quarta-feira, 15 de julho de 2009

Éden

Imagem: Rudy Trindade

Sua inadequação já subsistia desde novo. Ter que ir à escola, à missa, não arrotar na frente dos outros... vá lá que sua educação não fora um primor. Era de família simples, no entanto o mínimo de esforço social o incomodava. Por isso, após afastar-se da família e das pessoas que seguiam o padrão mais comum, foram poucos os anos como hippie. Estes têm também um rígido código ao qual se deve submissão. Iludem-se crendo serem livres. Por isso, foi por breve período que conviveu com eles. Aliás, um dos códigos entre eles era só falar em Deus como Jah e, embora não gostasse de missas, a infância deixou a fé cristã gravada no âmago e no RG de Jesus da Silva.


Cada vez mais bicho grilo, Jesus preferiu afastar-se da sociedade a tornar-se um marginal. Longe dela, não tinha desejos de consumo ou o que almejar do mundo. Uma nota de quinhentos euros lhe valeria menos do que uma folha de papel em branco, na qual poderia gravar o que bem entendesse. Colocou, então, sua mochila nas costas e pôs-se a caminhar. Andou por semanas, sobrevivendo de doações que conseguia pelo caminho, até que estacou numa praia deserta. Não sabia onde estava. E nem queria. Alheio à sociedade, divisões geopolíticas não lhe interessavam. Classificar áreas em municípios e Estados eram ficções nas quais a maioria acreditava. Mas fora do jogo social, ele não estava em qualquer país, Estado ou município. Apenas pousava seus pés sobre areia branca, tendo o mar à sua frente.


Para deitar raízes no local, fez uma rede de pesca, catou tábuas de madeira e, com elas, construiu um casebre, uma canoa e dois remos. Encontrou terras agricultáveis a aproximadamente dois quilômetros de distância. Com isso, construiu sua teia de subsistência.


Passou-se um tempo indeterminado (ele não contava o tempo) em que Jesus (ele ainda não esquecera seu nome, entretanto já precisava esforçar-se para lembrar-se do sobrenome) só teve a companhia das suas frutas, hortaliças, e peixes, até que viu algo se aproximando. Vinha correndo. De longe via apenas uma figura humanóide, porém nada era possível determinar. Ficou em pé olhando, com seu remo nas mãos, para que pudesse defender-se, caso fosse atacado. À medida que o ser se aproximava, ainda correndo, começava a tomar a forma de uma mulher. Aos poucos se via que ela trajava branco e preto. O tipo de roupa era familiar a Jesus, contudo ele era incapaz de classificá-la. Nomear um conjunto de panos requer a compreensão de um código do qual ele se retirara. Já Jesus estava nu desde que fixara moradia naquele local. Ela continuou a corrida e foi se aproximando dele. A poucos metros do homem, foi exatamente em sua direção, aumentando um pouco a velocidade. Neste momento, Jesus viu um conjunto de pequenas argolas penduradas do seu pescoço, com duas linhas cruzadas ao final. Era uma cruz. Este símbolo ele ainda compreendia. Não era apenas parte do seu ego, mas do seu ser. Esquecer tal símbolo seria como caminhar com uma muleta, arrastando um dos pés por não se lembrar de sua existência.


Jesus olhava fixamente a cruz pendurada no pescoço da mulher quando ela trombou contra ele e derrubou-o no chão, caindo-lhe por cima, exausta. "Por favor, me salva, me salva, por favor!", "eu não agüento mais, eu não agüento, não agüento. Me salva, me salva, me salva..." As primeiras palavras foram ditas em pranto histérico, ao passo que as últimas foram em diminuto volume, até que sua voz sumiu e ela adormeceu sobre ele.


Atordoado e simultaneamente preocupado, Jesus, que a esta altura cultivava grande barba e cabelo, carregou a dama até a rede de dormir, onde ela pôde repousar. Em seguida, foi à horta e ao mar, a fim de buscar insumos para uma refeição reforçada, retornou às redondezas do casebre, preparou o jantar, alimentou-se e só então a mulher acordou. Abriu os olhos na rede e logo disse: "me deixa ficar contigo, por favor, me salva, me ajuda. Lá eu não posso fazer nada. Tenho horários rígidos, devo ler o que eles querem. Não agüento mais. Aqui tenho liberdade. O mar e a areia são amorais, não me imporão regras ou restrições. Você também não parece o tipo de pessoa que o fará. Por favor, me ajude."


