segunda-feira, 20 de abril de 2009

Sonhos de vidro

Imagem: Fabiano Gummo



Eu não lembro. Quando saímos pela última vez, eu era menino e você uma caricatura. Voaríamos pelos céus cor cinza descascado em busca da ilha onde nós seríamos estranhos. Ninguém nos conheceria e todo dia seria primeira vez. A magia da sedução, a excitação do novo, culminando na manifestação física de nossos desejos. O amor seria o começo e o encerramento de nossas vidas em tempo infinito.

Você não pode vir. Fui sozinho em transformei. Escorri a realidade pelo nariz e assumi meu lado invenção. Agora, não há lógica que explique movimentos ou ações. Há a tremenda sensação de inesperado. Os dias são assustadores, mas estranhamente seguros. Esta realidade, que alguns podem chamar fantasia, não obedece a sentido. Não é o paraíso. Duvido que seja inferno. Pode ser purgatório. Quer saber? Isto não tem a menor importância. Não é a onda daqui.

Certeza é sozinho. Tudo o que é único. Uma viagem sem companhia. De vez em quando, ouço vozes, sussuros. Até conversas. Neste instante, por exemplo:

Oi. Como você tá? Queria ter passado antes, mas não deu. Tou lotada de trabalho... Eu não sei o que dizer! Queria saber por que... e a voz some.

O vento carrega diálogos desse tipo. Uma gentil brisa bate em meu rosto e esfria meu suor. Assim surgem palavras, geralmente de conforto ou futilidades. Mas foi a primeira vez que escutei a voz dela. Na última, eu caminhava, procurando pelo deserto.

De vez em quando, no céu, surge uma enorme luz amarela, como uma explosão nuclear. De ter sido assim Big Bang. Todo dia um novo universo se cria ou fecha. Toda hora, há uma revolução microscópica. Todo minuto, sinto os sinais de que algo ocorre lá fora.

Às vezes, fico enfraquecido e me deito, de olhos fechados, minhas mãos como um confortável travesseiro, o chão minha cama. Meu soro de relaxamento e posso seguir em frente... Talvez eu devesse parar ou ir à direção oposta... A brisa me contou este segredo logo quando cheguei à ilha. Mas para quê? Nunca tive permissão para sonhar. Sempre prazos. Não vou mais acordar, reclamar e lutar. Agora, estou envolto em vidro, protegido e nutrido. Meu sonho é para sempre. Ah...


Texto por: Daniel Russell Ribas

8 comentários:

  1. Lí e Ví. Pensamentos sem formatação, sem rede, sem possibilidade de gravar registros, como devem ser quando se é cronologicamente tão pequeno, ainda sem vergonha do corpo nu e sem noção do antes e do depois. Regressões, digressões, permissões, explosões, perversões, permissões e a trégua nas mãos... como um confortável travesseiro.

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  2. Achei essa imagem tão irresistível que acabei escrevendo um texto em off pra ela. Muito bacana mesmo! E onírica como o texto acima.

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  3. Também achei a imagem incrível! O texto parece fluxo de consciência, escorre, flui...

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  4. Muito bom. Frases incríveis achadas num texto maravilhoso. Parabéns!

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  5. sensacional, ribas, muito bom mesmo. desde o início, simples e enigmático, ao ah! banal do final q, no entanto, coube ali c/ perfeição. e curto, conciso. acho q a oficina do clube está fazendo um bem a todos. parabéns!

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  6. Mandou bem, Ribas! Vc devia aproveitar a produção e continuar produzindo e renovar um pouquinho seu blog, hem?! Tô sentindo falta de novos textos por lá!
    Achei interessantíssima a imagem também!
    Enfim, esse casório periódico de imagem e palavra tá sendo bem legal!

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  7. Muito bom achei as imagens literárias fantásticas, acho que a imagem e o texto conversaram muito bem!! Parabéns.

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  8. ribas, vc sempre me surpreendendo
    e me deixando com a incômoda sensação de fazer parte desse coro de vozes que nunca pode, que está sempre e literalmente atolada.
    muito bom.
    e a imagem pungente do fabiano, excelente!

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