segunda-feira, 11 de maio de 2009

Nova Física

Imagem: Diego Kern Lopes


Nos colocamos em metadimensão, onde não havia tempo nem espaço. Nossos corpos entrelaçaram-se por um período infinito. Nossas vísceras se esbarraram, depois se tocaram, se prensaram e eram como que empurradas umas contra as outras pela força de Eros, até que se amalgamaram. Fora da física, viajamos pelo Cosmo. Minha mão, em êxtase, deixou sua marca na lua. Nosso deleite era tal que arregalou os olhos de Deus, pois, plenos, havíamos ultrapassado o limite de prazer que Ele permitira à existência humana. Deixamos o Divino confuso ao rompermos as regras da natureza, colocando o universo em paradoxo e tudo começou a refazer-se. Astros derreteram, céus mudaram de cor, satélites tornaram-se supernovas e estrelas viraram um novo tipo de astro. Asteróides se tornaram aconchego para nosso corpo (nós dois nos tornamos apenas um), nebulosas se redesenharam, o tempo morreu e os seres vivos tornaram-se eternos.



Tendo nos fundido e estabelecido nova ordem para o tudo e o nada nos tornamos um, o Novo Criador. Enciumado, o então Todo Poderoso quis Me derrubar, mas a ordem que se estabelecera era Minha e apenas Eu poderia alterá-la, a menos que alguém achasse uma brecha na Nova Física, como fizemos (na época Eu era dois) com a antiga. Deus, então, deixo de sê-Lo, dando lugar a dois corpos tornados num só. Perdendo a onipotência, ele tornou-se Adão e Eva, já que no tempo em que ainda era Ele confundia-se com o todo, logo o masculino e o feminino. E transformou-se também em bala, revolver, canhão, ódio, ciúme e tudo que há de não-divino. E foi esparramando-se pelo mundo, mas como perdera a divindade, à medida que se espalhava secava o planeta de magia. Os rituais dos xamãs não produziam mais efeito, a poesia não encantava, a música pereceu, os pajés tornaram-se incapazes de curar... E tudo foi se desencantando até que, por fim, a noite acabou e, com ela, tudo que restava de misterioso. A humanidade, desesperada, corre em busca da noite. A terá de volta tão logo viva a experiência pura, isto é, plena, reencontrando o divino, a metade noturna por eras desprezada.


Texto por: Renato Amado


5 comentários:

  1. Diego, as suaves linhas curvas do teu desenho me fascinam, tão cheias de surpresas e segredos.
    Renato, vc traduziu com intensidade e riqueza um encontro imaginário sem limites.
    O amor ideal pertence à arte, a experiência pura que deixa marcas na lua.

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  2. Agora, sim... :) Tudo editado, bem mais bonito! ;)

    Diego, esta imagem nos remeta ao imaginário dos gênios, como Pablo Picaso. A mistura do humano e do metafísica, onde nos é capaz de encontrar humanidade nas vísceras animais (ou será um pouco de instinto natural em vísceras humanas?).

    Renato conseguiu bem realizar esse feito, o que falar do Amor que desafia tudo, inclusive a Física e a Metafísica, sem medo de culpa ou de castigo.

    Boa obra coletiva. Absurdamente criativa. Mas tenho certeza que a próxima a ser postada, na quinta, será ainda melhor! Hahahahahaha! ;))))

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  3. O amor como pano de fundo para uma viagem mística, de comunhão total. Ou vice-versa, sei lá rs. O fato é que o texto e a imagem estão fantásticos. Parabéns aos dois.

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  4. Nossa,do êxtase à destruição!! Achei que a dupla foi de uma profundidade única!! me senti envolvida nessa loucura de sexo em forma de oração e de transformação e Ele em forma de Destruição.Muito bom!Parabéns

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  5. Renato,
    Achei lindo e muito poético o texto.Adorei vc ter usado a expressão metade noturna.E isso não dá pra prescindir do Mistério.
    Muitos beijos,
    Lisa

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