domingo, 12 de julho de 2009

Amor

Vídeo: Júlio Rodrigues



Sonhei com você essa noite e era como se nos víssemos pela primeira vez. O ambiente era vago, sem elementos e, se havia um contexto, seria um diálogo de sentimentos entre duas pessoas que ali estavam como dois estranhos e, mesmo assim, não parecia haver nada melhor no mundo para eles – nós - do que estar ali. O tempo inteiro fixei a atenção nas suas reações procurando acolhimento ou, mais que isso, lutando por acolhimento. Você parecia assustado e ambivalente. Num dado momento nossos ombros se esbarraram e deu-se faísca, apesar de não haver intimidade (intimidade seria quando as pessoas sentem que a temporada começou depois dos ensaios). Nem mesmo nossos nomes dissemos ou trocamos qualquer palavra, mas havia familiaridade e também curiosidade de saber mais e falar tudo que passava pela cabeça. Um desconhecido que eu olhava intensamente e inexplicavelmente adivinhava os pensamentos. Esbocei um abraço mas você deslizou como se dançasse, acariciou meu ombro sem de fato me tocar e ainda pude sentir sua respiração por lábios entreabertos. Nos encaramos, por alguns momentos, até que nos lançamos num abraço arrebatador que durou pouco, apenas o suficiente para que eu chegasse nas nuvens e desabasse quando você se afastou partindo meu coração. Você ficou paralisado, arrependido, eu achei, e ousei avançar mais uma vez com paixão e o resto de energia que ainda existia em mim. Daí em diante comungamos uma sintonia de desejos, uma alegria sem riso e uma sedução aparentemente angelical. Sua pele brilhosa e sua barba de 24 horas, de repente notei e tive certeza da noite mal dormida que cada cama testemunhou. Era um bom dia que meu sonho pedia, um bom dia de perdão mútuo por contrariarmos tantas promessas juradas entre lençóis amarrotados.
Saudade, prematura, de você.

Texto: Deborah Geller, inspirado no vídeo de Júlio Rodrigues

15 comentários:

  1. Que sublime Deborah. Bonito de doer! Que inicio de semana. Com certeza será das melhores. Parabéns. Julio Rodrigues: rapaz...massa seu video. Imagens com coloração especial, cuidado e primor. Que musica é essa? MUITO BOA!! Excelente video novamente. Sucesso!!!

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  2. Uma das principais qualidades da Deborah é despertar nosso gosto pelos seus textos. Sempre uma leitura de qualidade. Acredito - não sei realmente - mas dessa vez deve ter sido mais fácil: o video do artista Julio Rodrigues me fez viajar por lugares muito especiais. Acredito ter assistido muitas vezes, em poucos minutos. Parabéns a ambos. Excelente trabalho. Parabéns também aos gestores do Caneta. Ter dois craques é garantia de sucesso ao especial trabalho que vocês vêm desenvolvendo com especial carinho.

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  3. Achei o conto “pura poesia”. Contemporâneo e muito bem escrito! Felicitações à escritora. Fiquei feliz em encontrar um vídeo seu aqui Julio. Nós que acompanhamos seus trabalhos desde a primeira exposição na Europa, visualizamos o crescente desenvolvimento da sua obra. Excelente single.

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  4. Por diversas vezes pensamos que o tema “amor” já está esgotado. Ai, numa bela manhã de sol, sem querer e por total acaso, encontramos um site com uma proposta muito legal. Não bastasse isso, lemos palavras que acalmam, nos fazendo sonhar uma vida ainda melhor. Então, assistimos ao vídeo do menino Julio Rodrigues, enchendo meus pulmões de vida e aquecendo meu sangue. Que segunda-feira, 13, sensacional. Beijos carinhosos aos dois. Mais e mais sucesso!!

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  5. O amor é o sentimento mais completo de todos, isso porque quando temos ele, temos também a sensação de que não precisamos de mais nada, que ele nos completa, e quando encontramos alguém que nós dê esse sentido, a vida parece que fica mais bela, e quando esse sentimento é retribuído, nos sentimos perfeitos. Achei PERFEITO o encontro Deborah e Julio!!! A leitura dos dois trabalhos são dignos de conotação, com sentido de verdade e sem fantasias. Tudo muito “caprichado”. Interessante também é como o vídeo ficou – para mim – concreto. Ao assisti-lo todos os meus sentidos se aguçaram, até cheiro eu senti! Abraços aos artistas.

