segunda-feira, 25 de maio de 2009

A Noiva Gaivota (conto popular)

Imagem: Rudy Trindade


Havia uma comunidade de pescadores muito próspera. O local era de difícil acesso, pois era cercado por mata densa com terreno íngreme. Além disso, era envolvida por duas enormes formações rochosas gêmeas que saíam do mar, cada uma de um lado, deixando apenas um estreito para a passagem das águas, como uma ferradura com as duas pontas próximas.
Esta proteção os isolava do mundo, mas, ao mesmo tempo, lhes dava o necessário para a sobrevivência. Os peixes, fugindo de tubarões que infestavam o outro lado da muralha, entravam pela passagem, espaçosa para eles, mas apertada para os predadores. Assim, alimento não faltava. O tamanho das pedras impedia parcialmente a entrada do sol em suas horas declinantes, fornecendo sombra. Isso, combinado com a maresia, tornava os momentos finais do dia muito agradáveis. No pôr do sol, todos se reuniam no centro da praia e assistiam ao mergulho da claridade.
Como nada lhes faltava, a convivência era pacífica. Neste mundo, não havia quase nada que o outro não tivesse ou desejasse. Só mesmo a filha mais nova do membro mais velho da comunidade. Ela não tinha nome (afinal, nenhum deles sabia o que era um nome ou sua utilidade!), mas sua beleza era única. Mesmo que todas as mulheres da vila também fossem bonitas, ela se destacava.
Para muitos, ela era a encarnação da deusa do Sol e sua presença trazia o melhor de tudo e todos. Todos a reverenciavam e ela rezava todos os dias na praia à sua padroeira, agradecendo. O que ninguém sabia era que a deusa Sol respondia. A entidade celestial dizia que ela era sua filha favorita e que a protegeria enquanto estivesse de vigília. A jovem sorria, pois, como filha da natureza, não sofreria nenhum mal.
Ela era noiva de um jovem pescador, seu primo. Neste lugar, embora não se conhecesse a palavra noivado, mantinham o costume de cortejo seguido pela decisão, culminando na integração entre corpos e corações. Esta união se realizaria dentro de pouco tempo, quando a deusa do Sol estivesse mais forte, de modo que a abençoá-los.
Antes que isso pudesse ocorrer, algo ocorreu. Numa manhã, quando ela foi rezar na praia, sua padroeira perdeu as forças. A princípio, parecia dormir, mas, então, começou a sangrar. Ela tremeu de medo e foi atrás de seu pai, chorando. Eles se abraçaram e o velho afirmou que ela deveria procurar seu noivo. Entretanto, este já havia partido para a pescaria. Ele sempre saía ao mar quando sua noiva rezava, pois creditava a integração entre a garota e a divindade como a principal razão de sempre encher seu barco de fortunas do mar.
Ela voltou para praia. A comunidade estava dominada pelas trevas e a padroeira agonizava no céu. Trêmula e molhada pelas lágrimas no corpo inteiro, tentou falar com a deusa, mas nenhuma resposta obteve. Neste momento, em que Sol estava fraca e cega, surgiram, de dentro da mata, seres que pareciam com eles, mas tinham pelos no rosto, couro pelo corpo e um cheiro insuportável.
Segurando bambus que cuspiam fogo e objetos cortantes, eles derrubaram as casas, mataram os homens e aprisionaram as crianças. As mulheres jovens, desde as que não tinham seu corpo formado até as prometidas e mães de famílias, violentadas pelos invasores.
Apesar do horror congelante em seus ossos, ela correu em direção ao uma trilha que ligava a mata à pedra do mar e lá se escondeu. Num momento, viu o barco de seu noivo se aproximar da praia. Um dos invasores apontou o estranho pedaço de madeira, que cuspiu fogo. Assim como sua padroeira, o peito do jovem pescador exalou sangue e este caiu n’água. Ela não se conteve e gritou o mais alto que pôde. O invasor olhou em sua direção e a viu. Ele se pôs a correr atrás dela e ela dele.
Após alguma dificuldade, ela alcança o topo da pedra. Ela vai até a ponta e olha para baixo. Lá, apenas o mar e pássaros que ela nunca tinha visto antes. O invasor a alcança e tira uma cabeça prateada que protegia sua cabeça de animal. Ele é mais rápido e a agarra e a joga com força na pedra. Ela pega a cabeça prateada e bate nele, mas ele se torna mais agressivo e a pega pelos cabelos, sua cabeça batendo na pedra, batendo na pedra, batendo na pedra, imagens turvas e vermelhas e pretas. Ela sente uma dor tremenda, inédita e terrível e o invasor perde as feições de homem, virando animal de vez.
A deusa Sol, após convalescer, retorna, forte. A cabeça prateada brilha tão forte quando a divindade e o bicho grita, ferido. Durante o urro bestial, ela pede para que sua padroeira a deixe ver seu noivo mais uma vez. A jovem fecha os olhos após o pedido e dorme.
(Neste momento, a história pede licença e o mito assume de vez.)
Entristecida por não ter podido ajudar sua filha enquanto ela era vítima da maior das violências, decide conceder o pedido. Como não pode mudar o destino dos vivos e dos mortos, fazendo-os reviverem após seu tempo na terra, transforma-a num pássaro. A divindade a fez uma criatura em eterna busca, que se alimenta na área onde seu grande amor caiu, na esperança de, num dia, revê-lo e eles serem um para sempre.

