quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Espelho


Imagem por Maria Matina

Há uma casa de poucos cômodos, com paredes pintadas de branco mas tracejadas de um cinza que respira velhice.

Há um menino, um belo menino de brilho no rosto, cuja respiração circula pela casa e combate qualquer iniciativa de mofo.

Há um homem que se esforça para parecer o menino, e para ser o menino. Quanto mais ele consegue, mais patético fica em sua odisseia de ser menino-homem, e mais feliz fica com o alívio de poder apenas ser, como o menino apenas é. O menino, no entanto, olha para o homem querendo sê-lo, apenas para mais velho desejar retornar a ser-se.

Há uma mulher que olha adiante, talvez sozinha. É ela quem freia as corridas do menino. É ela quem ri das travessuras do homem. É ela quem mantém a casa em suposta ordem. É ela quem vive pensando em ir para outra casa.

Há um cômodo de cartas nunca enviadas e nunca recebidas, já que nunca foram escritas. Embora pareça um quarto cheio de papéis em branco, todos ali sabem que estes papéis são cartas, cartas em potencial, cartas que existem mas ainda não se cristalizaram em tinta. O menino toma conta deste quarto.

Há um quarto com fotografias num sépia gasto, avermelhado de sangue, com momentos do menino, do homem e da mulher, nunca juntos. As fotos se espalham pelas paredes e pelo chão, sempre muito bem cuidadas pelo homem.

Há um quarto com as contas e as necessidades urgentes da casa, sempre anotadas em tópicos. Neste quarto há um cofre, e neste cofre há sempre menos do que o que as contas demandam. Sob o cofre há fotografias de jornal de outras casas com que a mulher sonha. Só a mulher tem a senha do cofre, e só ela cuida deste quarto.

Na casa não há cores, a não ser um certo avermelhado inevitável a quem vive. Não há áreas externas. O menino combate a claustrofobia correndo e imaginando jardins e campos onde há apenas laje e tijolo. A mulher não se incomoda em ficar fechada, desde que tudo esteja em ordem. O homem não pensa como o menino, nem como a mulher. Simplesmente está na casa.

A mulher vê todas as coisas em seus devidos lugares. O menino vê todos os lugares em que as coisas poderiam estar. O homem vê um conjunto opressor de espaços vazios.

O menino corre pelos espaços e testa as coisas na infinidade de lugares em que elas podem estar. A mulher se vangloria de tantas coisas, o menino se excita com tanto espaço.

O homem apenas pensa que, realmente, a casa tem muito espaço para muita coisa.

Dentro de mim só não há mais espaço para mim mesmo.

Texto por Saulo Aride.

6 comentários:

  1. saulo e matina, esta dupla é campeã! matina tem sempre uma delicadeza no traço, desta vez em P&B, dando-lhe ainda mais consistência lírica, desta vez contando uma estória impossível, q só o saulo poderia haurir, entre as paredes fechadas e três personagens, talvez um pai, talvez um filho talvez uma mãe, ou um homem, um menino e uma mulher, ou apenas um homem e uma mulher, ou apenas uma mulher. adorei este corte no fim do txt com a subjetividade surgindo de surpresa. parabéns à dupla!

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  2. Nossa, obrigada Saulo, adorei a combinação, acho que ficou perfeito. Estou muito orgulhosa deste nosso trabalho em conjunto. Sua interpretação foi fantástica, depois te conto qual é a minha idéia deste trabalho...
    Muito obrigada!

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  3. Imagem e texto de muita qualidade. Obrigado aos artistas.

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  4. Maria, também fiquei feliz demais com nosso trabalho conjunto. A imagem me remeteu imediatamente a esse passeio maluco por uma mente que, digamos, se parece muito com a minha.
    Agora estou curioso para saber sua ideia inicial sobre o trabalho!

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  5. Saulo, seu texto está maravilhoso. Três pessoas em uma mesma casa, cada uma um mundo inteiro. Ótimo final - de um passeio maluco por uma mente que, digamos, se parece muito com a sua.

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