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  6. E eu aqui, no trabalho, curioso para chegar logo em casa só para assistir esse vídeo tão citado e aclamado! :D E, claro, só vou ler o texto da Deborah depois de ver o vídeo! ;) Ah, se curiosidade matasse!

    Minha cara Agar, em nome dos "síndicos" do CLP, muito obrigado! :) Julio e Deborah, além de verdadeiros craques (respectivamente na lente e na caneta), são pessoas maravilhosas que transmitem carinho e dedicação em tudo o que fazem!

    A todos visitantes, obrigado por suas visitas e comentários! :)

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  7. Sendo econômico nas palavras, uma vez que eu sou dos que têm a honra de participar da coluna da esquerda do site: Sublime! Texto, vídeo, tudo.

    Ler o texto e depois ver o vídeo é como aquelas situações especiais quando depois do beijo vem o afago.

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  8. Fiz o contrário do Damm e não me arrependo. Vi o vídeo e, somente depois, o texto. E valeu a pena esperar voltar do trabalho para ver. A obra da Deborah se comunica de tal maneira com a arte visual que parece que é o contrário, que o vídeo é inspirado no texto. Parabéns aos dois por nos proporciar essa belíssima obra conjunta!

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  9. julio: vc encontrou na deborah um pr perfeito para traduzir seu video lírico e delicadamente onírico. Um verdadeiro pas-des-deux poético, texto e texto, imagem e imagem, texto e imagem, imagem e texto. para béns!

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  10. Concordo plenamente com o comentário do sr. Marcelo Damm: “depois do beijo vem o afago”. Interessante que também senti aguda dor no estomago, como se levará um soco. Pois, apesar dos meus “preconceitos”, sem nenhuma dificuldade, entendi como respeitar e amar o próximo de forma objetiva e sensata. Como a arte pode ser transformadora. Excelente trabalho. Obrigado!!!

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  11. Texto de primeiríssima qualidade e excelente ilustração para uma nova teoria, em oposição à tradicional comunicação de massas. Parabéns à Deborah e ao Julio.

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  12. Venho aqui quase sempre, mas é o meu primeiro post. To tão emocionado que não sei o que escrever! Só quero endossar todos os demais comentários. Do caralho texto e vídeo!

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  13. Tenho de dizer-te que meu amor equivale a tudo já visto por seu olho por somente saber da sua doçura desde aquela noite de vermelho, pelos beijos já começando a se prever um fim espetacular capaz de abalar famílias porém sem remover montanhas já que Maomé já foi até uma e creio que não pretendemos o absoluto, nada além de estarmos juntos e já muito se querer assim na época do dia após, antes dele uma civilização, neste baratas saem dos esgotos radioativos, com patrulhas de seres desfigurados a clamar pela reinvenção da vida. Propriamente dizer eu te amo já significa uma grande batalha na colheita de palavras cada vez mais apropriadas e muito longe desta simplicidade. Talvez os gregos tenham chegado a um maior requinte. Sendo assim não posso fazer comparações tão intensas quanto, enquanto fluo sem a pretensão de construir uma Odisséia já que o tempo de um homem nesses dias não é o tempo de homem no círculo de uma travessia pelo mar que não se sabe se ou porquê, para quê. O meu mar é outro; está em mim, mas também penso que não muito além e fico diminuto, mas no dia seguinte decomponho o mundo em cubos, depois sonho com atos e assassino esteticamente crianças pintadas da cor do erro de ser um guerreiro sem escudo e lança. Não lamento, entre os restos imagino que houve um tempo, e o tempo é sempre o tempo que me resta.

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  14. O texto da Deborah e o video do Julio são MUITO BONS! Que carinho ao espectador! É muito importante quando não somos substimados com bobagens!! PARABÉNS!!!

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  15. Esse post é profunda e fantasticamente maravilhoso!
    Impressionante!

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