quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Pequenas Mortes


Imagem: Rudy Trindade

Tornou-se profissionalmente bem sucedida na arte culinária trabalhando como chef de um importante restaurante no centro da cidade. Sua vida começou a deslanchar quando saiu da casa dos pais. Um amigo lhe dizia, sabiamente, que a maturidade bem como os sinais da idade não chegam progressivamente mas sim em saltos, e ela constatava, de tempos em tempos, mudanças notáveis. Imaginava sua vida num gráfico com longos intervalos de constância entremeados por picos positivos ou negativos. Estava convicta de que havia escolhido a profissão mais acertada, e a independência financeira era um ótimo sinal de que fazia bem o que fazia. Quando não tinha certeza de que estava namorando a pessoa certa, deixava-se levar, muitas vezes, pelo conforto da estabilidade afetiva. Tinha um talento especial para esperar que situações desfavoráveis esmaecessem sem sobressaltos, sem que isso queira dizer que fosse condescendente. Ela era simplesmente uma adorável diplomata avessa a exclusões gratuitas e fortuitas. Sua certamente nada modesta cozinha era um santuário de utensílios caros onde preparava desde saborosas sopinhas de legumes até aerados suflês de rãs. Bebia destilados, colecionava tesouras, leu todos os livros de Simone de Beauvoir, freqüentava as exposições de arte dos amigos e usava enormes bolsas.
Em seu trajeto para o trabalho passava por uma praça onde um dia notou um homem deitado no chão. Ele repousava como se estivesse num macio sofá de veludo, como se não tivesse contas a pagar, como se não se arrependesse de nada, como se não tivesse medo do amanhã (nem de hoje), como se acreditasse que o público e o privado são únicos, e como se o paraíso fosse portátil. O sujeito permaneceu vários dias por lá, provocando nela reflexões que acabaram convertendo preconceitos e compaixão em empatia e admiração. Algo nele passou a atrair sua atenção, ou melhor, tudo nele passou a atrair sua atenção, a começar pelo desprendimento. O olhar era seguro quando passou a reparar nela, o modo como franzia a testa e acompanhava seu andar era sedutor, e cada expressão dele era interessante em seu silêncio previsível. Dia após dia estabeleceu-se um diálogo mudo entre eles e, finalmente, ele não saía mais de sua cabeça. À noite, quando deitada em sua cama de jacarandá, sentia o profundo espaço de seu corpo que queria preencher com aquele homem de quem não sabia o nome. Levantava a camisola até a altura do umbigo e espalhava com a mão o fluido precioso que produzia, a princípio viscoso e tornando-se ralo e abundante. Massageava continuamente com leve pressão. A amplitude era ínfima mas não monótona, e ela surpreendia a si mesma com inesperadas e sutis mudanças de direção. Depois observava mentalmente a desaceleração, como uma sinfonia pouco antes dos aplausos. Sim, estava bastante ansiosa e não sabia o que fazer com aquela paixão inusitada que transgredia sua percepção e malograva sua razão.
Numa noite quente de lua cheia, ela voltou ao parque e estacionou na avenida deserta. Caminhou sorrateiramente na penumbra até encontrá-lo, no local de sempre. Ressonava adormecido sobre a terra batida, usando sua trouxa como travesseiro. Aproximou-se com volúpia e sentou sobre ele, que despertou assustado e bruscamente se defendeu imobilizando-a. Ele logo percebeu o corpo delicado que por pouco não trucidou e imediatamente reconheceu o perfume que a identificava como um sobrenome. Em segundos colocou-se inteiramente dentro dela, e permaneceram imóveis e sem palavras como uma fotografia, apenas os corações bombeando desesperadamente pulsando sincrônicos.
Na manhã seguinte, o despertador soou implacável e ela pulou da cama. Não faltaram bocejos e perguntas sem respostas durante o banho morno e o café apressado.

Texto: Deborah Geller

13 comentários:

  1. Fantástico! Sutil, envolvente, sensual, intrigante. Um texto que leva à reflexão sobre muitas coisas....Algumas, tentamos ignorar. Até ler um texto como esse. Maravilhoso Deborah! Parabéns!Linda foto Rudy!
    Nice Pinheiro

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  2. Pequenas Mortes é o nome de uma video-instalação do Bill Viola, já exposta aqui no CCBB há muitos anos. Nela imagens fantasmagóricas apareciam muito rapidamente em meio à escuridão, como flashs de pessoas, pessoas que deixamos para trás nesta vida corrida, uma multidão de rostos e corpos sem identificação, até que, num destes clarões, vemos surgir um que nos é intrigante. Como o cego visto pela janela do ônibus pela personagem de Clarisse. é neste átimo que mora o texto de Déborah e a foto de Rudy.

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  3. Oi Deborah
    Maravilhoso o teu conto! Esse é dos melhores.
    Elegante, sensual, preciso, ousado, transgressor.
    Vc tá cada vez mais dominando a arte da escrita, adorei metáforas como "observava mentalmente a desaceleração, como uma sinfonia pouco antes dos aplausos".
    Parabéns, Helena

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  4. Debóra
    Muito show, adorei.
    Você é dezzzzzzzz
    obrigado

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  5. Desconfio estar virando fã de seus textos! :-)

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  6. Parabéns aos dois.

    Eu não entendo muito de fotografia, mas captei uma certa paz na foto.

    Quanto ao texto, Deborah, envolvente do início ao fim.

    Inté...

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  7. eu não vou comentar... eu estou comentando, mas eu não vou comentar... eu me recuso a comentar para não estragar... agora tem q ficar aquele silêncio.... e eu não estou conseguindo deixar aquele silêncio... mas não vou comentar para não estragar... se eu disser 'maravilhoso', vou estragar... então não vou comentar...

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  8. Texto e foto de prima! A Deborah é sempre uma agradável surpresa. Parabéns!

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  9. Texto com sentido e que dá sentido a vida! Sou fã da Deborah. Puta foto Rudy. Valeu aos dois.

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  10. Um momento quase lispectoriano!! Muito bom.

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  11. esta foto do rudy é de onde? parece lá atrás a cinelândia, então pode ser a praça paris, ou o passeio público ou talvez a pç mahatma ghandi. é por ali, a glória, a lapa, lugar desses personagens, desses desejos obscuros, mais obscuros quanto mais femininos. a deborah dizia q nunca havia lido clarice, mas as semelhanças são sempre muito fortes. o estranhamento através das sensações deslocadas. gostei desse "líquido precioso", a princípio viscoso, depois ralo e abundante. um momento de intimidade, na fronteira cada vez menos clara entre o público e o privado. parabéns aos dois.

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  12. guilherme
    viajou legal mas não chegou lá!!!
    esta foto é em SAMPA!!!
    no fundo a esquerda, se não estou enganmado, é o prédio do Banespa... não tenho certeza...
    abraços

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