segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A Cidade Encarnada







O quarto tem espelho até no teto. Espelho demais para quem a princípio não quer recordar esta noite. Mas, quando ela apaga a luz, os neons vão entrando pela janela e preechendo o escuro com uma cor esotérica que permeia e transcende nossos reflexos. O momento assume o caráter de um estranho ritual sagrado. Penso que ela vai fechar a janela, mas ela se despe também para os edifícios, mostrando que não quer que eu seja o único destinatário da sua nudez. Sua pele branca bem pode ser uma espécie de chama, o centro do ritual, que vai aos poucos se aproximando e ganhando um contorno nítido de corpo feminino. As sobrancelhas, eu as diviso antes que os olhos, porque são mais escuras e sobressaem na pele por contraste. Só depois os olhos me tomam e me absorvem no pequeno transe. Quando eu desligo o som, já ouço a canção verdadeira, aquela que vem do cheiro marinho e acanelado do seu corpo. É essa a música que não cessa, quando sinto seus cabelos cobrindo meu rosto e seu corpo se apoderando avidamente do meu. Abro os olhos levemente exasperado, porque algo dentro de mim ainda quer entender minimamente o que se passa. Então vejo o brilho que escorre pelo seu corpo, as letras reluzentes da cidade, as promessas de futuro, de prazer e de limite. Compreendo vagamente que não é ela que me possui, é a cidade que escolhe um corpo de mulher para me absorver e consumir numa noite sagrada. Me entrego novamente ao escuro, e minha canção mais íntima flui pelo meu corpo com a delicadeza e a precisão de uma chuva. Depois o que sobra de mim descansa em suspiros longos e pacíficos. É a prova de que ainda mereço dois minutos de um sono sem culpa.

Mas acordo para ver a garota sentada na cama, já vestida, o pequeno capuz a lhe cobrir as sobrancelhas. Ela permanece em silêncio quando pago a conta, e decido guardar a pequena nota como um registro histórico da nossa noite. Em casa, revejo a nota e a foto que tiramos horas antes num bar – eu sorrio e olho para a câmera, ela está séria, fitando o nada, como se intuísse o que havia de inevitável no nosso encontro. Só então me dou conta do absurdo que tento fazer. Quero manter em papel algo que só cabe à minha pele, e talvez à mucosa fina dos meus lábios. Rasgo a nota, a foto, e o que mais havia de lembrança falsa daquela noite improvável. Decido não tomar banho, para que algo dela fique gravado nos lençóis. Mas, no dia seguinte, já nem os lençóis testemunham a canção sagrada que meu corpo entoou naquela noite. No bolso da jaqueta, encontro um número de telefone. Mas sei que do outro lado vou encontrar apenas uma mulher, não mais a maravilha irrepetível de uma cidade em carne e osso. Porém não há nada na TV, é um dia de chuva e não quero ficar sozinho. Disco os números, resignado.

— Quem é? — Ela me humilha com sua desconfiança.
— Sou eu — respondo, derrotado. — Eu mesmo... apenas eu.


20 comentários:

  1. Julio, excelente video. Mesmo. Imagens especialmente tratadas. Cuidado com o som e efeitos sonoros. Um verdadeiro poema urbano. Estou muito orgulhosa.

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  2. Viva a liberdade!! Interessante como a interpretação ou a visão - sei lá - difere de pessoa para pessoa. Vi e revi várias vezes a sua obra Julio, pra tentar entender o raciocinio do escritor. ufff!! Não conclui igual. Acho que isso é bom. Só sei afirmar que seu video é muito bom. Sucesso e muito obrigado!

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  3. Mais uma vez, parabéns ao Júlio. A sensibilidade do conto encontrou o reflexo na delicadeza do tratamento dado às imagens roubadas de seres tão dependentes e tão vítimas da cidade que os isola em ilhas/celas de dor cercadas/encerradas de/em mares de luzes multicoloridas que ferem ao mesmo tempo em que dão prazer.
    Lou

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  4. Julio, mais um excelente trabalho. ADOREI. Puta sensibilidade. Criatividade com cenas do nosso cotidiano. Musicalidade perfeita. Parabéns!!!

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  5. Parabéns ao Ronaldo e ao Julio. Excelente trabalho conjunto. Gostei demais.

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  6. FODA!!! Muito bom, to toda arrepiada com esse video e esse texto. Julio, achei o máximo quando a musica se mistura aos demais sons. Achei poetico. Achei que o video tem vida própria. To certa? rsrsrs Adorei. Parabéns aos dois.

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  7. Parabéns aos dois pelas imagens sensiveis, pela preocupação e respeito com o espectador.

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  8. Parabéns pelo texto muito bem escrito Ronaldo.

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  9. Muito bom o conto do Ronaldo Brito. Já o video do Julio Rodrigues é excelente. Pena que todos os comentarios acima já explicitaram as qualidades do trabalho.

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  10. Excelente trabalho em dupla. Bem legal o texto do Brito. Parabéns! O video do Julio é ARTE. Arte que atrai o espectador até o final. Arte com conceito, sem perder a poesia. Parabéns também.

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  11. Putz!! Muito bacana poder assistir ou ler ou ouvir algo de boa qualidade. Sentir que o artista desejou fazer o melhor, ao invés de empurrar goela a baixo "qualquer coisa". Muito obrigado ao Brito e ao Rodrigues por esses momentos de prazer.

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  12. Ronaldo escreveu um ótimo conto onde gostei especialmente de encontrar a palavra "Irrepetível", pela profecia e por ser indubitável.
    Julio fez um vídeo primoroso e instigante, resultado de ter tanta intimidade com a arte e com a técnica. A música autoral é muito boa!

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  13. Texto bem escrito pelo Ronaldo. Parabéns! Video excelente idealizado pelo Julio. A fuga das cores é algo belissimo.

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  14. É muito interessante quando os "autores das obras" possibilitam que o espectador faça parte de suas criações. Fui personagem no conto do Brito. Estive presente em cada cena do video do Julio. Ótimo trabalho!!!

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  15. um ronaldo lírico? só isto já justificaria o belíssimo vídeo do julio. "Compreendo vagamente que não é ela que me possui, é a cidade que escolhe um corpo de mulher para me absorver e consumir numa noite sagrada." entendo vídeo e txt como uma canção conjunta de amor à cidade, aquela q só conhecemos de través, por suas janelas indiscretas. a cidade onde sempre nos perdemos. a cidade q está sempre a nos trair pra q voltemos a procurá-la. grande trabalho da dupla. caneta lente e pincel vai se tornando um desafio cada vez maior a ser superado! parabéns!

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  16. Bravo! Bravissimo! Tecnologia sem perder a essencia artistica. Poesia. Bravo!!!!

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  17. Video fantástico. Arte de primeira. Amei demais. Quero outros e outros. Obrigado por tornar minha noite muito melhor.

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  18. Que sucesso de post. Texto bom, video bom. Dá prazer ver e rever. Valeu pela criatividade.

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