sexta-feira, 12 de junho de 2009

Busca pela Felicidade

Tendemos à infelicidade exatamente porque a vida é uma busca pela felicidade. Primeiramente, devemos considerar que se há uma busca é porque há uma meta não atingida. Segundamente, convenhamos, é um procura que demanda muito esforço, é deveras cansativa. Só esse esforço já é suficiente para gerar infelicidade. Ora, se dedicar a uma meta a vida inteira é algo desgastante. E esta palavra combina com infelicidade.
Sendo psiquiatra já me automediquei inúmeras vezes. Escolha qualquer letra do alfabeto que lhe direi um antidepressivo ou ansiolítico que já consumi. Essas substâncias sempre me ajudaram a reduzir a infelicidade, mas jamais me aproximaram da meta. O afastamento do oposto do objetivo não aproxima deste, mas apenas gera uma ilusão de avanço. Se algum avanço há é o equivalente ao do velocista que ao invés de queimar a largada caminha para a reta final com o joelho torcido. De qualquer forma a derrota é inexorável. Mas o alívio que as tarjas pretas proporcionam é inegável, o que me fez ser sempre um fã da alopatia.
Entretanto, na data do meu sexagésimo aniversário, pensei: que merda. Coloquei em xeque a medicina tradicional. A vida inteira só serviu como um paliativo. Comecei, então, a me interessar por tratamentos alternativos. Não apenas no que tange aos cuidados à mente, mas também ao corpo, pois havia me desencantado com a alopatia de forma geral. Levei, portanto, picada de abelha, retirei sangue da minha veia para reinjetá-lo no meu músculo, entrei em caixa de madeira, algodão e Bombril para equilibrar minhas energias e prevenir câncer... enfim, um variedade de tratamentos singulares. Em alguns obtive retorno positivo. Outros, entretanto, foram decepcionantes. E continuo experimentando. Todavia, a busca pela alegria não finda e sempre mantive a esperança no elixir da felicidade. Eis que nas minhas pesquisas sobre medicina complementar me deparei com a seguinte história.
Na década de vinte esteve no Rio de Janeiro um cirurgião francês, de origem russa, chamado Voronoff. Tratava-se de respeitado médico, que ampliou sua fama ao adotar nova e promissora técnica para manutenção da juventude e até rejuvenescimento: a retirada de glândulas sexuais de símios para a sua inserção no organismo humano. O referido doutor acreditava que a velhice e a decrepitude eram conseqüências do mau funcionamento das glândulas sexuais e a colocação no organismo de uma glândula jovem seria um elixir da juventude. Há convincentes relatos da época de que a operação trazia os efeitos esperados. Ora, pensei, se é possível extrair o elixir da juventude de um animal, por que não podemos fazer o mesmo com o da felicidade?
Não houve meio dos biólogos me convencerem de que se tratava de um mero traço anatômico. Os golfinhos mantêm sim um sorriso constante. Tenho sérias dúvidas de tratar-se de um mero formato do focinho. E caso se trate devo informar que durante o meu processo de rejeição da alopatia também rompi com Darwin e aproximei-me da tese do "porquê" e do "para quê". Convenhamos, parece inconcebível que mutações aleatórias tenham gerado seres tão evoluídos e funcionais como os mamíferos, as aves e até algumas plantas e insetos. Salvo o apêndice, tudo na natureza tem uma utilidade. O darwinismo vai contra a intuição. A reação de qualquer pessoa ao ver um animal ou planta com alguma característica curiosa é indagar: "para quê serve isso?". Ora, e ainda querem que eu engula Darwin! Se as mutações são aleatórias e a teoria da seleção natural está correta como pode praticamente não haver coisas inúteis nos seres vivos, coisas que não atrapalhariam a sobrevivência da espécie, mas que seriam simplesmente inúteis? Como pode existir tamanha funcionalidade em mutações que seguem o mero acaso? Não parece razoável. Creio, portanto, que as alterações genéticas são conseqüência de esforços repetitivos feitos por incontáveis gerações. De tanto os camaleões buscarem se camuflar em diversos tipos de terreno desenvolveram a capacidade de alterar sua pele de acordo com o ambiente. De tanto as girafas esticarem seus pescoços para alcançar as copas das árvores suas cabeças foram se distanciando do corpo, numa espécie de memória genética funcional. De tanto os golfinhos rirem de alegria seus focinhos tomaram a forma de um sorriso. Basta ver como eles nadam suaves, seguem lanchas por brincadeira, para sabermos que são felizes. E de onde deriva tamanha felicidade?
Após pesquisar um pouco descobri que os golfinhos possuem uma misteriosa camada de gordura acima do maxilar chamada, curiosamente, de melão, que serve para focar seu ultra-som. Entretanto, não seria necessária tão extensa camada de gordura para focar o ultra-som, me garantiram físicos. Seguindo a tese do "para quê" passei a investigar esta curiosa parte do organismo destes cetáceos. Após meses de pesquisa fiz uma descoberta revolucionária: espalhada e esticada microscopicamente pelo melão existe uma glândula que produz uma quantidade elevadíssima de endossuperoxina, uma substância até então desconhecida na natureza, que possui características bem semelhantes à endorfina, mas supera-a com folga em potência, gerando extrema felicidade. Elaborei, então, uma tese, submeti-a à academia e obtive autorização para operar o primeiro voluntário.
Chegou à minha clínica um rapaz deprimido. Dizia que era incompreendido pela família por ser homossexual e que isso lhe trazia extrema infelicidade. Como não gosto de veado queria mais que ele ficasse cada vez mais e mais triste para ver se parava de pederastia e virava homem. Mandei-o para casa. Isso atrasou dois meses o início da experiência, mas há valores éticos que são insuperáveis.
A segunda pessoa a se prontificar foi um padre. Disse-lhe que ele não precisava de glândula de golfinho, mas de contato com um órgão feminino para ser feliz. Foi embora dizendo que me esconjurava e rezando Padres Nossos. Um babaca. Mais cinco meses de atraso...
Finalmente surgiu uma pessoa normal: uma mulher deprimida sem razão alguma. Suas palavras eram uma translação infindável. Era incapaz de apontar um ponto relevante como motivo de sua infelicidade, ou seja, era o estereotipo das pessoas que freqüentam minha clínica psiquiátrica. Enfim, surgira a perfeita cobaia.
Realizei a cirurgia, nitidamente a contragosto do animal. Tão logo a paciente retomou a consciência fui ter com ela. Enquanto fazia-lhe perguntas de praxe para verificar seu estado psíquico reparei um movimento sob o lençol da cama, na altura do baixo ventre, acompanhado por contrações em sua fisionomia. Convoquei outros médicos e a junta afirmou uníssona: nunca se havia visto uma paciente se masturbar no leito pós-operatório. Intrigado por aquele comportamento passei a entrevistar com mais freqüência a cobaia, que costumava ter vários orgasmos durante a sessão e ria, gargalhava constantemente. Concluí que havia me equivocado acerca das propriedades da endossuperaxina, sobretudo após um pouco mais de estudo, que me permitiu verificar que os cetáceos em questão possuem uma vida sexual extremamente ativa. Passei, então, a receitar Viagra e Tesão de Vaca aos meus pacientes e a mim mesmo. Os elixires da felicidade já estavam à venda no mercado.

