terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Madame Zoraide

Imagem: Guilherme Quaresma





Ela nasceu Aparecida dos Santos. Mas por muito pouco não nasce. A mãe dizem que morreu de eclampsia. Do pai ela nunca soube. Criada por uma tia, passou a infância mais na rua do que dentro de casa. Gostava de brincar no meio dos meninos crescidos. Aos estudos, nunca foi chegada. Comprou um diploma de segundo grau na mão de um sujeito magrinho, paquidérmico, que tinha vendido uma carteira de estudante falsa para seu primeiro namorado. Pagou a ele com favores. Em pouco tempo estava matriculada num Curso de Psicologia. Com a grana curta no final do mês, trocou a faculdade por uma carreira profissionalizante em Ciências Ocultas. Depois ninguém mais soube dela. Em pouco tempo era Madame Zoraide quem dava as cartas.

Logo que comprou seu primeiro baralho – usado, é bem verdade – tratou de montar seu estabelecimento. Uma biboca em Honório Gurgel. Um cômodo de dois por dois parcamente mobiliado, mal iluminado e cheirando a mofo. O suficiente para colocar uma mesa de centro, estender sobre ela um pano de pratos e repousar seu modesto baralho, que uma chinesa lhe vendera como cigano, mas somente tempos depois veio a descobrir que era espanhol. Quem ligava para o desenho das cartas? O importante era ouvir o que só Madame Zoraide enxergava por debaixo daquelas estranhas figuras.

Com a proficiência de um Nostradamus, Madame Zoraide rapidamente desenvolveu sua clientela. Segundo comentam, não havia fato futuro que conseguisse passar despercebido diante do baralho dedo-duro de Madame Zoraide. Aos poucos, maridos adúlteros foram sendo revelados, sucessos profissionais foram sendo antecipados e não havia pedido de “quando eu vou encontrar o homem da minha vida” que saísse sem resposta da sala de consultas de Madame Zoraide. Dizem que até o bispo de uma igreja muito famosa foi até a saleta de Honório Gurgel tomar conselhos com Madame Zoraide. Mas sabem como esse povo tem a língua grande...

Não demorou muito para que abrisse uma filial em Ipanema. Madame Zoraide era um fenômeno. Passou a ser convidada por jornais, revistas, programas de televisão. Bastava chegar dezembro e todos ficavam ouriçados para saber as dicas de Madame Zoraide para o próximo ano. Agora ela já não desmascarava apenas as puladas de cerca dos maridos de Honório Gurgel. Com o know-how acumulado, Madame Zoraide passou a adivinhar o destino de personalidades do meio artístico, catástrofes internacionais, o paradeiro de terroristas mundialmente procurados. A imprensa esportiva recorda até hoje quando Madame Zoraide conseguiu enxergar em suas cartas o rebaixamento de um grande time do Rio de Janeiro. Só mesmo Madame Zoraide.

Com a popularidade alcançada, Madame Zoraide resolveu lançar-se na carreira política: candidatou-se ao cargo de deputada federal por um partido de esquerda. Como já era aguardado pelos caciques da legenda, Madame Zoraide foi disparado a mais votada, passando logo a ser cogitada para o cargo de Ministra da Economia. Só mesmo Madame Zoraide poderia adivinhar as oscilações da bolsa de valores, o preço do barril do petróleo, o fim da crise econômica que assolava o país. Mas no dia da posse, tão ansiado por toda população, Madame Zoraide não apareceu. Pai Zezinho, um vidente recém guindado à fama, havia previsto a morte de Madame Zoraide justamente no dia de sua posse. E se tinha uma coisa em que Aparecida acreditava era no poder das cartas. Na data fatídica não tirou os pés de casa. Não era bom contrariar a própria sorte.



Texto de David Cohen

10 comentários:

  1. Hahahahaha! Me diverti muito com o texto! Que conto ótimo! :D Com esse texto, sinto recompensado em ter feito a foto e edição especialmente para a abertura da 4ª Rodada, num domingo, com a toalha do almoço tardio (como todo almoço de domingo) ainda estendida na mesa, num domingo em que eu procurava uma coisa no armário e acabei encontrando o velho baralho madrilenho de truco, descansando no fundo da gaveta! Obrigado, David, por ter criado tão belo e lúcido conto com base na minha imagem!

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  2. Guilherme, ótimo tema trazido nesta bela foto: as cartas e o destino.
    David, essa história é divertidíssima, adorei! Não esperava que no final Aparecida provasse que sua crença nas cartas era mais forte que sua ambição.
    Beijos

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  3. Pois é...
    Divertido mesmo esse conto.

    Parabéns aos dois...

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  4. uahahahaha. Gente, muito bom! Primeiro, quando vi a foto, exclamei: "nossa, que legal!". Depois veio esse ótimo e divertido texto. Achei legal essa guinada pro humor. Estava em falta por aqui. Parabéns mesmo aos dois. Achei um post muito leve e agradável. Vou almoçar sereno.

    Obs.: David escrevendo conto e Saulo escrevendo poesia. Esse mundo tá perdido... ...rsrs...

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  5. Obrigado a todos pelos comentários.
    A foto do Guilherme é sensacional, facilitou muito meu trabalho.

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  6. David, meu caro, fico feliz que a foto tenha te ajudado! :) Desde o início, me preocupei muito com a foto, pois não sabia até que ponto ela tinha auxiliado ou não. Mas lendo o texto vejo que ela realmente te ajudou bastante! :)

    Só por curiosidade, a minha inspiração para a foto foi a música "Bete Balanço", do Barão Vermelho. Em especial, este trecho da música: "O teu futuro é duvidoso/Eu vejo grana, eu vejo dor...". ;) Abraços a todos!

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  7. David...
    Parabéns pelo texto. Fica a sugestão. Que tal indicar Madame Zoraide para fazer uma previsão para o destino de uma colega nossa que vai casar?
    Abraços e Felicitações pela criatividade.

    Eric

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  8. Guilherme, que foto ótima, e David, rolei de rir com esse final ! Nota dez pra dupla !

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  9. SENSACIONAL!!!! Era só o que faltava no Planalto Central pra terminar de virar um grande circo!!! rs

    Texto fantástico David! E Guilherme, foto inspiradora, hein????

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