quinta-feira, 23 de abril de 2009

Todas as cores (sauf le jaune)

Imagem: Srta. K.
Não preciso de tanto assim. Apenas saber se é realmente você. Poderia atravessar a rua (desviando das outras bicicletas que deslizam alegres sobre as folhas de outono) e cutucar seu braço esquerdo (aquele com o qual você me segurava enquanto escolhíamos alguma coisa na grasserie).

Olharia para mim sem entender bem (porque, por fora, sou bem diferente agora, não fossem os meus, seus, olhos azuis), crispado em porquês, até que me reconheceria. E de surpreso a sorridente, seu olhar diria que precisou fugir naquela tarde amarela (tão amarela quanto essa), pois os camisas negras o perseguiam e era muito perigoso que permanecesse conosco e havia uma guerilha vermelha da qual deveria participar e era muito perigoso que permanecesse conosco (repetiria) mas que nunca havia esquecido do meu vestido verde embalando no brinquedo do parquinho em frente (apontaria o dedo) mas que seus dias eram toujours cinzas por não ter notícias nossas. Eu acreditaria em qualquer coisa para esquecer aquele dia amarelo (tão amarelo quanto essa tarde). Diria que nunca mais assisti ao Tour de France porque sem você não havia um porquê (mas esconderia que desde aquele dia odeio as bicicletas). E recomeçaríamos de onde paramos. Deixaríamos le vélo na mureta. Atravessaríamos a rua desviando de todos que deslizam alegres sobre as folhas de outono. Você me colocaria no colo com seu braço esquerdo para chegarmos mais rápido na grasserie. Escolheríamos uns doces (os brancos com marrom são os preferidos da mamy), mais très vite, para que chegássemos a tempo em casa e pudéssemos assistir ao Tour de France.

Não preciso de tanto assim. Apenas esquecer aquela tarde amarela.


Texto: Leila de Souza Teixeira

8 comentários:

  1. Que mistura apaixonante! Meninas, vocês estão de parabéns!

    À fotógrafa, há muito sou seu fã e esta foto só demonstra o porquê! Tecnicamente perfeita, mas não fica somente na técnica, tem um toque humano nela. Parabéns de seu fã declarado!

    À escritora, é o seu primeiro texto que leio e muito me alegrou o resultado. A mistura lusoportuguesa muito me agradou e a narrativa, apesar de curta e singela, é cativante. Parabéns também, mas, quando puder, algumas palavras em francês merecem uma revisão. Mas nada que desabone o grande talento demonstrado no texto!

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  2. É belíssimo o outono parisiense que a Vanessa trouxe para nós!
    Leila escreveu um texto comovente sobre a saudade, com repetiçoes tão graciosas (quanto os diversos parenteses visuais), como se fosse um diário, como se pudéssemos acreditar que ela (a personagem) não precisava de tanto assim...

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  3. Bonitas palavras! Obrigada.
    Guilherme, quais palavras precisam de revisão, posso alterar agora mesmo, mas, falo francês fluente, e não estou encontrando erros. Me ajude, já li tantas vezes, que talvez não consiga mais identificar.

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  4. ah, sim sim
    entendi o que está acontencendo, meu word corrige grasserie
    pronto, alterado!!!!

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  5. Que texto poético, que delícia de ler, e que imagem deliciosa também, adorei o jeito pouco convencional da escrita, sem necessariamente aquele início-meio-e-fim que torna tudo meio chato por falta de originalidade. A poesia num texto em prosa é o que torna qualquer texto fantástico! E a poesia de uma imagem, quando enseja um texto em prosa como esse, dá vontade a qualquer um de escrever!!!

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  6. Olha me senti nessa tarde amarela!! que delicia, gostaria de ter conhecido alguma de vocês no nosso encontro!!
    Parabéns!

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  7. Linda foto!
    E o texto tem tudo a ver.

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