quarta-feira, 6 de maio de 2009

Cara ou Coroa

Imagem: Bruno do Amaral


A notícia mais festejada e comentada dos últimos dias é a doação de um carro de bombeiros, restaurado especialmente para San Miguel, uma modesta e interessante cidade de poucos habitantes. Margeada por montanhas nevadas e por uma vegetação de castanheiras e pinheiros, tem cada necessidade básica representada. Há uma igreja, uma escola, uma praça, um bordel, uma fábrica de biscoitos e doces em geral, uma fazenda, uma estação de rádio, um mercado, um bar-restaurante, meia dúzia de lojas e uma via ferroviária linear, que atravessa a cidade de ponta a ponta e faz ligação com as cidades vizinhas. A família Carmeladutra mora numa humilde casinha de um único cômodo. Delimitam com uma cortina, dois ambientes, sendo um o dormitório do casal e o outro pertencente a Juan, com uma cama e suas roupas dobradas sobre uma cadeira. O irmão mais velho mora e trabalha na capital com a avó, onde estão no momento seus pais, passando alguns dias de férias. O garoto fica, portanto, sozinho e feliz da vida com seus recém completados doze anos. Sabe fazer suas abreviadas refeições e está se virando no fogão. Juan toma ciência de que o tal carro de bombeiros já está na cidade. Ele é vidrado neste tipo de viatura, desde bem pequeno. Guarda, inclusive, um único brinquedo, justamente uma miniatura de plástico. Volta da escola, prepara seu macarrão com molho de tomate e come com apetite moderado por pensamentos insistentes. O carro de bombeiros que está se materializando em sua mente é gigantesco, poderoso, infalível e (principalmente!) iminente. São pensamentos distraídos do relógio numa vigília adormecida onde apenas a retina em movimento localiza memórias e conjecturas. Num sobressalto, levanta e coloca a mochila nas costas, acende um fósforo e lança para cima como uma moeda, e dispara pela rua de terra batida mais rápido que a força da gravidade. Quando finalmente pára e olha para trás, vê o casebre flambando, com a elegância de um castelo, e as montanhas nevadas ao fundo. Vão-se em chamas as paredes, a cortina infame e os últimos momentos da infância. Lembra-se de que escapou de lavar a panela suja de macarrão. O carro de bombeiros chega atrasado, porém soberano, atraindo o povo para sua estréia em San Miguel. Esguicha forte e vai minguando as labaredas até que restem apenas as cinzas e o cheiro da rotina carbonizada. Juan compreende que há uma palavra que ele precisa pesquisar. Pega seu dicionário na mochila e procura: “futuro”.

Texto: Deborah Geller

11 comentários:

  1. Uma belíssima imagem e um texto criativo, bem escrito e em consonância com a imagem para abrirmos a segunda rodada com chave de ouro. Parabéns à dupla!

    Obs.: sinto-me na obrigação de informar que o Bruno do Amaral é um farsante, posto que a foto que se vê na coluna da esquerda deste site não corresponde à realidade, já que o indivíduo é uns 20 anos mais novo do que a imagem digitalmente manipulada propõe.

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  2. Alow Deborah! A ambientação do texto condiz 100% com a foto (eu estive lá para conferir isso). A história que se segue e a conclusão do conto são fantásticos! Adorei nossa combinação!

    []'s

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  3. @Renato: Veja aqui a explicação da minha foto http://www.flickr.com/photos/k_rio_k/999880260/

    []'s

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  4. Debora e KarioK(quem não conhece, é o Bruno)
    Criatividade a mil, gostei muito.
    Parabéns

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  5. guilherme preger7 de maio de 2009 17:08

    a foto do menino do cartier-bresson é maravilhosa, ele realmente aprendeu com o mestre. O txt da deborah preserva o misto de fuga e destino do menino. da catástrofe ao futuro. gosto sobretudo dos trilhos em primeiro plano na foto. do txt gosto da panela suja de macarrão e da rotina carbonizada. parabéns a ambos.

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  6. Que tributo maravilhoso às musas da fotografia e da literatura... :)

    A foto é uma vencedora. O nosso "Brunô du Cartier", por modéstia, não contou, mas esta foto ganhou o primeiro lugar de um concurso de fotografia, na sua categoria (P&B). É uma foto de uma beleza ímpar, tirada nos altiplanos peruvianos.

    O texto, ah, o texto... Hoje virei fã da Deborah! Qual criança que nunca brincou com fogo ou fez xixi na cama? :) O título é pura poesia. E o texto, rico de detalhes e figuras em tão poucas palavras! É como se desvendasse aos poucos ao leitor o motivo da correria do menino na foto.

    Excelente dupla, excelente trabalho. Uma verdadeira obra-prima-coletiva.

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  7. Que MARAVILHA!! eu simplesmente amei esse conto!! e que foto...
    Vocês transformaram a imagem e o texto em vida,alma e coração!!
    Que linda a criança que lindo esquecer do futuro!
    Meus parabéns!!

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  8. Todo menino é um rei, já dizia o poeta.

    Parabéns aos dois!

    A foto dá uma certa aflição; a gente tem vontade de correr junto.

    Também gostei da "rotina carbonizada"...

    Belíssimo!

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  9. Queridos, fiquei feliz com os comentários!

    Bruno, amei a foto! É linda a estética de paralelos, com os trilhos e o menino sugerindo movimento e direção. Um prato cheio para se inventar histórias, eu acho, e eu viajei!

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  10. bruno e deborah: parabéns!
    a foto, belíssima e altamente expresiva; o texto, criativo e sensível como todos da deborah.
    parabéns tb ao site; DE LUXE total!
    carmen molinari

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  11. Eu ainda não tinha lido este texto e fiquei fascinado! Parabéns a ambos!

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