segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

emplastro



vozerio de carros, ônibus embrenhando-se no feltro do asfalto. índices da cidade acontecendo sob a janela cerrada. afunda-se num recôndito lençol fajuto, há meses o mesmo forrando a cama, olhos fechados em intensidade máxima. no peito, o emplastro enjeitado do rumor que o desânimo provoca. tapa os ouvidos no momento em que a cócega vira dor. a falência dos dias mais uma vez ronda a cidade a procurá-la. a ressaca íntima e anfitriã da náusea era desprovida de festejos, nenhum sinal de alegria prévia. ardia - e muito - a memória recente.


Rodada Especial 2017/2018
Texto: Vivian Pizzinga
Imagem: Carlos Brausz



domingo, 7 de janeiro de 2018

Ciclotimia



ROCHA → magma
de deusa havaiana.
Gelo e cataclisma;

não gelo, neve
não neve, água
mas densa – espessa e caudalosa.

Não lama, lava,
não larva. Fungo
por entre as estruturas do mundo.

Performar os estratos com a língua
e suas papilas delirantede
doçura inefável.

A língua-membrana;
Abrir e fechar mais um pouco
E um pouco mais.
Dilatadas pupilas –

Escancara até
Reluzir os dentes
não tão brancos
mas já sujos como
a neve pisada feito
massa, mescla de rua
suor e cobre – um cheiro
metálico de dias virada
100 horas em pé.

Desaba.

As pregas de cada músculo
desfazem tendões já sem força
se soltam desgruda
tudo
pele da carne,
carne do osso,
o-que-não-é-osso-do-corpo
de todo o esqueleto:

Calcário. A própria rocha absorve.

Agora só vai retomar movimento respiro
oxigênio germina-em-carbono
na próxima
Era.


Texto: Maíra Fernandes de Mello
Som: Gilson Beck

sábado, 6 de janeiro de 2018

Balas de tamarindo



Casar com Douglas foi um ato de desespero. Ou de redenção, não sei. Eu já estava fazendo trinta anos, o senhor entende? E chega uma idade em que a gente precisa dar um rumo pra vida. As pessoas são crueis. As pessoas comentam. Lucia vai morrer sem ninguém. Lucia é independente. Cadê seu namorado que conhecemos na última festa, querida? Difícil suportar.
Conheci e namorei Douglas em um mês. Eu não gostava dele. Ele chupava uma bala de tamarindo fedida cujo cheiro impregnava na língua. Odeio tamarindo. Mas ele tinha um monte delas no bolso. E sempre as chupava. Chupava e me oferecia. Nunca aceitei.
Também nunca aceitei seus carinhos, presentes, perguntas ou sorrisos. Eu fazia cara feia e reclamava de tudo. Jamais fingia orgasmo. Em minha defesa, devo dizer que nunca fui falsa com ele. Mas Douglas sorria. Sorria e dizia gostar daquele meu jeito. Você é muito sincera, Lucia, mas amo você assim. Vai entender. Amava mesmo.
Nunca fui falsa comigo também. E isso me consola. Sabia que não seria feliz. Mas estabilidade é mais importante do que felicidade, não acha?Aceitar a aliança de Douglas foi como assinar um tratado de monotonia.Nos casamos e fomos morar em Copacabana. Ele acordava às seis e saía para comprar jornal. Caminhava no calçadão e comprava balas de tamarindo numa mendiga da praça Inhangá. Jogava na loteria com a mesma sequência numérica (as datas de aniversário da mãe e do pai – que Deus os tenha). Voltava com um livro velho comprado no sebo lá perto de casa. Passava o café, resfatelava-se na poltrona, fazia palavras cruzadas, chupava as malditas balinhas.Quarenta anos se passaram assim, sem eu me dar conta.
No início, era mais fácil. Ele trabalhava no Banco do Brasil e só voltava de noite.Eu podia ficar em casa e ver tevê sem ouvir o tilintar irritante da bala de tamarindo batendo em seus dentes, sendo revolvida pela língua, prendendo-se no céu da boca.Com a aposentadoria, todos os dias eram como o domingo. A rotina matinal se repetia de tarde e de noite. E a casa se entupia de jornais, bilhetes de loteria, livros velhos e balas de tamarindo. Um cheiro agridoce e poeirento dominava os móveis. Mas eu estava disposta a viver assim. Tinha aceitado minha sina. Aos setenta anos, a gente já não quermais mudar as coisas. Temos o consolo de que falta pouco para acabar. Basta ter paciência.
Douglas me surpreendeu uma única vez na vida. Quando acordei, ele não estava na poltrona, fazendo palavras cruzadas e chupando balas de tamarindo.Em vez disso, enchia uma mala velha com mudas de roupa e alguns documentos. Assustou-se quando me viu acordada, mastigou uma bala de tamarindo e murmurou:
- Vou embora.
 Pensei que estivesse sonhando. Douglas não se deteve e passou o zíper na mala quase vazia.
- Conheceu alguma garota novinha? – perguntei. Não estava com ciúmes, só queria entender.
- Não conheci ninguém. Apenas não quero mais te fazer infeliz.
Depois de quarenta anos?, eu quis perguntar. Levantei-me da cama e fui ao banheiro lavar o rosto. Nada fazia sentido. Quando voltei, a mala já estava na soleira da porta.
- Não vai levar seus livros e jornais velhos?
- Se puder empacotá-los, busco depois.
- E as balas de tamarindo?
- Pode jogar fora.
- Vai deixar o apartamento para mim?
- Não seria capaz de tirá-lo de você. Pode ficar com o Fusca também.
Jogou o molho de chaves sobre a poltrona em que se sentara por quarenta anos.
- Vai ficar onde?
- Na casa de algum amigo.
- Você não tem amigos.
Ele sorriu, embaraçado, mas logo retrucou:
- Ficarei em algum hotel então. Copacabana é cheio deles.
A velhice deve estar me deixando um tanto lerda. Demorei a concluir o óbvio. Pedi um instante a ele e fui à cozinha. O jornal do dia estava sobre a bancada da pia, como sempre. Alguns hábitos não se perdem. Confirmei os números da loteria. As datas de nascimento dos pais dele. Vinte milhões acumulados.