Texto por: Daniel Russell Ribas

7 comentários:

  1. Que conto elaborado, Ribas! Espantoso e muito criativo com esse desfecho mágico romântico. Adorei todas as passagens e fui imaginando as lindas paisagens que foram tão bem descritas.
    Rudy, a foto parece ter pego a ave fazendo a curva, o que considero como uma perspectiva original muito bonita de se ver e rever.
    O conjunto ficou maravilhoso!

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  2. Rudy, como sempre, espetacular! :) Sem comentários, né? A gaivota está linda!

    Ribas, foi bonita a transformação, ao final, da realidade histórica em um belo mito da gaivota. Estava com medo, no meio do texto, de que ele se tornasse roteiro de filme de Mel Gibson, mas o final proposto foi uma boa virada de cena. Só uma coisa que me perturbou ao terminar de ler o texto e, após, olhar a foto: você se refere a uma cena no século XVI e, quando se termina o texto e se fita novamente o olhar na foto, se depara com uma lancha do século XX! :) Mas, deixemos pra lá! Joga pra licença poética que ela tudo resolve! ;))

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  3. Eu não acho que apelar para a licença poética seja necessário. Folclore é atemporal e seu texto é construído dessa forma. Mesmo quando há referência a uma determinada época, não há informações suficientes para prender o texto ao momento histórico ou local. O texto foi construído com esta intenção. Trata-se somente de índios e exploradores/bandeirantes? Pode ser, pode não ser. Não há informações suficientes, apenas suposições. Pode-se, inclusive, argumentar que a trama não se passa sequer neste planeta. Quanto à lancha, a última frase se refere à gaivota "em eterna busca". Ela pode continuar sua trajetória em outro período ou até pode ser o mesmo. Repetindo, o texto em nenhum instante coloca data ou local. Preste atenção na palavra "história" escrita em minúsculo. Espero ter ajudado. Tudo de bom, DRR

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  4. Só com a explicação do Guilherme compreendi que se tratava da invasão da América pelos europeus. Genial!

    E a gaivota em pleno vôo (gramática antiga sempre!) com um zoom desse deve ter sido dificílimo.

    Parabéns a ambos!

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  5. Daniel
    Muito, muito, muito obrigado, um texto acima da altura da gaivota, maravilha. Parabéns.
    abraços

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  6. guilherme preger1 de junho de 2009 10:41

    valeu ribas, bela fábula inventiva, com sabor mitológico e popular.
    agora, a foto é realmente fantástica com a gaivota fazendo sua curva no extremo lateral da foto, enquanto fora do foco, mas central, está a lancha à frente do vôo.
    Aliás, a lancha não é realmente um problema, pois podemos imaginar q a alma da moça foi migrando de gaivota em gaivota até os dias de hj...

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  7. Irmão, me surpreendeu esta sua incursão por uma literatura mais "mística". O simbolismo da gaivota me emocionou bastante.

    Abraços,

    Vinícius Faustini

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