sexta-feira, 31 de julho de 2009

Vermelho



Imagem por Maria Matina

Quando nos beijamos, nossas línguas estavam assustadas. Talvez fosse o hálito, cheiro de cigarro e álcool, ou a abordagem. Elas se encostaram como estranhos apertam as mãos numa ocasião profissional ou um pássaro se alimenta. Cumprimentavam-se, estudando a reação daquele ser estranho que invadia seu domínio. Exploramos comprimento, textura e volume. As brechas entre os lábios se fechavam. Nossas línguas se enroscavam, complementando todo o espaço da boca; faziam amor. Nossos corpos acompanham, se apertando e passeando, ansiosos.

Ela morde minha língua. Afasto-me. Olha para ela e sorrio. Safadinha... Ela me morde mais uma vez. Mais forte. Dentes afiados. Tento sair, mas ela não deixa. Ela quer me cortar ou um pedaço meu nela? Saio e vou para o pescoço. Insiro-me como um vampiro, direto na jugular, buscando sangue, lambendo suor. Ouço um sussurro, quebrando minha concentração e levando-me instintivamente à sua boca. Ela me morde com mais força. Sinto uma pontada, carne rasgada. Saio e vejo um filete de sangue escorrendo no canto esquerdo da boca. O gosto na minha boca é de cigarro com algo doce, extasiante. Pego-a pela cintura, mão dentro de sua calça, beijo como ataque. Antes que ela possa me pegar, puxo seu lábio inferior e corto-o da mesma maneira. Ela fica surpresa, sorri e me olha interessada. Passa a ponta da língua devagar e insinuante na ferida. Sua expressão muda para um desapontamento fingido.

“Não saiu sangue...”

Para a força que demonstramos, não deixo de achar peculiar a delicadeza com que tirou suas roupas. Cada peça retirada e colocada gentilmente sobre a poltrona ao lado da cama. São dobradas por uma sacerdotisa de uma cultura pagã que prepara os ingredientes para honrar os deuses. Sacrifício humano. Ela fica nua, na minha frente, em pé, reta, uma estátua esperando pelo toque que a tornará uma criatura de carne. Eu fiz o mesmo, embora tenha colocado minhas roupas no chão. Não poderia interromper seu ritual... principalmente, porque estava fascinado. Seus movimentos combinados com a luz mínima da lua agonizando pela noite preta. Hipnotizando, seduzindo cada senso de realidade, dirigindo-me para o terreno do que deve ser a mais bela composição noturna... Fiquei sufocado e te imitei. Desejava te levar para a cama, mas, ao mesmo tempo, queria sugar cada momento teu te desnudando, como uma pintura interativa, um espetáculo digno da natureza, bem à minha frente.

Deito-a na cama. Ela me encara, em transe. De repente, como um predador que surge d’água e dá o bote, ela morde meu lábio inferior até me perder na dor. Ela se afasta, satisfeito e vejo um pequeno pedaço vermelho em sua língua. Ela arrancara parte de meu lábio. Sorriu, moleca, e engoliu. Beijo-a com fúria e, com o canino, faço um corte mais profundo em seu lábio superior. Desta vez, saiu sangue. Lambemos nossas feridas, deliciando-nos em apetite. Nossas línguas se esbarram enquanto se alimentam e decidem fazer amor. Mais força. Dor e gemidos surdos se perdem. O vermelho se espalha em nossas bocas. Saliva e sangue, elixir do prazer mais intenso.

Pouco antes de nos mutilarmos, paramos. Mostramos nossas marcas um para o outro, como num desafio, fazendo caretas. Cada um de nós levaria do outro uma tatuagem feita diretamente na carne pelo osso. Vou novamente para sua jugular. Ela grita enquanto tento extrair mais sangue. Vou para o ombro, onde arranco mais um pequeno pedaço de carne. Ela segura minha cabeça com as mãos, furiosa e vai meu peito. Tira meu mamilo e mostra-o para mim, segurando entre os dentes, como um botão. Ela me beija e coloca o mamilo na minha boca. Prestes a me alimentar, ela junta seus lábios com os meus de novo e engole. A hora será a mesma para nós. Todas as sensações aumentam exponencialmente. Nossa pele está eletrizada. Estamos drogados em fluídos do corpo.

Vou para o lóbulo de orelha e me alimento de um pequeno pedaço antes do inevitável. Mastigo como se fosse uma erva indígena e minha mente se enche de imagens de cor e fogo, meu corpo se tornando o receptáculo para os elementos primordiais. Num movimento rápido e inevitável, ela puxa minha orelha esquerda e arranca-a toda. Urro, esperando que ainda não seja agora. Ela quase chora. Segura parte minha orelha nos dentes da frente, tal como o mamilo. Mordo a outra metade. Fluídos escorrem com mais força. Nossos rostos e ombros estão vermelhos de nós. Lábios se aproximam. Dividimos a orelha. Quando a engolimos, quase nos engasgamos. Neste momento, viramos um, envolvidos pela carne.

Sento na poltrona. O sangue sai sem cerimônia de onde era meu membro. Ela vem em minha direção e se senta no meu colo. Olhamo-nos com ternura. Não é amor, é muito melhor. Vamos continuar até que não sobre nada de nós, exceto a cor.

9 comentários:

  1. Como as pessoas são tímidas, eu começo. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a Maria Matina. Sua arte vangoghiana me acertou como um tapa na cara. Quanto ao texto, a um de meus ídolos, Clive Barker. Peço a todos que passem no reformulado "Ainda Sobrevivendo" (www.dribas2.blogspot.com) e deixem um comentário. Não sejam tímidos... Tudo de bom, DRR

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  2. Ribas, Ribas! Só vc mesmo! O texto é envolvente, mas não consegui ir até o final e parei na parte q há um mamilo arrancado. Não consegui, Ribas, não consegui! Não suportei!!! O texto me afetou mais do que deveria, deu nervoso (o que é um mérito pra vc, na verdade...) e tive de parar. Mas vc está mandando cada vez melhor!

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  3. Tb Ribas... Me deu nervoso, aliás, logo no começo. Ninguém mandou vc escrever em primeira pessoa... Hahahahaha!

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  4. Ribas, sinceramente adorei a sensualidade canibalesca desse terno sexo selvagem sangrento. Você é um excelente escritor, pena que não costume deixar comentários neste blog.
    Matina, seu desenho é lindo de ponta a ponta!

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  5. maria matina é a nossa poeta das imagens. seu desenho é de um lirismo melancólico e delicado. já o ribas, está se tornando cada vez mais perigoso. adorei o fim do conto. chave de ouro. parabéns a ambos.

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  6. Concordo, o Ribas é perigoso, jamais imaginei que essa imagem poderia gerar tamanha orgia canibalesca.... Gostei muito da combinação,mas confesso que fiquei chocada e em alguns momentos assustada. Devo ter feito caras bem engraçadas enquanto lia esse texto,rs.

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