segunda-feira, 6 de julho de 2009

Alienado

Acordou com o barulho pesado do trânsito, como todos os dias. Apesar de morar no nono andar. Botafogo, um bairro de passagem. Entre o nada e coisa nenhuma. Enfim. Enfiou a calça, pegou a camisa que estava pendurada na cadeira, calçou os sapatos. Na porta, lembrou dos dentes. Voltou, escovou.

Saco, pensou. Fechou os olhos. Inferno, se manter vivo. Esforço civilizatório exaustivo.

Desceu, caminhou até o boteco da esquina, o mesmo desde que ele era garoto, os azulejos azuis e pretos, o mesmo balcão com o mesmo torresmo amanhecido.

"Média", pediu. Gostava dali porque ninguém olhava pra sua cara, se sentia bem assim, anônimo. Caminhou até o metrô, passou em frente ao prédio da mãe, seguiu direto. Sua mãe. "Que o manto sagrado de nossa senhora te proteja, meu filho". Há 45 anos a mesma frase. Quanto orgulho, quando ele passara para a faculdade pública de Economia.

Quando passara para o Banco do Brasil, e depois para o Banco Central. Quando descobrira que ele aprendera inglês e francês sozinho. Por sua causa até casara, mas é claro que não dera certo. E o filho, um garoto calado, esquisito. Parecido com ele.

Livros. Livros, sua salvação, desde garoto. Seu álibi. Os clássicos, os mais espinhosos. Depois, os trabalhos mais difíceis, os que ninguém queria. Que exigiam horas de pesquisa, muitas vezes na Bibioteca Nacional. Alívio. Alívio, fugir do convívio social. Gralhas.

Entrou no prédio antigo, imenso. Respondeu ao cumprimento do ascensorista com um aceno de cabeça. Olhavam para ele. A camisa amarfanhada, a falta de banho, as pessoas percebiam, olhavam disfarçadamente e depois se entreolhavam, fazendo uma expressão muda como se ele fosse louco. Medíocres, medíocres, pensou. As mulheres com suas maquiagens pesadas e perfumes idem, patéticas em seu esforço inútil para tentar disfarçar a idade. Os homens, puxa-sacos engravatados, sempre com os mesmos comentários sobre as vitórias ou derrotas dos seus times.

Na hora do almoço desceu pelas escadas. Parou um segundo ao se deparar com sua imagem, no saguão. Pálido, o cabelo escasseando, seus olhos não eram de Capitu, eram mesmo de peixe morto.

Quando chegou do outro lado da rua, sentiu uma mão pequena, envelhecida mas firme segurando o seu braço.

"Você quer morrer, meu filho? Atravessar a rua assim, com o sinal aberto, no meio dos carros?"

Escritórios, janelas, a sombra azul do Capanema , um café no copo. Relatórios, gráficos, planilhas.

"Que bom que você veio jantar com a sua velha mãe."

A ladainha de sempre, o desfiar de mazelas, notícias dos parentes, dos irmãos, do filho que pouco via. Ouviu calado enquanto comia, a tv ligada, o cheiro de velas e flores meio murchas que vinha do altar.

Caminhar, caminhar. Caminhar na noite, no silêncio, fumando um cigarro. Gostava disso. Estremeceu com o zunido e o vento provocados pelo carro saindo do túnel, em alta velocidade.

"Maluco!", ainda ouviu. Continuou caminhando. Isso era bom.

Texto por: Carmen Molinari (colaboradora convidada - veja o seu perfil)




Imagem: Ivan César (colaborador convidado - veja o seu perfil), inspirada no texto.


14 comentários:

  1. caro Ivan: sua foto é simplesmente PERFEITA! E tem existência totalmente autônoma...obrigada, fiquei muito feliz com o resultado.A foto foi feita para o texto, ou é um trabalho anterior?
    Grande abraço!
    carmen molinari

    ResponderExcluir
  2. Parabéns aos dois! A obra ficou um ótimo conjunto e também são belas individualmente consideradas. Havia lido o texto da Carmen antes e o conceito que ele traz, de alguém que fica cansado com essa vida social na qual temos que passar o dia todo, todos os dias, nos submetendo a códigos, tinha ficado na minha cabeça. Eu nem lembrava de quem era o texto ou onde tinha lido, mas isso ficou martelando, e continua, minha cabeça. Acho que é um texto que para sempre carregarei.

    Carmen, vc é uma sortuda! Seu fotógrafo é super esforçado e se deslocou uns vinte quilômetros para ir a Botafogo bater essa foto, produzida sim para o texto.

    Obrigado aos nossos primeiros convidados pelo presente que nos deram.

    Obs.: quem for comentar, lembro que esse sistema de comentários é problemático e normalmente é necessária um segunda tentativa. Mas o que vc escreveu não é perdido quando da erro na primeira tentativa.

    ResponderExcluir
  3. Molinari, com seu tio ecoando em minha cabeça, senti o caminhar para a boca destes túneis, tão simbólicos, tão cariocas, que furam as estruturas para deixarem fluir o movimento. Lindo texto, de uma solidão enorme, como é difícil viver às vezes. A foto está fantástica, aquele senhor carrega quilos de significações.
    Parabéns a ambos, benvindos ao Caneta.
    Júlio Rodrigues

    ResponderExcluir
  4. Bem, como o Renato comentou a foto foi realizada especialmente para o belo texto da Carmen.

