quarta-feira, 29 de julho de 2009

O Topo



Imagem por Marcos Sêmola.


Rita chegou primeiro. Quando ela atingiu o topo, descansou calmamente no último degrau, jogou os cabelos para trás e observou a subida, como quem tem todo o tempo do mundo. A essa altura, sua voz havia se tornado apenas um eco distante e frio em meus ouvidos. A essa altura, eu ainda estava no meio da escada, lutando com alguns degraus que me pareciam cada vez mais irregulares, cada vez mais difíceis.

Diziam-me que, agora que Rita tinha alcançado o topo, a escada pareceria mais curta para mim. Mas ela parecia cada vez mais longa. No começo da subida não se vê seu fim, apenas uma infinidade de degraus que aparecem e desaparecem num balé vertiginoso a nossa frente. A escada não é igual para todos. Muitos chegaram ao topo bem antes do que esperavam.

Rita chegou ao topo bem antes do que eu gostaria. A casa estava pronta. Os amigos estavam animados. A roupa estava escolhida, encomendada e aprovada. A escada ainda era grande à sua frente. Mas quando vi, ela estava no topo, a quilômetros de mim, com uma calma irritante nos lábios.

Continuei subindo degrau a degrau. Muitos passavam por mim com pressa. Outros preferiam estacionar em um degrau. Em vez de alcançarem o topo, preferiam que o topo os alcançasse ali, parados. Não era meu caso. Queria prosseguir. Queria me superar. Queria ver Rita novamente.

No fim da subida não há mais força. As pernas já não respondem, a vista já não discerne o que é degrau do que é ilusão. Não há mais vontade de prosseguir, menos ainda de retornar. O fim da subida é uma espera angustiante pelo fim da escada.

Um dia, vi que não havia mais degraus a minha frente. Subi no último deles, virei de costas e me sentei. “O topo”, pensei. Rita estava a meu lado, mas estranhamente não senti vontade de segurar sua mão ou cheirar seu cabelo. Apenas olhei novamente para a escada. Observei-me nos degraus ao lado de tantos outros. Vi os momentos em que tropecei. Vi os momentos em que corri demais e me cansei. Vi o momento em que Rita disparou à minha frente. Vi todos que me ultrapassaram e todos que ultrapassei.

Vi o início da subida, com Rita a meu lado, ambos rindo e se provocando.

Esse é meu trecho favorito da escada. Esse é o trecho que quero observar agora que cheguei ao topo.

Texto por Saulo Aride.

8 comentários:

  1. Obrigado pelo belo texto que alacanvou a imagem. Como em um livro de suspense, fui sumindo os degraus junto com o personagem.
    Parabéns!

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  2. A foto foi muito inspiradora. As escadas se encolhendo na perspectiva me remeteram imediatamente à caminhada da vida.
    Fiquei muito feliz com nosso trabalho conjunto!

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  3. Muito boa essa metáfora que foi construída. Parabéns Saulo.

    Essa foto foi das que mais me marcou na exposição do Sêmola no Oi Futuro. A "câmera" subindo a escadaria ficou muito bacana.

    Abraços.

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  4. Linda foto, belo texto! A foto traz uma concretude inescapável, há uma sensação de esmagamento, interessantíssima, e aí vem o texto, que é líquido e que nos salva, que nos faz ter vontade de escadas enormes, íngremes e, de preferência, escadarias sem fim!

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  5. O texto é extremamente reflexivo, consigo facilmente me enxergar nele. Numa próxima vez, me avise quando postar novos textos....

    Um abraço meu "irmão",
    Cadu.

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  6. no texto do saulo o topo olha a o início da subida, na foto do semola é o início q vê o topo. jogo de perspectivas, complemantares, com a escada e sua presença concreta à frente, a própria trajetória. parabéns à dupla

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  7. Nossa adorei a combinação,a foto já é uma viajem no tempo, e o texto nos embarca em uma reflexão muito bela sobre a vida.Estou curiosa para ver o que o Saulo vai fazer com a minha imagem!

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