quinta-feira, 16 de abril de 2009

Cai a noite e com ela...

Imagem: André Korenblum

... todas as minhas lembranças de Inês.
Vi Inês pela última vez há exatamente quatro anos e cinco meses. Ela esperava o elevador, carregando duas malas, com os seus últimos pertences, alguns livros e discos e mais as nossas recordações e as desesperanças de um relacionamento falido. Estava de costas para mim, seu cabelo loiro e curto embaraçado e confuso, os braços cruzados e o barulho de dedos que estalavam e quebravam o silêncio daquela espera interminável. Ela esperando o elevador, esperando que eu dissesse qualquer coisa. Eu esperando essa qualquer coisa que não vinha à minha boca e, assim como o elevador que não chegava ao nosso andar, isso tudo me angustiava, como o estalar dos dedos dela sempre me angustiaram.
Pra não vê-la ir embora de vez, fechei a porta, depois de dizer algo como:
"O porteiro vai ajudar você com essas malas."
Frase que fez com que me sentisse tão estúpido que, após bater a porta, ouvi a voz de Inês, como se sussurrasse no meu ouvido:
"Filho da puta."
Durante algum tempo, sua voz me xingando me perseguiu, principalmente nesses momentos de silêncio, em casa, quando eu sentia falta das nossas noites preenchidas por música e risos. Seus insultos me importunaram por várias noites seguidas, até porque era exatamente como eu próprio me sentia.
Nunca mais a vi. Soube, por um amigo, que ela ficou por algum tempo melancólica e deprimida (conforme suas próprias palavras). Soube que, no fundo, ela sentia saudades de mim, mas, num dia qualquer, decidiu que, com o dinheiro que havia guardado, em vez de financiar um apartamento, ia estudar na Itália. O que, de fato, fez.
Tendo nossas vidas tomado rumos tão distintos, sua voz , ultrajante e sussurante, foi aos poucos se dissipando, até que não pensei mais nela. Minhas noites foram preenchidas com outras namoradas, outros interesses, outros xingamentos, outros abandonos, os mesmos erros, outras saudades. E esqueci de Inês.
Até esse anoitecer de setembro. Numa praça na Itália. Num passeio turístico qualquer. Num desses acasos da vida.
Parei perto de uma pequena multidão que admirava malabaristas brincando com fogo como escritores brincam com palavras: com risco, cuidado, paixão. Fiquei ali durante alguns minutos, ouvindo comentários de surpresa, risos de estranheza e silêncios de comoção. Turistas, trabalhadores, artistas, mendigos, secretárias, advogados, médicos, garotos jogadores de futebol, garotas apaixonadas com seus diários e cadernos de poesia, todos, por um instante, deixaram de lado suas ocupações e pararam só para ver as luzes lançadas ao ar rasgando a noite que caía compulsivamente sobre todos nós.
Foi quando vi Inês.
Ela estava de costas para mim, como da última vez. O cabelo loiro, curto, bem penteado, os braços cruzados, as costas descobertas graças ao decote de um vestido branco que, ainda posso afirmar, não combinava muito com a sua personalidade.
Ela deve ter mudado, pensei, rapidamente, e tentei imaginar sua vida sem mim, durante esses mais de quatro anos. Deve ter mudado, como mudou quando nos conhecemos. Típico de uma personalidade-camaleão, o que ela sempre encarou como uma crítica. Mudar não é um defeito, eu tentava explicar pra ela, ser flexível é sinal de tolerância, mas ela não compreendia, achava que eu a chamava, na realidade, de volúvel.
Ela nunca compreendeu como eu adorava suas instabilidades, seu choro seguido de riso, seus gostos mutantes, sua preferência pelo que é diferente e novo e absurdo. Ela nunca acreditou que eu gostava, sim, de acordar ao lado dela todos os dias, inclusive nos dias em que ela acordava chorando por nenhum motivo, também nos dias em que eu queria dormir até mais tarde e ela tinha vontade de andar de bicicleta e tomar café da manhã no baixo gávea.
Ela era apenas inconstante. E eu, por minha vez, sempre soube que meus erros foram muitos e maiores que os dela.
Naquele momento, um homem lançava ao alto uma tocha de fogo e, vendo a luz marcando aquele anoitecer, percebi tudo o que eu deveria ter dito a ela, enquanto esperávamos o elevador que não chegava.
Certamente as coisas não teriam sido muito diferentes, mas, talvez, poderíamos ter compreendido o que sempre permaneceu obscurecido para nós dois.
Sorri, vitorioso e fui andando até Inês, me apertando entre pessoas que falavam italiano, francês, inglês, expressando-se com sílabas soltas e risos desesperados.
Com as palavras quase pulando da minha boca, ansiosas por chegar até seu ouvido, coloquei a mão sobre seu ombro, dizendo:
"Inês..."
E quando a moça de cabelos loiros e curtos se virou, meu sorriso vitorioso deu lugar à expressão decepcionada dos amantes traídos, as palavras certas que chegaram na hora mais imprópria deram lugar ao seguinte pedido de desculpas, que tentei dizer num italiano gaguejante:
"Me desculpe. Pensei que fosse outra pessoa."

