quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Como num flash

No início foi só o barulho, um grito seco e agudo, curto, debochado. Depois, senti uma parte de meu peito esquentar. Olhei para baixo e vi o buraco. Ele jorrava um sangue quase negro numa quantidade assustadora. Levantei novamente a cabeça.

Meu pai segurando minha mão em seu leito de morte. Minha mãe gritando para que entrasse no banho. Um filme do Godard que me fez pensar por dias. Um “Comandos em Ação” sem perna supervisionando a brincadeira dos outros bonecos. Lego. Minha família, incompleta, aplaudindo minha formatura. Minha primeira nota vermelha. Meu primeiro beijo. Meu último beijo em Larissa. Minha briga com Juliana. O dia em que meu pai bateu com o carro e se sujou de sangue. O episódio do Pica Pau em que ele desce uma catarata. Minha última viagem com meu pai. Meu primeiro porre. Meu último show. Minha mãe me ensinando o Pai Nosso. O dia em que terminei com a Mariana. O nascimento do meu filho. O dia em que Larissa me expulsou de casa. O dia em que perdi minha virgindade. Playmobil espalhado pelo chão. O último disco do Ryan Adams. Beatles, muito Beatles, e muito Mozart também. Eu sentado no colo do meu pai ouvindo As Quatro Estações e regendo uma Sinfônica imaginária. Minha mãe me abraçando e prometendo que tudo terminaria bem. Meu primeiro dia no primeiro emprego. A médica ligando para minha casa e me dizendo “Seu pai morreu, quer dar a notícia você mesmo?”. O dia em que busquei meu primeiro par de óculos. Um filme do Billy Wilder que me fez rir por dias. Larissa. Juliana me cobrindo antes de sair para o trabalho. O dia em que meu filho falou “papai” pela primeira vez. Gibis da Turma da Mônica espalhados na minha cama. Dormir com um livro da Agatha Christie apoiado no peito. Minha mãe me narrando a história do Gato de Botas. Shakespeare. Borges. Wilde. Ler Cem Anos de Solidão indo para um trabalho que me fazia parecer um Buendía em Macondo. Meu pai me ensinando a tocar violão. Brubeck. Todas as vezes em que chorei com o rosto enterrado no travesseiro. O dia em que reconheci meu pai, dentre muitos pais, pelos sapatos.

O buraco começou a esfriar, a esfriar muito, a cobrir de um gelo fino meus lábios e meus pensamentos. As cores começaram a fugir das coisas, como se tivesse jogado um balde de solvente na patética tela a óleo que foi minha vida. Tudo perdendo as cores até ficar preto. Preto com pequenas gotas de azul, azul escuro, e…



Texto: Saulo Aride





Imagem: Diego Kern Lopes, inspirada no texto

7 comentários:

  1. Cara, simplesmente amei demais a imagem. Muitíssimo obrigado por esse presente, Diego!

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  2. Bacana demais. Parabéns aos dois.

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  3. diego é sempre um desafio, mas desta se inverteu, ele teve q enfrentar o saulo aride. legal esta batalha de feras q prova o coração. parabéns!

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