terça-feira, 21 de novembro de 2017

vegetarianismo







diante de tudo há esse verde
que avança, invencível
contra a terra e a carne.
há essa selva verde
                e sua seiva gástrica
que devora ossos e miolos
e os deglute qual máquina
de dentes e os dissolve
em seu emanharado estômago
e infinitamente intricado
intestino.  Máquina
verde  que convulsa
revolve e expele,
vermelho, o rio que
serpenteia em pânico
e pulsa

abaixo de toda pele.

Imagem: Rudy Trindade
Texto: Guilherme Preger


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CONSELHOS DO SILÊNCIO



Escuta: não esquece que somos mais!
Semeamos mais do que sequestramos.
Só isso já nos salva, se quer saber.
Tantos saqueando as esperanças e a gente aqui: chorando de soluçar, mas não desistindo frente à saraivada.
Sei de nada??
‘Cê que pensa: sei de muito.
Escuta seu bem: sabe como é a vida... trancos e barricas.

Vê se não: as aparências dizendo uma coisa e a consciência fazendo sacanagem.
Esses são eles: os tais!
Somente vê, mas não vê muito, sabe?
Se for o caso, deduza
Esses daí são sem salvação, (longe de nós, ave maria três vezes).
Sabe como chamam seus retratos?
Santinhos!
Sai pra lá, Satanases.

Sinto que somente seus sons podem tocar a bondade do mundo.
Essa coisa que nasce quando você sussurra frases ou sua língua sibila coisas de amor.
Por isso apenas aconselho.
Porque nada sei que possa mudar essa realidade toda. Sendo assim te cuido, te salvo.
Você sim: fonte de salvação.
Se puder, guarde as poesias e as canções até que saibamos ser a hora.

Já há muitos milagres em seu silêncio. 

Texto: Pedro Silva
Arte: Gloria Mota
Rodada 80

domingo, 12 de novembro de 2017

QUARENTA MINUTOS




            Ainda suava, sem ofegar. Na rua deserta, à procura. O tempo todo, eu consultava o relógio, sem parar de buscar. Antigamente, ficava culpada por ter essas manias. Quando finalmente descobri o que eu tinha, não me importava mais. Não estava curada, nem em tratamento. Consciente, sim. O que não deixava de ser um alívio, mas só de lembrar da discussão que tivemos antes de sair de casa, começava a respirar mais rápido e sentia a ansiedade querendo se instalar.
            A rua continuava deserta. De gente e do que eu procurava. Olhei o relógio. Vinte e oito minutos. Enxuguei a testa. Suas palavras me martelando a cabeça. “Então, tira.” Esfreguei os olhos. Comecei a andar mais rápido. Pouco me importando, por incrível que pareça, se pisava em linhas brancas ou pretas, em sujeira, em pedrinhas portuguesas quebradas, em guimbas de cigarro, apagadas ou acesas. Vômitos, ratos, pombos. Nojeira. Nojeira foi o que você me disse. Em instinto, minha mão parou de esfregar os olhos e foi para a barriga. Assim fiquei. Procurando o que tinha vindo procurar. “Então, tira.” Não me lembrava se você tinha dito isso em grito ou sussurro. Para mim, abismo. Quando disse que o resultado do exame tinha dado positivo, ingenuamente, esperei ver sua felicidade. No entanto, fiquei com outra imagem congelada na minha retina. O cronômetro no relógio avisava: trinta e um minutos. Avistei mais uma! Chutei sem dó, nem piedade. Saí correndo. Novamente impune.
            Quando eu ainda procurava ajuda para o meu transtorno, li que os ciclos de obsessão costumam durar cerca de quarenta minutos. Enquanto esse tempo não passa, nós – os transtornados – fazemos o que temos de fazer. Matamos a agonia. Criamos algum “joguinho”: temos de fazer tal coisa, assim nada de mal nos acontecerá... é bobo, sei. Mas não é consciente. Ali. Mais uma! Parei em frente à sexta lixeira. Faltavam quatro. Esse era meu “joguinho” de hoje: quebrar dez lixeiras... Ou esperar passar mais oito minutos.
            “Então, tira!” – a sua voz, ao final da discussão - rondava minha cabeça. Em frente à lixeira arrebentada, um menino me condenava? Ou seria uma menina? Sete minutos. Não iria encontrar dez lixeiras. O Melhor era sentar e esperar.