    Logo que li o texto, me veio a imagem da foto na minha mente e fiquei alguns dias imaginando a forma da sua execução.

    Para entrar no clima, ao final do dia entrei no carro e rumei para Botafogo (local onde mora o personagem); estacionei junto a um sinal de trânsito e fiquei esperando o personagem passar!! rsrs

    Como o texto é bem dinâmico, minha intenção era dar bastante movimento à imagem e tentar retratar como carros e pessoas passam em alta velocidade pela vida do personagem.

    Confesso... foi um grande desafio!

    Agradeço ao Guilherme pelo convite e a Carmen eu dou os parabéns pelo lindo trabalho!

    ResponderExcluir
  5. guilherme preger6 de julho de 2009 17:01

    incrível a história do ivan, do seu esforço para captar in loco a essencia do txt da carmen numa foto de pura despersonalização. conto cinematográfico, de frases curtas e como diz o julio, de uma solidão enorme. gostei demais do fim do conto "isso era bom". isso foi bom. parabéns a dupla!

    ResponderExcluir
  6. Carmen, obrigado por esse texto lindo. Quando o li, fiquei imaginando "como é que o Ivan vai se safar?" :) Tinha certeza que tinha posto um amigo na toca dos leões. Leões de palavras, frases e sentenças! :D

    Mas Ivan mostrou ser um grande fotógrafo, do qual sou fã. :) Eu que agradeço ter aceito o convite e ter nos brindado com essa linda obra conjunta. Uma foto que se relaciona com o texto de forma tão linda que, Carmen, pode ter certeza: essa foto foi feita especialmente para esse texto!

    Parabéns a todos por esta 3ª Rodada. Fico muito feliz em ver o esforço de todos os artistas visuais na tentativa (bem sucessiva) de dar imagem, movimento e vida aos textos que foram enviados. Foi um desafio e tanto, e imagens como a do Bruno (e seu golfinho de pimenta-dedo-de-moça), a do Rudy (com a Valentina e sua cicatriz na sua perna esquerda... Cicatriz, que cicatriz?), a da Matina (e a confusão de assuntos, quibes, húmus e esfirras), a do Damm (com seu Van Gogh carioca), ufa, de todos vocês e, agora, com chave de ouro, a do Ivan (que saiu de casa e ficou, em plena Botafogo, esperando o momento certo para tirar a foto) me dão certeza da qualidade de todos vocês, como escritores, fotógrafos, desenhistas, pintores... e, também, que a brincadeira só está começando! E começando pra valer!

    Carmen e Ivan, muito obrigado mais uma vez pela brilhante participação de vocês. Desde já, saibam que vocês serão sempre bem-vindos a participarem, quando quiserem, como convidados mais que especiais do blog! :D Um forte abraço a vocês!

    ResponderExcluir
  7. Querida carmen, tão talentosa para fazer de um dia qualquer na vida de qualquer um, uma cena comovente onde cada leitor vai encontrar sua identificação em algum momento, pode ser no passeio solitário à noite, ou no cheiro de flores murchas, ou no sentir-se esquisito, ou no esforço de ser aprovado por alguém.
    Ivan produziu uma foto tão adequada ao texto que me agradou não só pelo significado mas também pelo resultado estético com as nuances em preto e branco, tons de azul e algum vermelho.

    ResponderExcluir
  8. Vejam bem: Excelente texto. Imagem sem obiviedade!!! Parabéns a ambos! As mulheres estão, SEMPRE, superando os trabalhos masculinos aqui no Caneta. E não trata-se de "sensibilidade feminina". É o simples refinamento da qualidade da escrita. Vambora correr atrás rapaziada!

    ResponderExcluir
  9. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  10. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  11. "Esforço civilizatório exaustivo". Isso foi bom. Muito bom, tanto quanto o olhar de peixe morto. Viver é um esforço mesmo, ou, como lembra Riobaldo, "Viver é muito perigoso". Essa caminhada poderia ter sido minha e disso gostei demais.

    ResponderExcluir
  12. caro Ivan, agora que sei que a foto foi feita especialmente para o texto ( o que eu na verdade já imaginava, tão perfeita ficou), sinto-me ainda mais honrada por estar em tão fina companhia.Gracias!
    E APROVEITO PARA AGRADECER A TODOS QUE CURTIRAM O MEU TEXTO OS GENEROSOS COMENTÁRIOS, E CONVIDÁ-LOS PARA O LANÇAMENTO DO LIVRO "CLUBE DA LEITURA - MODO DE USAR", dia 28 de julho, às 20 hs, na BARATOS DA RIBEIRO. Apareçam!!!!

    ResponderExcluir
  13. Carmen, que texto maravilhoso, profundo e melancólico. Uma história de tantos que chegaram a tão pouco (não aos olhos da família e da sociedade, é claro ...) A foto também está fantástica, primorosa.

    ResponderExcluir
  14. Não há como não exclamar um " ah, coitado!" e desejar nunca se sentir como ele.

    Bela obra!!! parabéns aos dois!!!

    ResponderExcluir