Texto por: Danielle Costa

11 comentários:

  1. Dessa vez foi "putz!" o que saiu da minha boca ao terminar a leitura do texto, que me absorveu do início ao fim. Olhei para a foto e também pensei em Itália, mais especificamente em Veneza. Acertei, André?

    Parabéns à dupla!

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  2. "Muito bom", este foi o pensamento que me veio ao terminar de ler o texto... Estou como um pai orgulho (como os pais que viram a foto e o texto anteriores) com o andamento do nosso blog.
    André, parabéns pela foto. Uma foto casual, mas que não descuidou da técnica. Só a modelo que está muito magrinha! Hahaha! Não sei, mas a foto não me lembro Itália, mas Espanha. Madri, mais exatamente. Por favor, nos conte.
    Dani, que texto primoroso! Só um pouco corporativo ("malabaristas brincando com fogo como escritores brincam com palavras: com risco, cuidado, paixão." Hahaha!). Falando sério, gostei do trecho que você escreve sobre as noites que "foram preenchidas com outras namoradas, outros interesses, outros xingamentos, outros abandonos, os mesmos erros, outras saudades"... Por que insistimos nos mesmos erros, às vezes? Muito boa a reflexão presente em todo texto.
    Ah, claro... André, você poderia dar um desconto e uam cerveja grátis e, depois da primeira rodada, todos nós poderíamos nos encontrar no seu bar! Fechado? :)
    Um abraço e parabéns aos dois!

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  3. Boa Guilherme! O Quaresma comentou comigo a proposta e voltei aqui só pra reforçar. Taí, André, ao final de cada rodada social no seu bar pra galera se conhecer e conhecer o bar, o que acha? A todos, acessem www.mezabar.com.br . Acho legal que saiamos desses encontros meramente virtuais. Pode até não dar desconto (atitude que tolero, embora indubitavelmente me desagrade), mas pelo menos uns comes por conta. Diz o dia da semana que acha melhor que marcamos ao fim da rodada. Depois acertamos isso por e-mail.

    Sei que pros gaúchos fica difícil, mas agora vcs têm uma desculpa a mais pra vir pra Cidade Maravilhosa.

    Abraços.

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  4. Gostei demais desse conto da Dani. Sempre me emociono com o jeito que ela descreve os sentimentos e as circunstâncias.
    Achei a fotografia do André viva, quente e convidativa.
    Excelente sintonia entre imagem e texto.

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  5. Dani, o texto ficou muito bom! Minha foto ficou pequena para as palavras! Parabéns!
    Para os curiosos, a foto foi feita em Cracóvia, Polônia. É uma praça linda, enorme, mágica!
    O bar está aberto para comemorações! Acho que o melhor dia seria o dia do último post da rodada!
    Abs a todos! andre

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  6. Delicioso esse texto. Preciso confessar que estou apaixonado por Inês. Será que ela ainda está na Itália? Ou será que já retornou ao Baixo Gávea? Inêeeeeeeeesssssss!!!!

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  7. André, belíssima foto!

    Sobre o texto: enquanto essa escritora formidável não publicar um livro contendo e compartilhando o seu talento raro, eu não coloco mais os pés em uma livraria. Ponto.

    Abraços.

    Ricardo Soneto

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  8. Venho aqui manifestar o meu desagrado (rs) pela Dani não ter me divulgado o texto que saiu aqui e por eu ter descoberto por acaso!!! Quase que fico sem esse texto primoroso!!! Nesse dia chuvoso de feriado, um tanto nostálgico como muitas chuvas são, nada melhor que esse belíssimo texto, nostálgico também, e nada melhor do que nostalgias na medida certa para cancerianos incorrigíveis... Linda foto, lindo texto, ambos altamente inspiradores!
    Parabéns!!!

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  9. BLZ!
    muito bom.
    estamos caminhando muito bem.

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  10. Amei o texto!que romance, que vida, que sinceridade e profundidade tanto nas palavras como na imagem. Obrigada por nos dar esse presente!

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  11. andré e dani:
    bom, bom, bom...muito bom!
    perfeito entrosamento texto/imagem!

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