quarta-feira, 24 de junho de 2009

à espera de Melquíades


A Rubem Braga

Prefiro ficar aqui, nesta praia. Onde os meninos continuam a jogar bola e a construir seus castelos.

Gosto mesmo é de fixar os olhos no horizonte, esperando surgirem, de repente, imensas caravelas, trazendo consigo o sol e rumores de terras distantes.

Como os ciganos ao povo de Macondo, os marujos nos fariam grandes revelações; que em algum lugar faz frio e que há poucos casacos para todos, mas a proximidade da gente impede que haja mortes, e que havendo, faz-se silêncio; que os homens continuam a criar “ismos”, mas falta muito peito, inclusive respeito, exceto, é claro, em Ipanema, onde o primeiro abunda; que há canto na África em meio aos tambores da guerra, assim como na favela. Eles trariam objetos também; espelhos, máquinas de calcular, fotografias... e nós retribuiríamos com aquela velha e boa cachaça de Minas .

Conversaríamos, beberíamos e comeríamos durante todo o dia, e à noite faríamos uma grande fogueira, através da qual as histórias ganhariam um ar sinistro e tenso, como nossos rostos e olhos refletindo as chamas.

Por fim, guiados pelo farol sobre as areias, eles partiriam, em busca de outras crianças a construir castelos, como os meus...

Texto: Alberto de Lima




Foto: Andre Korenblum




5 comentários:

  1. A Rubem Braga? Esta obra conjunta é, na verdade, uma grande homenagem à Gabriel García Marques! A obra de Alberto, com a referência a Macondo e seus ciganos que, periodicamente, trazia as novidades e as magias do mundo àquele vilarejo perdido no meio do nada se interage perfeitamente com a foto de Andre e o título por ele dado, com o nome do sábio de chapéu com pena de... pardal? A pena era de pardal, não era? :)

    Seria um novo "descobrimento", não um descobrimento de terras e do Novo Mundo, com sangue; porém, um descobrimento de sonhos e de novos mundos, com uma boa conversa e "com aquela velha e boa cachaça de Minas."

    Parabéns, garotos! Texto bem lúdico, foto bem técnica, obra conjunta bem composta!

    PS: Aos que forem postar, não esqueçam de colocar os marcadores (tags)!!!

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  2. achei interessante tbm a referencia a rubem braga. há mesmo um clima de pacífica e sonhadora espera, como na prosa do nosso grande cronista com seu lúdico lirismo de sábio.
    Muito boa a foto dos troncos do andre. me sugerem um objet trouvé, uma obra de arte casual... parabéns!

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  3. Fala povo!!

    Bem, na verdade, é uma homenagem ao velho Braga sim. Acho que o Guilherme pegou bem.

    Obrigado pelos elogios gente. Podem falar mal também... :P

    Cem anos de solidão é um romance fundamental...

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  4. Adorei o título e a compareção entre os marujos e os ciganos. Melquíades é um dos meus personagens prediletos e confesso que sem ele eu não teria criado Marvin, do meu romance Vale do Rio Preto. Portanto, se meu romance é importante na minha vida, e sem dúvida é, posso dizer que Melquíades também é, pois sem ele provavelmente não teria tido inspiração (la quête) pro personagem que mais se aproxima de protagonista do meu romance. Portanto, um post que cita o cigano do colombiano é, automaticamente, especial para mim. Mais ainda quando se faz uma espécie de releitura litorânea de Macondo.

    Saudações.

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  5. Sou mais uma encantada por Melquíades... Ótima idéia, Alberto, colocar juntos a fantasia e a realidade, personagens e homens, ciganos e marujos, crianças e adultos...
    O horizonte e os troncos mutilados pelo homem, como uma escultura. Ótima foto, Andre!

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