segunda-feira, 22 de junho de 2009

Sol e Lua

A tristeza não é corpo
Não é estado de espírito nem qualquer
Dessas baboseiras que dizem.
A tristeza é um ser é um algo
Um algo quente e feio muito feio
Um algo feio que te dá boa noite
É a única coisa a sorrir no espelho pálido
É o breu que sufoca as noites mas vicia
É o breu que dá saudade o breu o breu
A tristeza é um algo feio que me dá a noite.

A solidão não é mentira
Não é coisa de doente nem de ausência alheia.
É a secura que é um algo de ser
Um algo de ser só e frio e seco
É fria, é muito frio ser sozinho o frio
O frio quase cura pois é algo é companhia é vida
E quase mata é arrepio e ofusca
A solidão ofusca tudo porque é luz
A solidão é a luz medrosa que me dá o dia

É assim
O dia solidão é só o dia
A noite da tristeza é triste é breu
Solidão e tristeza
Meu dia e noite meu sol e lua
Minha vida

Minha vida
É tua toma
Toma nas mãos minha vida
Toma nas mãos e diz que é tua e que me ama
Diz que é teu é tudo teu mas diz
Não custa muito e dói só pouco diz pra mim
Toma nas mãos e assopra o breu
Toma nas mãos e tampa o frio
Toma nas mãos e me machuca
Machuca ah, a dor

A dor a dor é outra coisa
Não vem de machucados como fingem
Nem são os sentimentos ou lembranças
A dor tem um quê do sorriso perpétuo do espelho pálido da tristeza
A dor tem um quê da luz tortura dos longos dias da solidão
A dor é o deus maior que sobrepaira o Olimpo dos meus dias
E das minhas noites e de novos dias e novas noites
Vida
A dor é o Zeus que joga raios numa terra morta
É o neodilúvio que só varre o que não mais existe
É a chibatada de um escravo alforriado pela morte em vida
É o chute de nocaute no já desmaiado
Um exagero a garantia da sobra e da falta

A dor alegra pois distrai o triste
A dor é cura pois é companhia
A dor é vida porque eu sinto algo
E é quando eu sinto que abro os olhos e vejo que ainda há vida
Mas vida daquele jeito dia e noite
Sol e lua
Triste e só.
Dor.
Ainda.

Poema de Saulo Medeiros Aride

Pintura de Fabiano Gummo, inspirada no texto

5 comentários:

  1. Fabiano, esse desenho é muuuuuuuito bonito! A quase ausência de detalhes faz com que o essencial seja o detalhe. Evoca transparência, simplicidade e ventilação, e me faz pensar que o momento de parar é uma questão importante na criação. Adoro o charmoso contraste em branco.

    Saulo, leio o teu poema e tenho a sensação de que é letra de música. Sofridas palavras que choram o ser humano.
    A tristeza cantada em lindos versos, com intensidade de sentimentos e metáforas da dor que atingem como flechadas.

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  2. Saulo, o texto de sua poesia me lembra uma música do Titãs, "Não fuja do dor / Querer fugir da dor é loucura / Fugir da dor é fugir da própria cura".

    Realmente, também tenho sensação de ver as cifras acimas das palavras ao ler o poema. Poema de dor. dor viva, triste e solitária.

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  3. nossa! esse sítio está ficando cada vez melhor. lindo poema do saulo. Adorei os versos: "a dor alegra pois distrai o triste/A dor é cura pois é companhia/ a dor é vida porque eu sinto algo". Valeu saulo, por arriscar na poesia.
    Agora, a deborah tem razão: a imagem do fabiano em sua simplicidade e no seu vazio expectante é maravilhosa. o q é esperado nesta imagem? quem entrará pela porta do corredor? o q é aquela estrutura armada? um biombo transparente? q ambiente fantástico...

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  4. A imagem do Fabiano me passa exatamente a sensação que tinha ao escrever esta poesia, há algun anos. Um retrato do meu rosto seria menos fiel aos meus sentimentos. Adorei.

    Quanto a me arriscar na poesia, descobri esses arquivos perdidos de minhas incursões em verso, já antigas... Quem sabe não tomo coragem?

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  5. FG,já conhecia este trabalho mas fiquei feliz por reve lo. Lembra a medida exata da boa perfeição da tua obra. Raros são os caras que orbitam entre Bukowiski,Basquiat & Warhol como tu. Fico feliz pelas novas empreitadas.... mais uma ponto pra arte.
    Um grande abraço
    D. Burnaute

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