            Não vou tirar nada! Nem menino, nem menina. Seis minutos. Já respiro melhor? Sento ereta. Eu que faço as regras. Terei. Não tiro. Menino ou menina, eu não me importo. Um minuto. Eu que faço as regras: com ou sem você, eu terei. Menino ou menina. Não destruo mais nada. Três, dois, um.

Rodada 80
Imagem: Lucia Dias
Texto: Eliane França 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Invisível



ADEUS



          A água se agita e mais uma vez vem o pressentimento. Está ficando cada vez mais frequente. Tenta passar as mãos pelas paredes onde continua em imersão, mas a agitação da água só faz aumentar. Não sente mais apreensão nem susto. Pela primeira vez tem medo, muito medo. E percebe que tem razão para isso, pois, misteriosamente, a água encontrou alguma saída e começa a escorrer. Tenta segurá-la, mas é inútil. Em desespero, mergulha na mesma direção em que a água escoa, tentando segui-la, o que lhe parece a única chance de evitar a morte.
            Vê uma luz forte como nunca e sente então duas mãos que a seguram e dizem:
            - Parabéns, é uma menina.



Imagem: Ângela Márcia 

Texto: Cesar Cardoso

Rodada: 80

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

MARÉS




Meus sonhos
Peixes dourados
Maré vazante levou-os 
pro mar da imaginação

Redes tecidas
De espumas e ondas
Maré de amores me trouxe
No dia da criação

Pelas brechas dessa vida
Utopia, ilusão
Um dia seguro você
Dentro do meu coração

Imagem: Márcia Magda Marcos
Texto: Maria Emilia Algebaile
Rodada 80

domingo, 15 de outubro de 2017

AS FILAS



            São longas, as filas. E muitas. E lentas. A fila para o benefício, para o trem fantasma, para o arco e a flecha. A fila do açúcar, dos ovos, do suspiro. Na fila do amor, as pessoas torcem lenços nervosos, seguram nas mãos flores que já murcharam e odeiam os que têm água. A fila para os que querem estudar finlandês é pequena e cheia de uma esperança irrequieta. Mas ao chegar no guichê só há vagas para o telemarketing e a dieta de proteínas. Na fila da família há uma distribuição de sanduíches que ninguém come. E todos mastigam em silêncio. Na fila dos floristas, cada um deve recitar sua sentença assim que chegar na cela. Na dos hospitais,há tijolos para quase todos. A fila das barcas tem se movimentado com desenvoltura, até desembocar numa fila de barcas. A fila mais rápida é para pessoas que devem percorrer grandes filas, dias e noites, repetindo: não há vagas, não há vagas, não há vagas. Na fila dos cachorros é proibido abanar o rabo. Na dos humanos, não. – Exibam seus passaportes! – recomenda-se na fila dos cegos. Há filas sinuosas, com sono e esperança, há filas em linhas retíssimas onde a respiração é compassada, e filas circulares que acabam em si mesmas. Fale na fila somente o indispensável. E repita, repita, não é de bom tom ficar calado. Corre um boato de que a fila para a lipoaspiração está se movimentando com grande rapidez. Também dizem que a fila para recadastramento de sadomasoquistas foi dispersada. E sussurra-se que a fila das mulheres negras não foi encontrada. Mas garantem que há filas por cores, profissões, ordem alfabética dos apelidos. Filas para quem quer ir ao teatro, para quem deseja devolver queijos, para os que espirram durante a noite. Filas para desaprender a ler. E desde hoje de manhã, todos estão nas filas, com suas senhas na mão, seus documentos no bolso, seus exames num envelope pardo, seus olhares no céu.


Imagem: Márcia Magda
Texto: Cesar Cardoso
Rodada: 79

Jogo da vida





E em que fundo de poço mora a sorte,
se o brilho refletido é para todos?
Em qual fase do jogo está o logro,
onde a carta da manga faz morada?
Difícil saber onde está o azar da caminhada,
se no xadrez da vida cada Torre é uma peça
repartida.
                       (Nossa na volta e deles na ida.)



Imagem: Carlos Brausz
Texto: Luís Pimentel


sábado, 14 de outubro de 2017

O entrocamento das árvores




Grama 
teus laços 
por toda  a seiva que te colorir\ 
que teu abraço
nutram as veias do recolher o mesmo traço
mesmo tronco de velhas árvores que paulatinamente 
sobem lume às estrelas,
se abraçam  e se esforçam ao embaraço
de se fecharem corpos-espaços da fímbria\
Do gole do caule, tudo é pertencido à sombra?

Que é o elo mais desnudo de um dia de sol.

Imagem: Angela Márcia dos Santos
Texto: Fernando Andrade
Rodada 79