segunda-feira, 1 de junho de 2009

A Fissura

Imagem: Maria Matina



A diferença entre masculino e feminino é infinitesimal (o que equivale a dizer que no limite, e apenas no limite, ela não existe).
Mas esta mínima diferença é menos na relação entre os sexos do que na relação que cada um trava com seu próprio desejo.
O homem está sempre procurando alguma coisa que perdeu não se sabe quando nem onde (a isto se dá o nome de castração). A mulher na coisa encontra apenas sua perda (a isto se dá o nome de fissura).
O homem acha que a coisa, uma vez encontrada, vai preencher um buraco qualquer. A mulher já achou, mas vê na superfície da coisa apenas as linhas que limitam um vazio.
O homem procura, procura e espera encontrar. A mulher espera e encontra apenas a procura.
Na procura incansável da coisa, o homem exprime o desejo de um dia não mais desejar; a mulher denega sempre e esta denegação é a expressão final do seu desejo.
O olhar perdido na mulher é, na verdade, o olhar do encontro.
(No azul, as linhas escarlates surgem repentinas e desenham o contorno de alguma coisa que não há. Criam bordas entre regiões de vazios. A áurea silhueta da mulher que emerge do fundo pacífico é apenas um traço entre outros que sustenta seu próprio azul. É a isto que se dá o nome de desejo).
No limite do desejo há apenas a fissura.


Texto: Guilherme Preger


8 comentários:

  1. Imagine um texto bem escrito que faça jogos de palavras, que aborde um tema instigante, que seja ambientado na filosofia e que tenha adornos de psicanálise. Junte com isso: uma linda imagem azulada de mulher que talvez esteja tomada de pensamentos existenciais e procura o fio vermelho da meada.

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  2. Nossa o texto ficou muito legal!! Acho que casaram perfeitamente!! Obrigada por complementar a imagem Guilherme, valeu mesmo!!!

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  3. A imagem é perfeita no retrato dos sentimentos femininos, e o Guilherme ainda completou falando com muita precisão dos aparentemente simples, mas bastante complexos, desejos masculinos. Belíssima combinação.

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  4. A imagem tá linda. Matina, você é dona de um tracejado invejável! Parece que você manda e a caneta, como se por mágica, obedecesse! :) Parabéns!

    Quanto ao texto do meu xará, o comentário da Deborah resume bem o seu conteúdo!

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  5. guilherme preger5 de junho de 2009 18:55

    Tbm achei muito bela a imagem lírica e melancólica de Matina. Adorei ter dividido esta rodada com ela. Foi um grande desafio. Deborah: este fio vermelho da meada dá um outro conto escrito só por vc. Saulo: as diferenças são "infinitesimais" e no desenho de Matina deixaram de existir. Foi mais ou menos o q eu quis dizer. Estamos todos "fissurados"...

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  6. Gente muito obrigada, pelos elogios, mas essa obra que se criou aqui nessa fusão é muito mais do que eu poderia imaginar!
    Esse projeto é o MÀXIMO!!

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  7. Depois do que a Deborah falou, que que eu vou dizer ? Matina e Preger, nota dez !

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  8. pois que, no inicio e no fim de tudo, está o vazio.é dele que se sai, é pra ele que se vai... busca busca busca.

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