Peguei o revólver velho guardado na cômoda do nosso quarto e dei três tiros no peito de Douglas. Quando o sangue saiu, cheirava a tamarindo. Ao revolver seus bolsos, encontrei o bilhete premiado. Rasguei-o antes da polícia chegar. Não queria o dinheiro.Os jornais me chamaram de velha maluca. Me colocaram em prisão preventiva como se eu pretendesse fugir para algum lugar. Não quero fugir. Sou paciente. Logo que cheguei na cadeia, fiz duas amigas. São meninas moças, simpáticas, mas lésbicas. Gostam de mim e me trazem presentes. Parece ironia: essa semana, me ofereceram balas de tamarindo. Numa provocação a mim mesma, aceitei provar. E quer saber? Gostei.   

Rodada especial 2017/2018
Texto:  Raphael Montes 
Imagem: Magali Rios



quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Fabulário com vocabulário métrico.



Fabulário com
vocabulário métrico. 

Livro é tempo 
Viver o passatempo
De não ter contratempo 
De pensar se exercito e contemplo
Se olho o céu ou em pose
De desapercebido, por exemplo. 

Se vou à lua ou no templo
Neste sol, neste espaço reconfortante
Se narro e vislumbro o passado importante  
Conto ao desenhista minha experiência
Escrevo uma narrativa de extremidades
Como meu pé e meu cotovelo.

Dou ao gato um novelo e ao rato uma gnose 
Descubro a passagem secreta nos contos de fada 
(Ratos roem a roupa toda do Rei das cidades)
Vejo à tempo o nome do livro na capa

E vejo que sonhei\dormi no meu aposento.  


Poema: Fernando Souza Andrade
Imagem: Paula Sancier

RodadaEspecial 2017/2018

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

PRIMEIRA VEZ



PRIMEIRA VEZ
Certas sensações só se sente uma vez
Nunca mais a expectativa do primeiro beijo, da primeira transa, do primeiro amor?
Mais que a expectativa em si
A esperança de reviver o acontecimento cvria uma sensação única
E a gente passa a vida tentando sentir novamente aquilo
Em vez de buscar novas primeiras vezes...
Cada momento, cada dia, cada amor,
Cada espirro, cada orgasmo, cada dor,
Cada filho, cada neto, cada insensatez...
Viver é sempre uma primeira vez!