Por Renato Amado


Imagem: Bruno do Amaral, inspirada no texto.

16 comentários:

  1. Uahaha. Muito boa a imagem. Genial esse pimentão como golfinho. E outras coisas também pode-se ler dele... Fiquei curioso quanto à montagem da foto. Está muito boa.

    Acho que "busca" é o tema espontâneo desta rodada. ...rsrs...

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  2. Na verdade o "pimentão" é uma pimenta dedo-de-moça :)
    O "set" da foto está aqui e aqui

    Eu até cheguei a fazer uma montagem (veja aqui), mas como sou meio purista preferi ficar com a versão mais tradicional ;)

    []'s

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  3. O texto do Renato mostra o fôlego e a imaginação engenhosa do romancista de fato.
    E a foto do Bruno é uma graça: singela, repousante e leve, com sua impressão brincalhona da felicidade.

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  4. Texto e foto bem legais!! Parabéns

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  5. Hahahahaha!!! Adorei o set improvisado na mesa de casa! :D Muito bom, Bruno! E o "golfinho-dedo-de-moça" tem tudo a ver com o final do texto!

    Renato, seu doente! Hahahaha! Esse texto é um dos que me fazem mais rir e mais ter medo desta tua mente! Pura maldade entregá-lo a um fotógrafo! O Bruno está de parabéns pela forma de transformar o texto em imagem!

    Aliás, eu gostei da montagem, estava muito boa!

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  6. Vlw Mr. Quaresma! Eu tava até pensando em classificar a "foto" como "arte plástica" :)

    []'s

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  7. Bruno, gostei muuuito de ver os bastidores!

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  8. Um texto HOMOFÓBICO em 2009? Repleto de “letras” garrafais e suásticas no lugar das serifas. Quando nos imaginamos felizes num espaço de vanguarda com este, teremos que voltar a discutir todas as diferenças?

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  9. Estava mudo até agora pensando justamente como abordar este tema, já que faço parte da minoria referida. Só nós, integrantes de "minorias" sabemos como dói, rir de piadas a nosso respeito, negros, judeus, gays, louras e etc...No texto o personagem nega a felicidade ao gay por não achá-lo merecedor, talves esteja aí a piada, já que o personagem mostra-se tão anti-ético desde o início. Negar ao gay a felicidade pois ele não se "conserta" e justamente o personagem principal achar que existem valores éticos que são insuperáveis, faz-nos rir pela contradição. A piada fica pior ainda ao se descobrir que a felicidade é justamente fazer sexo em quantidade.Coisa que deve ser negada aos gays e aos padres? Devo deixar gravado que acho que esta opinião é do personagem e não do autor, porém se pudermos pensar melhor antes de escrever qq coisa, talves tivéssemos mais sucesso, visto que suprimir estes exemplos de não merecedores da felicidade não fariam a menor falta ao texto, no mais vamos pensar nos outros rapaziada. Abraços