E lá ela ficou. Jesus nunca falava. Embora ainda pudesse compreender a língua na qual fora educado, não mais era capaz - ou sequer tinha interesse – de raciocinar de acordo com sua intrincada sintaxe. Chamou a atenção de Jesus quando, pela primeira vez em que eles se amaram, uma grande quantidade de sangue dela escorreu. Mas com algum esforço ele lembrou o que aquilo significava. Estava explicado o impressionante fervor com que a mulher se entregara a ele. Eram duas coisas, aliás, que Madalena fazia com incomparável intensidade: entregar-se a e pregar sobre Jesus. Também com a fé cristã indelevelmente incrustada em suas profundezas, embora não mais suportasse a etiqueta clerical, ela se dedicava a ensinar (imaginando que ele não sabia) a Jesus os ensinamentos de Cristo. E ele, em pouco tempo, voltara a rezar todos os dias antes de dormir, sob suaves cânticos de louvor entoados pela nova companhia, assim como fazia em sua infância, quando sua mãe o colocava para deitar.


Madalena também não contava o tempo, então outro período indeterminado passou-se sem que algo que possa interessar ao leitor ocorresse, até que, certo dia, Madalena não se levantou da rede. Ainda era jovem. Não tanto como quando chegara, porém encontrava-se muito aquém da idade em que a multidão do mundo, que vivia em qualquer lugar distante dali, consideraria que ela não fora atingida por uma desgraça, tocada precocemente pelo dedo da morte. Jesus sabia que a morte, em qualquer tempo, era natural, e que idade era uma ficção oriunda do calendário, coisa que ele não tinha. Triste, mas sem qualquer sinal de inconformidade ou peso de tragédia sobre os ombros, enterrou a defunta a alguns metros de seu casebre. No dia seguinte surpreendeu-se ao ver uma bela macieira no local.


O vermelho das maçãs pingentes o convidava de forma agressiva. Era como se quisesse atraí-lo pela opressão de sua beleza suculenta. Contudo, Jesus não saíra da sociedade para obedecer a outro senhor. Não abriria mão de sua autodeterminação e isso significava conviver em harmonia com as tentadoras maçãs. As comeria, tão somente, se de dentro dele naturalmente brotasse uma vontade, e não por um convite quase malicioso da fruta. Sentia que a maçã desejava ser devorada e buscava impor isto a ele. Todavia, se submeter a qualquer desígnio que não fosse o próprio significaria a derrota de Jesus em tão longa missão, que empreendera desde quando pôs sua mochila nas costas e seguiu a caminhar.


Entretanto, passado mais um lapso temporal incerto, Jesus pôs-se frente à macieira, a olhá-la, lembrando-se de sua falecida amada. Não mais se recordava do seu nome, mas sua imagem, sua voz, sua textura e, sobretudo, seu cheiro, não lhe saíam da mente. Nesse momento, desarmado, foi de súbito laçado por uma maçã e quando se deu conta estava a devorá-la avidamente, esquecendo, por completo, sua devoção pela morta. Ele entregava-se à fruta com furor do qual Madalena nunca tivera a honra e o prazer de ser vítima. Mesmo após anos de isolamento, Jesus ainda tinha um resquício de ego, por isso nunca esquecera seu nome, então, a entrega total, o abandono à experiência nunca ocorrera em sua vida, apenas enquanto devorava aquela maçã. Ao terminá-la, não lembrava como se chamava. Contudo, não teria oportunidade para experimentar outro momento de tamanha entrega. Madalena, percebendo que Jesus jamais se livrara completamente dos códigos de seu passado, também não tendo ela jamais se visto livre de tal maldição, no seu último instante de vida, pediu ao anjo expulso do céu que, se após a morte dela, Jesus algum dia conseguisse um momento de plenitude, não deveria continuar a viver.


