quarta-feira, 12 de agosto de 2009

SOMBRA




Batem na porta, batem na porta, batem na porta.
Cadê a mulher ruiva, pergunto. Você tem distúrbios, diz o homem vestido de branco. Você é médico? Sim, ele responde. Entenda, ele me diz, só estamos nós dois nessa sala e você precisa abrir essa porta. Os enfermeiros estão lá fora, não é? Você tem alucinações, ele sentencia, agora, por favor, abaixe esse estilete. Eu não tenho nenhum estilete. Tudo bem, fique calmo. Meu problema é muito grave? É, ele responde. Primeira lição: nunca fale isso pra alguém que te ameaça com um estilete. Mas você não tem nenhum estilete, ele diz! Você quer me confundir, não é, doutor? Todos nós estamos confusos e cansados. Só quero saber onde está a mulher ruiva. A mulher ruiva está em toda parte. Impossível, você está mentindo. Estou, a mulher ruiva não existe. Eu já falei com ela ao telefone. Impossível, os doentes do centro psiquiátrico não podem receber ligações. Ela me passou uma mensagem estranha. Agora é você que está mentindo. A mulher ruiva disse: eu te amo, apesar de tudo. Ninguém ama um louco como você. Ela disse que amava você, doutor, não a mim. Seu problema parece piorar a cada instante, se fosse você eu abriria a porta. Fale mais sobre minha doença. Poderia passar minha vida inteira falando sobre essa doença. Comece. Já comecei. Detesto palavras paralíticas. Não se aproxime de mim com essa faca, largue isso! É um machado, não uma faca, eu digo. Socorro, socorro.
Os enfermeiros, enfim, arrombam a porta, mas ao invés de se preocuparem comigo, agarram o médico. É ele o louco – aponta pra mim – não deixe que façam isso comigo, querida. A mulher ruiva aparece atrás dos enfermeiros. Fique calmo, ela diz, não há ninguém aqui, amor. Eles irão te ajudar e todas essas alucinações desaparecerão. Os enfermeiros aplicam uma injeção no braço do médico. Uma mancha escura surge de todas as direções e engole as paredes, chão, o estilete, a faca, o machado. Aos poucos, a mancha me envolve, até que também desapareço.
Desde então, desconfio de que eu esteja curado.



Texto R. Martson e foto Srta. K

6 comentários:

  1. Parabéns Martson pelo texto intrigante.

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  2. Mais um texto de qualidade do Martson. Que bom poder visitar o Caneta. Obrigado!

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  3. Ei pessoal... ik mis je. Tô de férias. Mesmo assim, tenho passado aqui sempre. E lendo o texto do Martson não poderia de escrever: PARABÉNS.

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  4. Srta k. sou fã dos seus traballhos.Acho suas fotos ótimas.

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