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  10. Interessante como o preconceito se vê até na defesa das personagens... Levantou-se a voz em defesa da personagem homossexual, mas ninguém veio em defesa da personagem sacerdote! :D Por que temos a ideia que o homossexual não pode se autodefender, e o padre, sim? ;)

    Neste aspecto, com um protagonista altamente preconceituoso, o texto nos faz refletir os nossos próprios preconceitos. Respeitando os princípios individuais (no caso, os votos sacerdotais do padre), podemos julgar a moça mais "hábil" ou "merecedora" da cirurgia pela felicidade do que o homossexual? Neste ponto, parabéns ao Renato ao gerar essa discussão no texto (por mais que eu ache que o médico esteja certo... Hahahahaha! Brincadeira!)

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  11. "...fazer sexo em quantidade.Coisa que deve ser negada aos gays e aos padres? Devo deixar gravado que acho que esta opinião é do personagem..."

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  12. A foto, com seus bastidores, é uma das coisas mais criativas que já vi, completamente contextualizada.

    Quanto ao texto, já o conhecia, e acho excelente. Acho que não podemos correr o risco de, em nome de uma (razoável ?)exigência de que todos os personagens sejam politicamente corretos, realizar uma espécie de censura.

    Personagens escrotos abundam em textos maravilhosos, o (saudável) cinismo do autor muitas vezes não é captado ou compreendido ...

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  13. O texto do Renato está muito bom e o bruno é um fotógrafo com uma criatividade acima da média, sensacional a ideia do golfinho-pimenta.

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  14. Venho acompanhando os comentários desde sábado e devo dizer que concordo completamente com o André. Os personagens têm suas próprias vidas, opiniões, seu próprio caráter e isso que dá brilho ao texto (que no caso eu considero genial - junto à imagem então...)

    Que venham mais personagens escrotos, homossexuais homófobos, virgens falsas, políticos honestos, duendes, e papais noéis. O espaço é livre e cada um é responsável pelo que posta.

    P.S.1: O que, inclusive, serve a quem comenta. O espaço é livre e cada um comenta o que quer, naturalmente.

    P.S.2: Quanto à montagem da foto...
    Genial. Me faz ver o quanto de dedicação que um texto doentio como o do Renato exige de um artista. Enquanto isso eu fico só no desenhinho...

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  15. Bruno,

    muito legal as imagens do seting. Demonstra seu apuro, seu capricho, sua dedicação e seu senso estético. A montagem também ficou espetacular.

    Quanto às colocações de que o texto seria homofóbico, o Calazans foi perfeito. Se o caráter dos personagens se confundisse com os do autor eu teria medo do Calazans... hahahaha. Gente, pelo amor de Deus, podar do escritor a liberdade de escrever textos com personagens de todo tipo é uma limitação gigantesca da liberdade literária. No dia em que os textos forem todos compostos por personagens politicamente corretos literatura se tornará uma das coisas mais chatas do mundo.

    Xará, não sou nem um pouco homofóbico, inclusive tenho grandes amigos gays. Mas literatura não é uma cartilha do politacamente correto. Quem conhece minha pequena obra sabe que sacaneio todo mundo mesmo. Aliás, nesse texto, será que os homossexuais foram sacaneados ou o próprio personagem-narrador, que não parece uma pessoa lá muito normal ou sensata (a opinião de um cidadão que tomou picada de abelha e fica transferindo glândula de golfinho pra ser humano, além de buscar a felicidade de forma doentia e por isso mesmo não alcançá-la parece ser digna de respeito?)? Mas enfim, em textos pretéritos já sacaneei católicos, evangélicos, budistas, gaúchos, cariocas, hippies... Alguns, grupos dos quais faço parte. Se vc quiser, escrevo em sua homengem um texto no qual o protagonista é heterofóbico. Olha, meu e-mail está no meu blog. Pegue lá, me mande um e-mail, que mando o texto pro seu e-mail.

    Vamos nos divertir um pouco, pessoal, e deixar para levantarmos bandeiras nos momentos certos. Se os personagens politicamente incorretos forem banidos da literatura eu saio dela também, pois vai ficar chatíssima. E, se eles forem banidos, por favor, queimem Clarisse Lispector, Nabukov (meu Deus, esse homem devia ser preso! Lolita é um incentivo à pedofilia!), Bukowski (cana nesse também!), Nelson Rodrigues, Dostoiévski... Bom, pensando bem, queimem todos os autores, pois não consigo lembrar alguém que tenha escrito alguma coisa boa na qual todos os personagens são santos politicamente corretos.

    Sorriam!

    Um beijo para todos!

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  16. Renato,
    Concordo com vc,o políticamente correto acaba virando patrulhamento ideológico,o que não é nenhum pouco correto.
    Aliás, quem é ridicularizado é o personagem narrador que é homofóbico.
    Adorei o texto e a imagem.
    Muito criativo e divertido.
    Parabéns a ambos e um beijo especial pra você.

    Lisa

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