Jesus, então, tombou aos pés da macieira que, não tendo mais função a cumprir, secou.



Texto por: Renato Amado.

15 comentários:

  1. A religiosidade contada numa refeição de ingredientes fabulosos que envolvem o poder da natureza, o instinto de sobrevivência, a ausência de vaidade e o amor romântico. De sobremesa uma suculenta maça enfeitiçada.
    Seria quase meio-dia nesta imagem irresistivelmente atraente e real? Tento deduzir pela pequena sombra da Cruz de Jesus.

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  2. Muito bom Renato Amado! A cada paragrafo, queria saber mais. Pena que terminou!! Parabéns ao Rudy.

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  3. Parabéns aos dois!
    Este conto me remete à liberdade...

    Abraços,

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  4. uma parábola, como a parábola da maçã, o amor de jesus e o desejo de madalena. o conto, com sua profusão de imagens contrasta com a exatidão solar da fotografia. mas não podemos nos esquecer q ao longo da praia deserta, de frente ao tronco solitário, há a imensidão do mar. uma grande obra em dupla, um texto mítico para uma imagem seca. O último parágrafo é um fecho de ouro, casando imagem e palavra. parabéns!

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  5. Renato
    Obrigado elo lindíssimo texto.
    Já havia comentado antes, não sei porque não registrou...
    Já falaram tudo que senti no texto...
    E... a foto foi as 15:30h de um m31 de dezembro no Recanto de Itaopuaçu.

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  6. Rudy, Renato, gente, vcs tb notaram a imagem na sombra ou eu estou vendo coisas?...
    Gostei de saber hora e local da foto!
    Beijos

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  7. Eu reparei na sombra só depois do seu comentário, Deborah! :)

    A foto está linda, Rudy! O azul do céu, levemente saturado, combina tão bem com o resto da foto. E o tronco da árvore, com sua sombra, dá um bom aspecto e solidão.

    Renato, eu acredito que a criatura sempre reflete um pouco de seu criador. E este texto não foi diferente. Esse questionamento acerca das normas sociais, morais, enfim, de todos os padrões é bem "renatiano". Só você para imagia um Jesus - um Jesus da Silva! - que foge de tudo e todos para tentar se salvar da sociedade, ao invés de salvar aos demais. Somente achei que o texto, no meio, perde um pouco de "velocidade", de "dinâmica", só voltando a fluir mais para o final. Mas isso não tira de jeito nenhum o seu mérito.

    Meus amigos, meus sinceros parabéns!

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  8. Rudy, essa foto merece um prêmio ! Comecei a ler por causa dela, uma imagem forte, paradisíaca, perfeita. Aí, me deparo com um texto inteligente, brilhante, cheio de referências ... pelo estilo, logo percebi que era dessa figura do Renato ! Parabéns aos dois, um dos melhores casamentos entre imagem e palavra que já vi.

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  9. A sombra lembra Jesus crucificado, né?

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  10. Perfeita a harmonia de texto e imagem.
    Um conjunto que consegue se sobrepor a bela imagem e ao fantástico texto.
    Parabéns

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  11. Bom... muito bom mesmo. As cores da foto são simplesmente surreais. Agora, lendo os comentários vi que o Guilherme usou o termo Renatiano, e não é que faz todo sentido? Muito bom mesmo. Parabéns tardios aos dois.

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  12. Ufa! Consegui respirar...Rudy e Renato, por pouco vocês quase foram responsáveis por uma morte por asfixia!!! Dois ou três dias depois, alguém encontraria Nice Pinheiro morta, debruçada sobre o teclado do computador. Na tela, a foto e o texto responsáveis pela trágica morte prematura...rs. Um espetáculo!!! Parabéns para a dupla. Mas cuidado com jovens senhoras de coração sensível. Como eu, por exemplo..rs

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  13. De onde sai tanta criatividade??? De onde, minha gente????

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  14. Parabéns aos dois, foto fantástica com um texto super criativo. A cada dia que passa acho esse blog mais fantástico!!

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