quinta-feira, 4 de junho de 2009

Rua Silva Jardim, 174

Imagem: Marcos Sêmola

Meu editor pediu que escrevesse sobre ela. Seria uma série de crônicas sobre construções antigas, demolidas ou a ponto de, e, por motivos óbvios ele me designou para falar daquele endereço. Rua Silva Jardim, 174. Por quantos anos repeti essa frase diante de minhas amigas com seus, abertos na letra “L”, cadernos da Moranguinho ou dos Ursinhos Carinhosos? Minha casa. Meu lar.
Confesso que fiquei com medo no início. Medo de que a casa estivesse assombrada por palavras como “nostalgia” ou “melancolia”. Medo de nem sei o que. Mas aos poucos fui vestindo minha roupa de ghostbuster e comecei a capturar todos os fantasmas com meus raios de prótons.
Enquanto pedia e esperava o táxi, fiquei lembrando de um monte de coisas que eu nem imaginava que estivessem em algum lugar para ainda serem lembradas. Como eu voltava todos os dias, sem faltar um, com algum espinho em algum dos pés. E o modo como minha mãe, ao mesmo tempo em que discursava sobre a necessidade de eu permanecer com a Mellissa calçada, tirava os espinhos. Meu pé focado pela luminária de cabeceira. O cheiro de planta que ficava nos meus dedos, depois que eu esmagava as comidinhas junto com barro, para alimentar a Bem-me-quer ou o Fofão.
À medida que o táxi se aproximava do meu ponto final (ou inicial?), no meio de um milhão de bonecas, gritarias, brincadeiras, eu ia dando graças por não ter a obrigação de fazer um texto adatado, ahistórico, (ai, como era bom criar palavras) imparcial. Pelo contrário, o público do nosso jornal gostava era de coisas bem sentimentalóides, cheias de referências espaciais e temporais, coisas feitas para durarem o tempo da leitura e, depois, irem parar forrando um lixo de cozinha, empacotando umas tralhas de mudança. A fórmula perfeita para eu escrever com total liberdade, sobre a minha cozinha, as minhas tralhas, as minhas mudanças. Jogando nas palavras toda a carga emocional que essas coisas representam para mim.

Mergulhei tão fundo na imagem dela que nem vi o táxi partir. Ali estava. Tão igual. Tão diferente. Pude ouvir nossas vozes berrando coisas que inventávamos na hora e que, talvez, nunca mais saberei reinventar. Maria Fernanda, Camila. Como era o nome da menorzinha mesmo? Acho que Letícia. Tudo que estava ali ainda, logo iria desabar. Era o momento de aproveitar esse tudo pela última vez. Sentei na grama e comecei a escrever.


Texto: Leila de Souza Teixeira

9 comentários:

  1. Belíssimo texto, Leila. Provavelmente um quê ou um muito de confidente, e uma identificação inevitável, como costuma ocorrer nos bons textos que relembram a infância. Compôs perfeitamente com essa inefável imagem do Marcos Sêmola, que ele definiu como a melhor de uma vasta série de belas imagens em exposição no Oi Futuro. E eu tendo (apenas tendo, diante do grande número de belas imagens na exposição) a concordar.

    Parabéns aos dois por comporem essa bela e bucólica obra.

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  2. Que lindo texto, Leila Motik!

    Me peguei pensando na minha casa, será que conseguiria lembrar de tudo que você lembrou?

    Adorei.
    Luciana Amaral

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  3. Olha, como é curioso o processo criativo... Na exposição de suas fotos (cuja visita é mais que recomendada), Marcos nos contou como é que tirou essa foto, após minutos e minutos esperando por algo de diferente. E o algo de diferente que transformou essa foto foi logo captado pela Leila.

    Marcos, quando puder, nos conte aqui sobre a sua visão da foto. Vai ser muito interessante.

    Leila, parabéns! Ficou linda esta forma de ver a foto e nela ver "fantasmas" da infância, ou melhor, lembranças esquecidas no baú da memória, lembranças de uma infância vivida no gramado de um jardim. Do jardim da Rua Silva Jardim, 174. (obrigado, aliás, por me fazer lembrar da minha infância correndo de bicicleta no quintal de minha casa!)

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  4. Pra quem leu so desfrutando o texto, ja tava maravilhoso. Pra mim, que li com gostinho de "personagem", foi uma daquelas "coisas" que ninguem descreve direito. Ate porque, sempre fico "toda toda" quando lembro que comecamos juntas a ter gosto por boas leituras e depois por escrever.E a minha "corujice" contigo, quando vejo que estas cada dia mais "poderosa" escrevendo, nao para de crescer.
    Tambem nao lembro muitas coisas da Silva Jardim, porem, ha coisas que nunca esqueco: a vez que o Julinho encheu a piscininha com sabao em po e agua sanitaria e "ferrou" nosso programa de verao; uma certa vez que fui apaziguar uma briga entre tu e o Me, acabei pintando ele de coitadinho e a Tia Su ficou furiosa comigo pq eu estava "dando uma de Vo Maria; nos duas "pinduradas" nas extensoes telefonicas dos quartos, fazendo de conta que cada uma estava em sua casa, e ficavamos "brincando" de fofocar como fazem duas boas vizinhas; uma Pascoa muito farta que passamos la, mas tao farta que voltei vomitando chocolate de Passo Fundo ate Santa Maria... Que horror!...
    A nossa infancia foi a minha vida. Me faz tanta falta tudo do jeito que era que parece que os dias de agora sao so marquinhas pra eu riscando no calendario... Mas te amar, eu amo como sempre
    Da juju

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  5. No canto da imagem, como se fosse apenas um detalhe, a fluidez dos corpinhos leves que saltitam sobre a trilha de pedras. Não me canso de olhar.
    O texto é imensamente afetivo, Leila sabe conduzir o leitor e provocar sentimentos. Adorei o trecho da luminária!!!
    Ótimo final: "Sentei na grama e comecei a escrever".

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  6. Comentários como o da Juju após um post cósmico como esse já fazem esse site valer...

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  7. Com certeza, Renato, com toda a certeza!

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