domingo, 2 de agosto de 2009

Toda boa história - ou imagem - sempre tem duas versões

A bela imagem é de nosso convidado Eduardo Filipe, "Sama". Muito obrigado por ter aceito o convite e pela bela imagem!


Primeira Versão:

Aquele parecia ser um dia como outro qualquer.

Um pouco mais frio, talvez. Mas exatamente igual ao que fora ontem e, certamente, exatamente igual ao que seria amanhã.

A mulher se vestiu como se para uma missão de invisível e fundamental importância. Não queria ser vista. Queria ver, sentir, aproximar-se de tudo sem ser notada. Andar sob o sol exigiria muitas explicações.

Desejava uma vida sem legendas, sem dublagens inúteis, sem dublês. Caminhar por todos os lugares rente às paredes, na sombra, sem deixar rastros ou pistas delatoras. Existir sem fazer peso. Pousar nas coisas sem deixar digitais ou pegadas. Descobrir, investigar, ouvir, ver, cheirar. Jamais ser vista. Jamais estar onde pudesse ser capturada.

Ao dobrar a esquina, sem que se desse conta, a voz. Clara, dura, pontiaguda, feita de gume de navalhas e fel.

“Não pode ser” pensou. “Ele jamais me encontraria aqui.”

Virando-se devagar, olhos de medo e dúvida, percebeu seu algoz correndo na direção contrária. Quanto mais longe, mais poderoso. Fugindo, tomava-a para sempre.

Só teve tempo de gritar : “quem é você?”

Sempre correndo sem olhar para trás, ele respondeu: “eu sou o alfa, o ômega, todas as letras de todos os alfabetos. Sou o que é e o que jamais está. Os que me conhecem mais visceralmente, costumam me chamar de tempo.”


Segunda Versão:

Atrás de mim, o mundo e seus becos sujos.

Atrás de mim, a vida e seus esgotos incontáveis.

Ando em silêncio, ponho meus pés em rastros antigos,

Sigo sem ser notada.

À minha frente, palavras embaralhadas,

Sombras sobrepostas,

Interrogações,

O homem e seus absurdos desejos.

Cercam-me muros altíssimos,

Grafites indecifráveis, códigos de guerra sem solução.

Há mãos nas paredes,

Sangue, húmus, desolação

E um mar de nada afoga

Toda a possibilidade de existir.

Atrás de mim, todos os becos do mundo.

Atrás de mim, um espelho que chora e se estilhaça.

Dentro de mim, absoluto,

O susto de ser descoberta.

23/06/09


Os textos foram criados por Lúcia Cristina, todos inspirado na imagem acima. E, em homenagem à escritora, este post foi enviado ao blog pelas ondas wi-fi da Puerta del Sol, em Madri, Espanha, no início da madrugada da lunes madrileña.

5 comentários:

  1. O desenho do Sama: só mesmo um termo médico pode definir minha admiração. Há uma precisão técnica neurocirúrgica. Por um triz a escuridão seria total. Por pouco haveria luz demais. E ficou assim: talento demais.
    Meu elogio para as duas versões da Lúcia Cristina, que leio como um pranto em palavras pensadas, perseguição siamesa, o real onipresente, existência em ebulição e a autoconsciência em dolorosa expansão.

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  2. Parabéns Eduardo pelo desenho, como diz Déborah: na medida exata da luz, o Vermeer dos quadrinhos, já começo a identificar seus traços.
    No texto versões inesperadas para um noir existencial.

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  3. Nossa achei demais, estava sumida a um tempo, e só estou encontrando boas surpresas.

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  4. q imagem do sama, como diz o julio, digna de vermeer! e os dois prismas do "noir existencialista" de lucia- prosa e poesia se embaralhando. "o susto de ser descoberta"!
    parabéns!

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