sábado, 1 de agosto de 2009

Moldura


Imagem: Adnre Korenblum

De dento da moldura, ele me olhava. Seriedade, autoridade, prepotência eram palavras que eu desconhecia. Enxergava apenas os olhos claros e imóveis do retrato, aos quais minha mãe ia atribuindo temor ou ternura, conforme seu interesse. Se eu arriscasse um mergulho no rio, “o que seu pai pensaria de uma loucura como essa?!”; se eu fechasse uma prova de matemática, “como seu pai ficaria feliz!” Aos poucos fui aprendendo a medir minhas ações pelos olhos de uma fotografia. Conheci garotos que odiavam o próprio pai e ansiavam pelo dia em que arranjariam emprego e comprariam um passaporte para fora de casa. Eu não podia odiá-lo nem amá-lo – no alto da parede, ele era distante, plano, inacessível a meus sentimentos. Mas não digo que nos estranhássemos. Acabei descobrindo que mamãe não era a única a adivinhar emoções por trás do seu rosto plácido. Quando tomei certa liberdade com nossa empregada, me pareceu que ele aprovava silenciosamente. Acreditei captar-lhe uma euforia contida, quando um amigo mais velho começou a me ensinar a dirigir. Um dia mamãe me mandou usar calças compridas e camisa de gola para jantar. Apareceu um senhor meio curvado, apresentado com adjetivos favoráveis, junto à estranha previsão de que nos daríamos bem. Naquela noite entornei comida, falei alto, relembrei constantemente a figura altiva de meu pai; citei sua honradez, sua austeridade moral, como se eu não as conhecesse apenas pelas palavras de minha mãe. Eu mesmo não compreendia a razão da minha insólita fúria, mas quando o sujeito se despediu, um tanto encabulado, ainda mais curvado que na entrada, senti pela primeira vez que o retrato me transmitia um olhar envolvente e triunfal; era o início de uma cumplicidade secreta, já não acessível a mamãe e suas frases tortuosas.

Nos anos seguintes, papai passou a aprovar minha juventude tranqüila, meus passeios de carro, minha lenta aprendizagem com a bebida, o bilhar e as garotas. Achei que nossa relação manteria a sintonia, até o dia ingrato que olhei para o retrato e não compreendi o olhar que ele me devolvia: era aprovação desdenhosa, reprovação sumária ou simplesmente indiferença? Chegava a época do vestibular e eu tinha escolhido Artes Plásticas. Mamãe protestava incessantemente, pois acreditava que uma facilidade para desenho seria mais bem explorada em arquitetura - ou mesmo em moda, desde que observadas certas reservas. Mas a carreira incerta das artes era algo que meu pai seguramente desaprovaria. Pela primeira vez, ao perscrutar o retrato, eu não sabia dizer se ela tinha razão.

Depois veio a questão com Lucélia. Mamãe não aprovava nosso casamento, dizia que o temperamento instável da garota me traria problemas no futuro. Reclamava do cigarro, acusava-a de não saber cozinhar – no que tinha plena razão – e nesse debate também não consegui intuir de que lado papai estaria.

Um dia estaquei na sala e fiquei a encará-lo, mudo, como se esperasse uma resposta definitiva. Não uma palavra mas um sinal nítido, o princípio de um código que me permitiria deduzir suas intenções para o resto da vida. O silencio me surpreendeu com uma clareza inacreditável. Na sua indiferença pálida, o retrato me transmitiu que não era mais hora de lhe consultar. Eu tinha meu próprio coração a ouvir. Me pareceu que a foto queria abdicar da função de oráculo e se contentar com o cargo modesto de lembrança. Mas a súbita transformação me perturbou. Não consegui conter a revolta; um silêncio morto queria se instalar onde antes havia um diálogo fértil e profundo. Senti-me traído, abandonado, praticamente insultado. Tomei o retrato nas mãos, vociferei impropérios, acusei a imagem de ser apenas o espelho da minha loucura, uma ilusão que eu herdara de minha mãe, e minha mãe herdara de uma ausência. Revoltado contra sua passividade orgulhosa, espanquei o retrato, bati-o contra as costas de uma cadeira, depois o rasguei, cortei minhas mãos no vidro estilhaçado, talvez acreditando, por desespero, que se pode destruir um passado anulando um de seus símbolos. Quando mamãe entrou na sala, consegui conter o choro, não as lágrimas. Ela apenas se abaixou e começou a catar os cacos. Surpreso, percebi que não estava contrariada. Também estava farta de ver o presente governado pelo fantasma que ela mesma havia projetado atrás daquela imagem oca. Recolhemos juntos os cacos, varremos o chão, colocamos o vidro para fora. A grande moldura, que me disseram ser de jacarandá, eu ia vender numa feira de antigüidades. Mas algo me deteve no momento de fechar o negócio. Não foi o preço baixo - não era o dinheiro que me interessava, eu queria apenas me livrar do que restava de uma revolta estéril e obscura – foi antes o insólito pressentimento de que um dia eu também seria retrato. A emoção que pulsava no meu peito, a força misteriosa que enchia e esvaziava meus pulmões também se tornaria rigidez, frieza, ausência. Segurei a moldura diante de mim, tentei imaginar meu rosto imobilizado dentro dos seus limites. Especulei que um dia talvez um filho precisasse do meu rosto ali dentro, dos meus olhos vazios de sentimento para que ele pudesse projetar e compreender os seus próprios. Livrar-me da moldura não me livraria das inquietantes reflexões que ela me suscitava. Minha decisão súbita decepcionou o comprador. Coloquei a moldura no ombro. Resignado, com passos lentos e firmes, voltei para casa. O peso do limite eu aprenderia a suportar paulatinamente, até que eu fosse também um limite, uma imagem contida num retângulo de madeira. Hoje a moldura me aguarda num quartinho dos fundos, e eu aguardo o dia em que me tornarei o homem que quero imortalizar.

6 comentários:

  1. Meu caro Ronaldo, que estréia! Um texto fantástico, com um final primoroso. Muitos parabéns!

    Andre, parabéns pela foto. Uma destas que congela um momento.

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  2. Gostei muito do fato do conto do Ronaldo começar bem antes do momento referenciado na imagem. A história é bonita, fluente, verossímel e gera reflexão.
    A moldura que não emoldura simplesmente existe e segue seu destino na discreta foto do Andre.

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  3. ronaldo br escreve cada vez melhor. é um conto perfeito, de nos diz tudo, da narrativa a uma moral. mostra como somos emoldurados pela vida. às vezes temos q quebrar as molduras mesmo. ás vezes temos que usá-las.
    já a imagem do andré, o renato diz tudo. instantâneo. valeu.

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  4. Parabéns Ronaldo pelo conto, algo Dorian Gray, o tempo como personagem, o retrato emitindo ou melhor emanando opinoões. Tudo partindo de um quadrado vazio captado pelo Andre, neste cabe um Mundo.

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  5. Nossa amei o conto, esse personagem presente e ausente,que sempre temos em nossas vidas. Ambos fizeram um excelente trabalho!! Parabéns

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