Poema: Maria Emilia Algebale
Imagem: Márcia Magda
Rodada especial 2017/2018


domingo, 31 de dezembro de 2017

ANO NOVO


ANO NOVO
“Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos”
Nada mesmo como o tempo, como nos ensina Caetano Veloso, nessa “Oração ao tempo”.
O tempo organiza e reorganiza desejos, sonhos, paixões, angústias, ansiedades e até saudades.
Aliás, se há algo que o tempo relativiza é a saudade. Com o passar dos dias e dos anos, a saudade daquele que partiu de nossa vida, seja lá por que motivo, vai se transformando. Daquela dor que dilacera nossa alma e até o nosso corpo, que, muitas vezes, tem partes arrancadas pela avalanche de sofrimento, ficam as lembranças do que foi vivido.
Carlos Drummond de Andrade também trouxe outra faceta do tempo: a de nos trazer esperança. Cortado o tempo em horas, dias, meses e anos, temos a possibilidade de sonhar com momentos melhores. Amanhã, vai ser outro dia.
E é a esperança por dias melhores que nos move adiante.
Sem vislumbrarmos a possibilidade de uma vida melhor, a vida perde todo e qualquer sentido. Seria como viver um dia atrás do outro, apenas aguardando o dia fatal, o que seria uma enorme perda de tempo.
Então, façamos como Elisa Lucinda: “Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos: a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!”
Vem, 2018!


Texto: Éricka Gavinho
Imagem: Ângela Márcia dos Santos

Rodada Especial 2017/2018

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

CONTO



- João, me dá uma ajuda aqui! Pede pro Ricardo e pro Maicon também darem uma força.
*
- Carlos, preciso falar uma coisa contigo.
- Diga, meu amor.
- É que eu tenho pensado muito no Rogério.
- Rogério?? Quem é esse cara?
- Meu primeiro namorado.
- Como assim? Vocês andaram se reencontrando?
- Não, não vejo ele já tem uns quinze anos. É que eu sinto que tenho um lance interminado com ele, eu terminei só porque queria transar com outros caras e tal, mas não vivi a coisa com ele até o fim.
- Onde você tá querendo chegar?
- Eu liguei pra ele hoje, a gente vai se encontrar à noite. Vou propor da gente voltar.
- Que loucura isso! O cara vai te achar uma louca! O que você tá falando? A gente tásuper bem!
- Eu sei que a gente tá bem, mas ficou essa coisa em aberto.
- E aí você vai deixar a nossa coisa em aberto?
- Eu sei... Mas já tá há muito tempo, eu preciso resolver isso.
- Ele vai te achar uma louca, querendo voltar depois de quinze anos sem se ver. E não vai ser o único a te achar louca!
- Me desculpa, meu amor, você não merecia tá passando por isso, mas eu preciso concluir o negócio com ele. Se ele não quiser voltar, aí eu vejo o que faço, mas eu preciso fazer o que for possível pra gente voltar.
*
- Rogério, preciso falar contigo.
- Diga, coisa linda.
- Tem um diretor lá do trabalho, o Antônio, que vem me cercando há quase um ano...
- Sério? Filho da puta! Denuncia ele pra ouvidoria!
- Não, mas é que... um dia ficamos até mais tarde no trabalho e... Enfim..
- O quê? Você me traiu!?
- Meu amor, me desculpa, eu te amo! Mas é que eu acho que sempre tive uma coisa por coroão. Eles têm um charme... E essa coisa dos caras saírem pagando tudo, um monte de luxo... você sabe que nunca fui disso, mas tem um tesão nisso, nessa coisa de poder. Acho que sou uma sugar baby.
*
- Antônio, preciso falar contigo.
- Diga, bizun-bizun.
- Sabe a minha amiga Laura?
- Sim, a de cabelinho no ombro.
- Então, outro dia eu estava na casa dela e... acabamos transando.
- Não sei o que pensar....
- Eu gostei muito.
- Hm...
- Preciso viver isso.
*
- Laura, preciso falar contigo.
- Diga Florzinha.
- Saca o Daniel e o Ricardo?
- Sim, claro.
- Outro dia eu tava na casa deles e o Ricardo comentou que eles tavam a fim de fazer um lance com uma mulher.
- Hm...
- Aí me dei conta que, na verdade, sempre fui hétero. Mas por pudores eu não deixava a coisa ir até o fim, e por que um homem só se dar pra ter dois? Terminei relacionamentos trocando um por outro, quando eu gostava de dois...
- Mas Florzinha, você já pulou tanto de galho em galho! Parece que tá sempre insatisfeita.
- Não, não é insatisfação, é só que parece que minha verdade tá em outro lugar.
- Mas nunca tá...
- Eu sei... mas... essa coisa tá muito forte, eu sinto que eu realmente nasci para relações héteros de poli-amor.
*
- Ric, Dani, preciso falar com vocês.
(...)
*
- Que que o César tá querendo, hein?
- Tá pedindo uma força lá.
- Porra, não consegue mais dar conta do expediente sozinho não?
- Parece que não veio ninguém, a gente que vai ter que carregar a véia.


