segunda-feira, 29 de junho de 2009

diário

Sabe, eu me pergunto “como você está?” Assim mesmo, pois minhas especulações não me são mais confiáveis. Tudo que suponho ou espero se revela outra coisa quando confrontado por fatos. Ainda, não vejo como triunfo da razão, mas que as redes invisíveis do acaso são intricadas demais para minha cabeça. É uma mistura de cheiros em que, por um instante, um predomina e você acha ”é isso!” só para perceber tarde que estava enganado... Falo demais, não é? mesmo quando escrevo, terreno em que sempre defendi uma linguagem prática e objetiva. Meus dias são calmos. Estudo, como, vejo TV, às vezes um livro por lazer e é isso. Continuo fumando. Apaguei um agora. Pedi demissão e vivo de uma bolsa de estudos em São Paulo. Histórias em quadrinhos, acredita? Ganho para ficar estudando. Uma generosa mesada, admito, especialmente porque raramente saio. Por isso, não fui no seu aniversário. Recebi o convite. Agradeço a gentileza. Mas não podia ir. Espero que me perdoe. Não poderia.De vez em quando, me pego pensando na festa. Não apenas nos detalhes escabrosos, mas na deliciosa suavidade que antecedeu aos fatos. Agora, vejo como a brisa que anuncia a tempestade, o vento que bate enquanto nuvens pretas se acumulam no céu. Pelo o que me lembro, era uma noite estrelada. Pude ver pela janela do apartamento, perdido em meu mundo. Aí, você veio. Estava escuro, mas lembro que podia ver seu rosto em detalhes. A pele branca, o nariz ligeiramente adunco, algo meio árabe/português, os óculos de armação vermelha e o cabelo castanho alourado liso, cortado até o ombro, com uma franjinha teimosa. Achei você bonita. O papo fluía bem. Eu estava meio tonto de cachaça e você também. Resmunguei que poderia haver uma cerveja e você riu. Uma festa só de cachaça; nunca tinha ido em algo assim e nem fui de novo. Acho que fosse convidado de novo, não iria de qualquer jeito. Achava tudo engraçado e estava relaxado. Você é cúmplice nisso. De uma certa forma, todos fomos... Voltando ao assunto, me sentia bem ao seu lado. Uma boa conversa com alguém interessante e, de repente, não há mais problemas. Fiquei neste estado de êxtase por um tempo que me pareceu infinito.



Foi aí que ouvimos os gritos...



texto por: Daniel Russell Ribas


Imagem: Srta k.

4 comentários:

  1. O texto é sensível, sincero e aberto a mil interpretações. A belíssima imagem, apesar de simétrica, não se apresenta mais explícita ou segura. Fico a especular o que teria acontecido - antes, durante e depois - com o casal ... Adorei !

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  2. Também tive a mesma impressão do André... Que poesia a da imagem em retratar, com as lâmpadas (o quarto? do bar? de onde?), a "noite estrelada" do casal, durante a "festa da cachaça" (pô, Daniel, não tem cerveja? :D). Parabéns atrasados!

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  3. Muito bom! Texto explicito de quem sabe escrever. De quem tem esmero pela língua. Dá prazer em ler e reler!!

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  4. ótimo ribas, um monólogo interior, um fluxo de consciencia, escrito com mestria. a imagem da srta k é igualmente maravilhosa, sideral...

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