domingo, 14 de junho de 2009

Encomenda

Recebo do porteiro as contas e um pacote endereçado a mim, Horácio Verneck. Tremo, não pelas contas. Sorrio forçado para os vizinhos que comigo esperam o elevador. Cinco andares depois, começo a rasgar o papel pardo cheio de carimbos e etiquetas, e, odiando a boa qualidade da fita adesiva, abro o embrulho. Examino, enfim, um livro em cuja capa está um homem nu, placidamente acomodado numa banheira branca abarrotada de fotografias. Foi fotografado por cima da cabeça, de forma que não mostra o rosto. O título (em letras com efeito de molhadas) é “ENQUANTO RESPIRO”. Imediatamente começo a passar as páginas e tudo diz respeito ao meu universo. O texto, intercalado de imagens, relata fatos da vida com nomes reais, numa biografia organizada em capítulos por faixa etária. Algumas fotos parecem repetidas, no entanto não são iguais. Prossigo a leitura que resumo a seguir. Vejo meus avós - meu pai quando bem jovem - o casamento de meus pais (minha mãe com seu sorriso de Carmen Miranda) - eu, no dia em que nasci, enquanto mamava - a pracinha - a escola – passeios, amigos, namoradas e viagens – festas de aniversário – carnavais – formatura com beca – eu, com amigos (todos com camisas de time). Perco a noção do tempo que estou agarrado a este livro revirando o baú de memórias. No último capítulo há uma seqüência de fotos que começa numa praia ao pôr-do-sol. Primeiramente vejo o mar delineado por uma larga faixa de areia. Em seguida, a beira do mar com pequenas conchas em tons de bege e laranja. Depois, o mar calmo ligeiramente crispado. Nas fotos seguintes formam-se ondas baixas, lentas e pesadas de sal, o céu vai perdendo luminosidade e cai um temporal. O mar, vivo que é, continua se transformando. Agora, há ondas altas e retumbantes que desabam como chicotadas. “O jovem Horácio mergulha no mar revolto ao anoitecer” - diz a legenda em terceira pessoa - entretanto não me encontro na foto seguinte. Idem na posterior e também na outra. Apenas o mar com ondas cegas e sem direção. “Horácio luta contra a força da correnteza”. Na próxima imagem estou imerso com os olhos arregalados, a boca cheia de ar e os cabelos acompanhando os movimentos da água. Na seguinte, paro de me debater e pareço adormecer (meus lábios estão tenros como ficam os lábios depois de uma ou duas taças de vinho). No fundo do mar estou sendo cortejado por peixes ornamentais de beleza incomparável. Aproximam-se cada vez mais até tocar-me com suas boquinhas irrequietas e profanas. “Servem-se do seu corpo, começando pelas extremidades como o nariz e as orelhas” - e me vejo esculpido por milhares de dentes. “Atraídos pelas artérias e veias que vão despontando, e com o instinto de preservar a transparência ao redor, os aquáticos esmeram-se numa gula asseada que impede a hemorragia, voracidade esta que termina apenas quando já consumiram toda a matéria física”. “Dispersam-se ao amanhecer, cintilando suas escamas, quando o sol invade o céu com a autoridade de quem chega em sua própria casa”. “A superfície do mar, absolutamente imóvel e dócil, acolhe as gaivotas famintas, sem vestígio de culpa pelos excessos da madrugada”. Nada mais.

Não se trata de querer ser Deus, apenas sou o autor da minha história. Este livro é, portanto, de minha autoria.

Texto criado por Deborah Geller.




Fotografia feita por Guilherme Quaresma, inspirada no texto.
- Texto na fotografia de autoria de Deborah Geller.
- Fotografia "Gaivota", usada na obra visual, de autoria de Rudy Trindade.

8 comentários:

  1. Deborah, muito obrigado por este texto maravilhosamente fotográfico! Foi muito difícil pensar no que fotografar, em que cenário fazer isso... Muito, muito obrigado!

    A foto foi feita na praia da Barra da Tijuca, num sábado nublado, ao pôr-do-sol. Aliás, as fotos... Foram feitas em quase meia hora 79 fotos!

    Esta foi a escolhida. Mas disponibilizei em meu blog a foto original (colorida) e mais outras versões de como interpretei o texto. Elas podem ser conferidas em http://laboratoriodoguilherme.blogspot.com/2009/06/encomenda-caneta-lente-e-pincel-3.html

    Ah, adiantei em algumas horas a postagem do texto devido a uma manutenção do servidor do blog marcada para esta segunda-feira! :) Abraços a todos!

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  2. Guilherme, com essa foto especialmente produzida para nossa obra conjunta, você utilizou o poder da imagem de interferir no texto, mostrando um final que o conto não confirmou, numa foto genial e inovadora. Fez isso com sensibilidade, criatividade e firmeza. Adorei a parceria!

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  3. Deborah, só a sua inteligência aliada à enorme sensibilidade pode traduzir em palavras, isto é, palavras-imagens, uma estória de todos nós, ainda mais, sendo metalinguística (característica tão cara aos contemporâneos, mas frequentemente tão chata para quem lê) sem nunca esbarrar no tédio ou na pseudo-cultura. Seu texto é uma maré de sensibilidades.
    Parabéns Guilherme pela bela foto, deve ter sido difíciol escolher uma entre tantas imagens evocadas.

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  4. Quando que a Deborah será uma autora lida nas faculdades de letras e recomendadas por todos os críticos? Já lhe disse pessoalmente e repito: trata-se de uma escritora de escol. Não é mais uma boa escritora, como tantas, trata-se realmente de um fenômeno.

    Guilherme, vc foi perfeito ao, com sua foto, interferir na história, dando-lhe um novo final, que de forma alguma é conflitante com o texto. Cumpriu perfeitamente a idéia do conjunto da foto com um texto formar uma terceira obra, que é o post. Parabéns!

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  5. Deborah, muito, muito obrigado mais uma vez! O seu conto maravilhoso, de narrativa tão envolvente e visual, é que me deu margem para buscar fazer alguma ousadia na fotografia! :)

    Julio, foi realmente difícil! Você estava na mesa no final da nossa 2ª Rodada e viu o meu desespero em querer a ajuda dos colegas ou mesmo abrir uma enquete no blog para escolher a foto final! :) Hahaha!

    Renato, meu amado amigo, muito obrigado de coração! Concordo com tudo que você escreveu da Deborah, ela tem pena e mãos de anjo! Fico muito feliz em ter cumprido a função de criar uma obra coletiva, juntando letras e imagens, ainda mais com esse conto maravilhoso da Deborah!

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  6. A deborah realmente se supera a cada texto. Parece q vai ser impossível mas ela consegue. Como ela mesma diz, não é questão de ser deus, apenas autora. aliás, este final lembra a Hora da Estrela da Clarice. tudo num parágrafo só, como num profundo sopro.
    Parabéns ao xará pela metafoto. Lírica, pacífica, bela.
    é isto: o sítio melhora a cada semana.

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  7. Guilherme, adorei a foto. parabenizo a autora do texto também!!!
    Para você que diz que sou ausente, estou aqui fazendo minha aparição.rs
    Beijos
    ACCP

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  8. A Débora é a nossa Kaufman, com suas metalinguagens sensíveis e agudas no momento certo. Um gênio, realmente.
    E a foto traz uma composição linda, viva, com aquele sabor agridoce de que a ação acabou de acontecer.

    Amei a parceria dos dois.

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