segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Alice espera

Imagem: Marcos Sêmola



Todos os dias, uma espera, em algum lugar. A espera de uma carta ansiada, uma confidência inadiável, um motivo para rir, um pedido de desculpas, uma conseqüência coerente, um resultado possível. Ou uma solução impossível. Um milagre, talvez.
Há também Alice, ali, esperando por ele.
Todos os dias, em qualquer lugar: uma esperança de paz, um jogador que entra em campo no segundo tempo, uma derrota, um beijo repentino, uma resposta desejada, uma vitória, um diagnóstico certeiro, uma promoção, uma despedida, um segredo, notícias de um amigo distante. Uma surpresa imprevista.
E a espera por alguém.
Todos os dias, Alice corria até a varanda, apoiava-se no peitoril, apertava os olhos tentando aproximar o horizonte, e quando o via, lá longe, sorria aliviada, com a certeza absoluta do seu retorno diário.
Assim, porque ele voltava, sua confiança era assegurada, dia a dia. Ele voltava perto da hora de jantar, jantava com ela e sua mãe, depois bebia uma garrafa de cerveja bem gelada. Alice desenhava animais, casas, árvores e crianças, ele ouvia o rádio e comentava as notícias da guerra, depois lhe contava histórias de dormir, inventava finais felizes, cantava canções que não existiam até aquele instante, enquanto ela tentava ficar acordada, decorando as rugas que se formavam no rosto cansado dele.
Depois dormia e o trocava por seus sonhos infantis. Quando dormia, deixava de ser a Alice que esperava, e passava a ser Alice que apenas sonhava. Às vezes, quando sonhava, ela o via chorar, sem saber suas razões, assim, vez por outra, chorava também, numa tentativa de compartilhar com ele essa dor disfarçada e secreta. Às vezes, quando sonhava, era ela que partia, andando de bicicleta à procura de um alguém ignorado e desconhecido. Às vezes também sonhava com os sonhos dos outros, e sonhava com cartas, sorrisos, paz. A paz era o sonho mais roubado naqueles dias.
Foi num dia de sol que Alice o viu despedir-se de sua mãe. Ele vestia um uniforme militar e carregava uma mala marrom. Quando lhe deu adeus, balançando a mão esquerda, Alice sabia que naquela noite ele não lhe contaria histórias de dormir.
A mãe passou a ouvir as notícias de rádio logo pela manhã e, quando entardecia, Alice corria até varanda, retomando sua espera diária. Todo o tempo livre, a mãe usava para escrever cartas, vendo Alice desenhá-lo voltando pra casa. Anoitecia quando a mãe a chamava para entrar e ela, sozinha e resignada, obedecia. Enquanto a mãe sonhava com uma paz que demorava a chegar, Alice esperava por ele, que demorava a voltar.
Um dia a paz chegou. Mas ele não.
Alice esperou por ele até crescer. Cresceu, tentando ver as rugas dele nos rostos de quem conhecia. Deixou de comparecer pontualmente à sua espera diária, e a manteve quieta, silenciosa, ao passo que buscava breves lembranças das histórias de dormir, das longas esperas que terminavam em abraços e canções de ninar. Alice esperou um filho. Esperou contar as mesmas histórias e cantar as mesmas canções. Esperou conseguir se lembrar de tudo. Esperou que ele crescesse. Esperou mudanças, beijos repentinos, pedidos de desculpas, milagres, talvez. Esperou que as rugas dele renascessem em seu rosto. Esperou que sua espera terminasse, um dia.
Assim vai acontecendo todos os dias, em vários lugares, em qualquer época. Porque sempre existirão Alices e suas esperas. Uma Alice qualquer, alguém. Uma espera qualquer, uma esperança.

Texto: Danielle Costa

8 comentários:

  1. Vou presidir o fã clube da Danielle. rsrsr Excelente texto, com visivel preocupação em oferecer o melhor ao leitor. Parabéns pela foto Sêmola.

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  2. Dani, que texto delicioso, maravilhoso, parabéns, ADOREI!!!
    Marcos, essa foto é adorável e sugestiva. Uma foto predileta.

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  3. Parabéns Dani (me desculpa a intimidade, mas quase a tenho através da Juliana, minha queria chefe).
    Gostei muito!
    Durante a leitura o tempo passa, e quem lê passa junto. A personagem é transparente e dá para sentir os anseios, desejos e desilusões que ela sente.
    E não sei se mais alguém vai achar isso, mas é como se de alguma maneira eu já tenha visto, lido ou passado por essa história. ao mesmo tempo que é nova, me é muito familiar.
    Gostei muito!!!

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  4. @Renato, já tem uma associada para esse fã clube.

    Dani, o conto tá lindo demais. Fiquei comovida.
    A foto também está ótima. Parabéns aos dois.

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  5. gostei muito, texto e imagem.
    parabéns para a dupla.

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  6. é a dani escrevendo, sem dúvida, mas antes é a sua capacidade de se pôr no lugar dos outros, de qualquer outro, como dessa alice qualquer, todos nós alice, todos nós dani ou dani todos nós. mas é esta a função do lirismo, não ser um eu falando, mas a própria emoção ou o próprio sentimento se expressando. e o melhor q se pode dizer da imagem do marcos é q ela é o próprio lirismo, a própria espera ou a própria esperança. parabéns aos dois por mais esta emoção!

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