sexta-feira, 19 de junho de 2009

Valentina e o outro

Essa noite, Valentina se despiu para um outro homem cujo nome não sei. Soltou seu cabelo castanho escuro, sempre preso num rabo de cavalo, tirou o vestido marrom, sentou-se sobre esse homem e o beijou profunda e longamente. Fazia três meses que ela não dormia com ninguém. Assim como eu. Ou melhor, faria três meses daqui a três dias. Foi no dia 20 de fevereiro que ela me disse que, resumidamente, havia se cansado de mim, das minhas preocupações, das minhas manias. Disse que deveríamos buscar cada um o seu caminho, falando, ainda, como éramos diferentes, mas, ainda assim, que poderíamos ser amigos, bons amigos, um dia quem sabe.

Um dia, quem sabe, eu me esqueço dela de vez. E seu nome não me causará mais nenhum tremor. Nem qualquer desejo.

Mas hoje, agora, ainda posso sentir cada curva de seu corpo, todas as suas texturas, cheiros e gostos, sem esquecer um só detalhe. Não me esqueço das suas brotoejas na nuca, que a forçavam a usar os cabelos presos quase todo o tempo. Não me esqueço das manchas de sol nas costas, dos ossos salientes dos joelhos e dos cotovelos, do calo no dedo anular da mão direita, da cicatriz na perna esquerda, das veias dos seus pés quando voltavam doloridos das aulas de balé.

Não me esqueço do seu sorriso desconfiado quando me escutava falar. Não me esqueço das suas gargalhadas enquanto me fazia cócegas. Não me esqueço dos seus pêlos arrepiados quando eu falava coisas doces ao seu ouvido. Não me esqueço da textura da palma da sua mão acariciando meu rosto ao acordar. Não me esqueço das suas lágrimas quando se comovia com um filme ou um livro qualquer. Não esqueço que as coisas começaram a ter um fim quando tudo mais a comovia, exceto eu.

Nessa noite, eu estava lendo um livro de Borges quando me veio essa sensação. Sobreveio o medo de nunca mais tocá-la, de esquecer sua voz se por acaso um dia ela me ligasse, de não ouvir idéias novas da sua boca, de não saber se seus sonhos mudaram ou se seus gostos continuam os mesmos. Sobreveio o medo de descobrir que apenas ela, e mais ninguém, conheceria tão bem os meus sonhos, os meus gostos, as minhas idéias, a minha voz. E eu soube que esse medo era novo, sendo insuportável por me fazer sentir impotente, por ter deixado sua vida escorrer pelas minhas mãos.

Nesse momento então, eu percebi que ela estava com outro homem. Que seu corpo nunca esteve tão distante de mim, que minhas mãos haviam encontrado um substituto, que minha identidade jazia resumida definitivamente na expressão “ex”.

Era madrugada, e, enquanto eu tomava um conhaque, Valentina bebia um copo de vinho. Enquanto eu tremia de medo, solidão, saudade e frio, Valentina tirava sua roupa, tremendo de excitação e desejo. Enquanto eu tentava ler Borges, Valentina beijava um outro homem que não eu. Enquanto eu pensava nela, Valentina me esquecia.

E essa noite foi tão longa e fria que senti que estávamos separados não há apenas três meses, mas há três anos. Pensei em como seria difícil conhecer outra pessoa, descobrir outro corpo, sem brotoejas na nuca, sem cicatriz na perna, sem manchas de sol nas costas, sem calos nos dedos, sem pés doloridos de bailarina.

Acendi um cigarro perto da janela enquanto via o céu cor de rosa dessa manhã de outono, sabendo que ela, perto dali, também acendia um cigarro e olhava o mesmo céu deixando o outro adormecer em sua cama.

Mas, por um momento nesse breve instante em que nossos cigarros queimavam, eu soube que, por alguma razão, ela também pensava em mim.

Texto por: Danielle Costa




Foto: Rudy Trindade, inspirada no texto

12 comentários:

  1. Dani, que texto é esse? Putz! Excelente, inesquecível! Um texto daqueles que te pega. E como não fazê-lo, se trata de um tema tão doloroso e é tão bem escrito e descrito. Realmente muito, muito bom. Parabéns elevado à décima potência.

    A foto parece retratar o parágrafo final. Ela pensando no coitado, que está em agonia. Não sou grande entendido do tema, mas me pareceu muito bem batida, com um ótimo jogo luz-sombra valorizado pelo P&B.

    Excelente esse post!

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  2. Dani, muito bonito e sensível, o papel masculino foi muito bem interpretado pela autora sensível. Posso imaginar os loucos pensamentos do "esquecido", querendo qualquer sinal de reconhecimento de sua existência, mesmo que seja nos braços de outra pessoa. Como em Detalhes do Rei.
    A foto está fantástica, mesmo que tenha optado pela cena imaginada (como escapar da sedução do corpo feminino), fugindo da solidão, presente e onipotente.
    Abraços

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  3. Dani, que texto arrebatador. A tensão crescente, a sensibilidade...
    E a foto? Dá pra ouvir o suspiro da mulher.

    Agora um comentário geral sobre a obra como um todo: Que legal é ler um texto desse e ir rolando a página devagar, se ver chegando ao fim do texto e perguntando: com que imagem serei brindado?

    Brilhante

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  4. Uma delícia viajar por este texto da Dani. Tantos detalhes desconcertantes me aproximam da intimidade dos personagens a ponto de sofrer por eles e com eles.
    Rudy materializou uma bela Valentina de cabelos escuros e soltos, cicatriz na perna esquerda e o pensamento distante.

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  5. Saber escrever é resultado de treinamento, observação, aprendizado de regras, criatividade e muita leitura. P A R A B É N S !!! Seu texto é um grande presente.

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  6. meu deus, dani, meu deus... q texto bonito e ,eu diria, doloroso. quase q não consigo terminar de lê-lo. será q frase final é pura ilusão?
    a foto do rudy está perfeita p. o txt. fantástica. parabéns aos dois!

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  7. Um conto ao mesmo tempo agradável e penoso de se ler. Acredito que não exista criatura no mundo que não tenha experimentado semelhantes sensações. Eu pelo menos me identifiquei demais. E a foto do Rudy se harmoniza perfeitamente com as imagens sugeridas pelo texto, parabéns!

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  8. Dani
    Obrigado por poder compartilhar texto tão bonito com minha imagem. Se um dia for fazer um livro e quiser usar minha fotinha, tô aqui!
    valeu.

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  9. Um retrato perfeito da alma masculina escrito por uma mulher. A altivez de deusa das mulheres tão bem retratada - literalmente - por um homem. Genial. Linda obra conjunta, linda.

    O uso das sombras na foto é simplesmente perfeito!

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  10. David tem toda a razão, não há quem não se identifique com as dores e dúvidas com as que passa o protagonista (ou seria Valentina a protagonista do texto?).

    Dani, como bem comentado pelo Preger, que texto bonito e, ao mesmo tempo, doloroso!

    Rudy, como bem comentado pela Deborah, parabéns. Você "materializou uma bela Valentina de cabelos escuros e soltos, cicatriz na perna esquerda e o pensamento distante." E tudo isso no leito ao lado do "outro" do título.

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  11. Sensacional combinação entre texto e imagem.
    Fantástico! Se fosse um livro não teria conseguido largá-lo até alcançar o fim.

    Parabéns ,Dani e Rudy.
    E obrigado por mais essa experiência.

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  12. Adorei o Blog, principalmente ser a Valentina do Rudy. Bjo migo!

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