76
Imagem: Márcia Magda
Texto: Luis Pimentel

domingo, 4 de junho de 2017

GRAVIDADE



Todo morto 
em um acidente aéreo
queria chegar a algum outro lugar. 

Inclusive o suicida.

Rodada: 75 Invertida
Texto: Pedro Silva
Imagem: Gloria Mota

Amor





Não bastasse aquele dia cinzento, não bastasse o entardecer que sempre me traz nostalgia, não bastasse o cheiros daquelas flores e folhagens entranhados em meu espírito, eu ainda teria que encarar a cadeira da vó ali no canto da sala como sempre esteve? Só que sem ela, sem colo, sem histórias longas ou curtas, sem doces de amendoim nem maçã raspadinha... Uma almofada delicadamente bordada preenchia o vazio. A luz medrosa iluminava o suficiente para que o importante pudesse ser valorizado. E eu nunca mais ouviria sua voz baixinha rezando a Ave-Maria às seis da tarde. Olhei firmemente para a cadeira e me perguntei "por quê?" Nem tive tempo de acabar de fechar os olhos e a resposta brotou de dentro de mim. Ela diria "porque está na hora". Eu sabia a resposta para esta e outras tantas perguntas. Isso ela também me ensinou. Quando conhecemos as pessoas a fundo, quando as amamos de verdade, sabemos bem como pensam e o que falam. Não precisaria de sua presença física para saber o que minha avó pensava e sentia. Naquele instante, percebi que uma parte dela estaria ali naquela cadeira amalgamada a uma parte minha desde e para sempre. Seríamos eternas. Fechei a janela com cuidado e fui para casa feliz com sua lembrança dentro de mim.


Rodada: 76
Imagem: Lucia Dias
Texto: Maria Emilia Algebaile

domingo, 28 de maio de 2017

Paisagem e passagem



Pitoco
Eclodiu
Em diminutivo.

Havia pouco
Daqueles minutos
Que o despertador tocou
Não ouvindo juntos
O sol,
A solda,
E os soldados que ficam
Na mesa da cabeceira prestes a marchar

E a guitarra flamenca 
Tomando sol na janela de (goia)beira#à beira
Do Córrego uma avenca
Despenca na estrada
Passando roda, roda, roda

Por cima da desavença do dia. 


Rodada 75 Invertida
Texto: Fernando Andrade
Imagem: Carlos Brausz

terça-feira, 23 de maio de 2017

nada do que não seja isso

a manhã indefinida
         a chaleira fervendo
o café no coador
       os pães na chapa
e duas fadigas
      em volta da mesa
disposta com a manteiga

o banho morno
      traz uma mais fácil
realidade

a hora de sísifo
     a hora de sifu

a noite foi curta
    o dia será longo


a vida também é curta

Imagem: Lúcia Dias
Texto: Guilherme Preger

domingo, 21 de maio de 2017

the new city





cães
lobos
hienas
abutres
nas ruas
elevadores
boxes dos banheiros
gavetas das calcinhas
com seus dentes
sua baba
seus estômagos
esquartejados
carcaças espalhadas
demarcando territórios
e nós obedientes
de casa para o cadafalso
do cadafalso para casa
talvez chova logo mais no centro


Rodada 75 invertida 
texto: Cesar Cardoso 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

AVESSO





Meu avesso sentimento
Desespero incontido
Abismos, prazer e arrependimento
Voo dourado, divino
Êxtase e paúra
Carinho e luxúria
Medo, sentimento 
Amor, desatino


Rodada 75 Invertida
Texto: Maria Emília Algebaile
Imagem: Rudy Trindade

Vergonha





O homem foi forte que dava gosto ver
e bonito como poucos.
Foi íntegro, intenso, inteiro.
Agora está estirado no meio da sala
ensopado de mijo e suor
coberto de medos e pavor
olhando pros filhos
como se dissesse me levem
me escondam, me afastem
dessa vergonha, enorme vergonha.
O homem foi fogoso como um touro
enfrentou fantasmas, derrubou paredes
e carregou nos ombros tantos desaforos.
O olhar do homem, que espantou desafetos
é frio e perdido no tempo, o olhar fraqueja.
O osso se desfaz e o homem rasteja
para esconder os olhos, o corpo e o choro

de si mesmo.


Rodada 75 Invertida
Texto: Luís Pimentel
Imagem: Angela Márcia dos Santos