Texto: Renato Amado
Imagem: Glória Mota

Rodada especial 2017/2018

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

MEU BALAIO DE SORTE



MEU BALAIO DE SORTE

Um pedido pro universo
convertido em lua cheia
recebido tal regresso
de um brilho cadente.

Estalou no olhar
molhou os pensamentos
concebeu a esperança
de momentos verdadeiros.

Poema: Carolina de Araújo
Imagem: Lúcia Dias

Rodada Especial 2017/2018

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

DEBUTANTE



DEBUTANTE
Tudo tem um início, um começo. Esta é a minha estreia, meu conto inicial.
E tudo que se inicia, tem seu fim.
O termo já havia sido decretado dois dias após do seu prelúdio, mas ele somente o percebeu às vinte e uma horas,em ponto,de um sábado frio de junho, deitado no sofá da sala, com o celular sobre o braço do móvel. (veja, caro leitor, que a estória não é tão antiga, já havia celular). Ele olhava para a escuridão na noite na janela, nem nada ver.Caía uma lágrima pelo canto do olho, quando alguém passou(ele acha, até hoje, que foi seu pai). Esfregou o olho correndo, enquanto ouvia “passou o dia todo aí? vá comer alguma coisa e dormir.”
O início foi numa festa de 15 anos. Os dois eram conhecidos da debutante, mas não se conhecia. Passou a noite toda conversando com ela, um pouco mais velha do que ele, bem mais experiente do que ele. Tinha nome diferente, “é de uma atriz inglesa, minha mãe estava grávida de mim quando viu o filme e gostou do nome”.  Ele nunca ouvira falar daquele filme, tampouco da atriz. Ela estava entediada com a festa, mas parecia interessada no garoto bobo que não parava de tagarelar. Ele estava nervoso e não sabia bem o que fazer. Quando a aniversariante foi valsear no salão com o príncipe-de-faz-de-conta-contratado-pelos-pais, o garoto respirou fundo e chamou-a para dançar. O primeiro beijo, porém, surgiu apenas no final da festa. Tarde demais.
Tarde demais descobriu o moleque, ao ser chamado, deitado no sofá,com uma lágrima escorrendo do canto do olho, que perdera o dia em vã espera. Sua primeira paixão foi como a primeira brasa num carvão que se enrubesce rapidamente, mas logo se apaga. Passara a semana suspirando. Ligou apenas uma vez para ela no domingo, numa longa conversa sobre muito e nada ao mesmo tempo, tão comum entre os enamorados.Mandara diversos SMS. (sim, leitor, como é velha essa estória,nem havia whatsapp ou internet em celular!).Alguns, contudo, sem retorno. Na aula de Literatura, tivera ciúmes de Cruz e Souza, como se ele tivesse escrito seus sonetos para a sua menina, a sua inglesa. “Ó meu pálido amaranto!Não és inglesa, és brumosa.”Na aula de Trigonometria, dormia de olhos abertos. Na quarta e na quinta, ela não respondeu às suas mensagens, “está fazendo doce”, pensou. Na sexta, ele tomou coragem e domou o coração. Após a aula, ligou; ela vi a ligação no seu celular, bufou (“garoto chato”) e não atendeu. Poucos minutos, o chato insistia. “quer sair comigo amanhã?”, apareceu em seu celular; ela, que já tinha combinado de sair com outra pessoa, bem menos bobo, bem menos garoto, respondeu “amanhã te ligo para combinar”. No sábado, às vinte e uma horas e um minuto, ele percebeu que ela nunca mais lhe ligaria. Percebeu que ela nunca ligou para ele. Às vinte e uma horas e três minutos, fez uma solene promessa, consigo mesmo: nunca mais se apaixonaria. Por ninguém. Nunca mais. Ainda bem que era bobo; nunca cumpriu essa promessa.
Na verdade, parando para pensar, não escrevi sobre um fim. Descrevi um debute.

Texto: Guilherme Quaresma
Imagem:Pilar Domingo
Rodada Especial 2017/2018