quinta-feira, 25 de junho de 2009

Diálogo


Depois do Chá no Marcelino Freire.

Essa esfirra é a melhor. Viram a história do cara que matou a primeira mulher, saiu da prisão, casou e matou a segunda. De que é essa? Queijo. Matou a primeira e depois a segunda? Hum, delícia. Sim. Ah, não, eu quero a de carne. É um louva-a-deus ao contrário. A de carne tá aqui. Passa. Louva-a-Deus ao contrário é ótimo. Eu odeio inseto. Alcança o húmus. A casa da vózinha tá infestada de cupim. Mas quem é que casa com um cara que foi preso por matar a própria esposa? Eu tinha visto cupim na porta de entrada. Experimenta o quibe. Ah, vai ver que ela nem sabia de nada. Só gosto de esfirra. Tem que dedetizar, então. Como a pessoa casa sem saber do passado do noivo? Experimenta, vai. Mas agora infestou tudo, parece. Ele é um criminoso, pode ter mentido pra ela. Eu só gosto de esfirra. E como que uma família deixa casar sem saber quem é o noivo, o que fez, o que faz.? Tudo tudo? Você nunca experimentou, como pode não gostar? Ai, gente, vai ver que o cara foi morar em outra cidade, que mentiu pra todo mundo, sei lá. Tudo. Deixa ele, se não quer comer, não quer. Tem que ligar para um dedetizadora rápido, então, né? É, pode ser, gente má sabe mentir. Não sabe o que tá perdendo. A tia já ligou, parece. É sabe mentir. Me deixa. Pobre vózinha, deve estar triste. E matou por quê? Dá pra vocês dois pararem? Dedetização adianta para cupim? Imagina matar a própria mulher. O húmus já acabou. Acho que mata qualquer inseto. Imagina matar qualquer pessoa, né? Pede mais para o garçom. Odeio inseto. E matou por quê? Acabou o húmus? Eu tenho alergia a picada de formiga. Por isso não leio jornal. Acabou. Eu a de aranha. É, só passa este tipo de notícia. Ah, eu queria um pouco de húmus. E eu a de cobra. Passa porque as pessoas gostam. Chame o garçom aí, então. Cobra não é inseto. Que pessoas gostam? Já experimentou este azeite de oliva aqui? É, quem gosta? Ela tá debochando de você, burro. Não acredito que não vai comer nem um quibe. Vocês mesmo, ora, estão falando em crimes desde que o almoço começou. Debochando por quê? É surda? eu só gosto de esfirra. Mas eu ouvi falar, não li em lugar nenhum. Porque qualquer um tem alergia à aranha, burro. O húmus, quem queria? Mas o sensacionalismo é um horror mesmo. Dá pra vocês três pararem? Eu, passa pra mim. Tem jornal que, se você torcer, pinga sangue. Quem disse que qualquer um tem alergia à aranha? Esse azeite é bom mesmo. E a TV só sangue também. É importado. Vai ter campanha de doação de sangue na faculdade. Eles brigam o tempo inteiro desse jeito sempre? Não, acho que é nacional. Que legal, você vai doar? Não, só durante as refeições. É importado, sim, tá escrito aqui ó. Não sei se eu posso, tem uma lista de coisas pra poder doar. Ei, eu queria húmus. Que bom que você leva tudo no bom humor, né? Uns requisitos? Já acabou? Antes eu me estressava, mas como toda refeição juntos é assim. Acabou de novo o húmus? Sim, uns requisitos. É normal da idade também, né? É que eles trazem tão pouquinho. Mas é muito legal, é um modo de ajudar os outros, né? É o que dizem, normal da idade, mas não passa nunca esta idade. Só o que faltava um árabe economizar no húmus. Às vezes a gente quer ajudar os outros e não sabe como. O que seria de um árabe sem húmus. Que bom que eles fizeram isso na faculdade. Peçam mais, então. Foi iniciativa dos alunos mesmo. Que bonito. Garçom? Eu doei uma vez quando era mais novo. Pede já duas porções de uma vez. Eu lembro, logo que você se formou, né? É, ganhei um dia de folga e lanchinho. Era bom o lanchinho? Não tanto quanto o quibe que você não comeu. Nossa, mas ela não pára nunca com essa história. Ah, deveria ser um suco e um sanduíche. Mas é bom esse restaurante mesmo, hein? Eu vi lá na faculdade, é suco de laranja, sanduíche e banana. É, falamos para você que valia a pena vir. Passa o quibe cru. A sobremesa é sensacional. Tem que ir ao hospital para doar? Mas o melhor é aquela bebidinha que eles servem depois. Põe hortelã em cima que fica uma delícia. Como se chama mesmo. Hortelã na bebidinha? Não, no quibe cru. Não lembro. É feita com araque. De araque é essa porção de húmus que já acabou de novo. Como é o nome da bebidinha mesmo? Odeio quibe cru. A de araque? Sim. Você odeia tudo que não seja esfirra. É Sherazade.

Texto por Leila de Souza Teixeira


Imagem: Maria Matina, inspirada no texto.

6 comentários:

  1. Gente gostei muito de desenvolver esse trabalho! achei que essa rodada invertida é muito legal!!Espero que vocês gostem do resultado!!

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  2. Isso aqui é bom demais! Que mix bacana entre texto e imagem. Adorei!

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  3. Leila e Matina, ambas estão divinas, espetaculares nesse post.
    Maravilhoso!!!!!!!!!!!!!

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  4. Muito bom o texto, muito criativo. E a imagem conseguiu captar todas as sensações sugeridas pelo texto. Perfeito.

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  5. esta dupla casou perfeita. um conto polifônico, não um diálogo, mas vários, ou um diálogo entrecruzado com outros. a imagem, por sua vez, tbm "polifônica", se é possível isto, ou polimagética, sei lá. Parabéns a leila e a matina, vertiginosas...

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  6. Preger tem toda a razão. A melhor palavra é polifônico! O engraçado é que, ao se começar a ler (o texto e a imagem), não há como parar, uma ideia segue puxando a outra (em ambas), fazendo com que você também participe daquela mesa, como se você também quisesse um pouco de húmus e, ao mesmo tempo, prestar atenção a todas as conversas! :D Parabéns, meninas, ótima obra conjunta!

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