quarta-feira, 8 de abril de 2009

Renascimento

Imagem: Diego Kern Lopes

Em 1181 um terremoto destruiu grande parte da cidade de Spoleto. Entre as vítimas havia uma grávida que morreu soterrada, mas seu bebê não desistiu de vir ao mundo. Nasceu entre os escombros e, como um herói, sobreviveu ligado pelo cordão umbilical à sua mãe inerte. Dias depois foi encontrado e resgatado, porém cresceu totalmente distanciado das pessoas e jamais conseguiu relacionar-se com seres humanos. Não gostava de garotas e tampouco de garotos - sua identificação acontecia apenas com os animais, únicos seres com quem conseguia comunicar-se e estabelecer afeto. O amor de Francisco tinha um sentido profundamente universalista. Ninguém como ele irmanou-se tanto com o universo: irmão do sol, da água, das aves e das plantas, foi também amante dos animais. Um dia assistiu Isolda, sua leoa dourada, parir cinco leõezinhos. Eram felinos da cintura para baixo e bebês humanos da cintura para cima. Seu coração ficou radiante, disparou pela floresta gargalhando e uivando. Infelizmente sua alegria durou pouco, pois os filhotes não resistiram aos conflitos da natureza. Francisco chorou um pranto escandaloso acocorado aos pés de uma árvore e rodeado por bichos. Isolda recuperou-se rapidamente, com a vantagem de sua irracionalidade, e não saiu de perto de Francisco. Esperou que sua tristeza tivesse fim enquanto ele obstinava uma forma de corrigir aquilo que considerava uma injustiça e um equívoco divinos. Havia de conseguir libertar o ser que se debatia em seu interior para abandonar de uma vez por todas os resquícios de civilização que o atormentavam. Deitou-se sobre as folhas secas como um pentagrama, os quatro membros e a cabeça estirados num círculo imaginário, evocando a eternidade, a infinidade, a comunhão com os deuses e a proteção sobrenatural. Ali, como uma estrela estilizada no interior da Lua Cheia, apoiou a pata dianteira de Isolda sobre seu ventre nu e, num movimento certeiro com as unhas curvas e aguçadas dela, fez uma grande fenda em seu próprio ventre. Levantou-se com as vísceras expostas e, como quem despe uma roupa, retirou sua pele e tornou a vesti-la pelo avesso. Isolda instintivamente lambeu o talho até que as extremidades colassem. Uma cicatriz restou como testemunha do renascimento de Francisco. O novo corpo, como um livro de histórias, tem as memórias do tempo, as asas da imaginação, as raízes que alimentam os sonhos e a beleza das rapsódias.

Texto por: Deborah Geller

12 comentários:

  1. Imagem e texto interessantíssimos. A imagem serviu de inspiração a um texto que me lembra Borges, esse clima de mágica e coisa inusitada, essa aura de fantasia e seriedade num mesmo conto, muito bom! Parabéns ao artista e à escritora!

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  2. Uma das melhores "viagens" criadas por uma imagem e um texto :)

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  3. "Puta que pariu". Foi o que saiu da minha boca ao terminar de apreciar a obra. Costumo recorrer a palavrões quando algo me impressiona. Repito o que já disse à Deborah: "trata-se de uma escritora de escol".

    Fiquei curioso sobre a viagem do Diego ao fazer o desenho e qual seria o título da obra original.

    Parabéns aos dois! E a todos nós. Em uma semana já recebemos mais de 1.000 visitas.

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  4. Eu fui mais educado que o Renato, quando vi primeiro a imagem e, depois, o texto. Nao saiu palavrao, na verdade a surpresa nao permitiu que pensasse ou emitisse algum som. Já recuperado de viagem, pronto para sair pela noite atrás das procissoes de Semana Santa (para tirar fotos) e, antes de sair da casa onde estou, enquanto o povo se arrumava, a curiosidade foi maior (curiosidade, sim; ansiedade, nao mais!) e tive que ver a obra conjunta da terceira dupla. Surpreendente. Tres duplas, tres estilos distintos, tres abordagens distintas. Hoje, uma viagem à Fantasia e ao imaginário humano. Diego e Deborah, obrigado por nos brindar com suas canetas!

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  5. Imaginário Católico de santos (Francisco, que amava os animais e Irmão Sol, Batolomeu, esfolamento), referncias italianas (Zefirelli, Da Vinci) criando um Mundo Mítico original a parte. O homem que despe-se de sua própria natureza e veste o sonho.
    Ótima leitura para uma manhã de Sextada Paixão.
    Parabéns.

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  6. deborah, vc abusou...de uma imagem tão bela quanto estranha criou um texto tão belo e estranho quanto, fina sintonia universal e contemporânea.Uma viagem, eu adorei!Parabéns para a dupla, pela ousadia e talento.

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  7. Trata-se de um exercício do "grotesco"; a quimera é a quintessência do grotesco; aí estão o exagero, o baixo material e corporal, o desmenbramento corporal, morte e renascimento e a quimera.

    Sou filho da grotesca autora do conto e fiquei alegre com a sua ousadia.

    Parabéns a todos pelo blog, abraços

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  8. Deborah,
    seu texto, bem como a imagem que o completa e que ele completa, me remetem a muitas referências simbólicas, psíquicas, literárias, ou seja, da existência em si. É um texto de imagens fortes e claras, em que a alma da mão que escreve está presente e nos leva para uma viagem livre das amarras que os modelos conservadores tentam nos impôr.

    Parabéns pela bela ação corajosa de imprimir pelas suas mãos a expressão do oculto em nós!

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  9. Uau, estou boquiaberto com a beleza surrealista da imagem e do texto. Genial. Parabéns aos dois!

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  10. texto e imagem num acordo onírico, fantástico, de uma religiosidade pagã ou um paganismo religioso. ou de um catolicismo animal ou animalesco, franciscano, com a referencia ao mais panteísta dos santos. salve(m) os santos, os irmãos sol e a lua, salve a dupla D, diego e deborah, por este conluio poético de alta voltagem.
    ps. deborah: mantenha esta força criativa para o clube tbm. não vá gastá-la toda...

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  11. Diego e Deborah nos brindaram com um surrealismo maravilhosamente poético. Parabéns aos dois !

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