sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Enfim...

“Devemos matá-lo”.


Quase nada fazia sentido, quando ouvi essa frase, já de mãos amarradas e olhos vendados. Amaldiçoei o momento em que fora convidado a participar daquele blog. Na época tudo não parecera mais do que uma simples brincadeira, um divertimento para as horas de tédio.



O convite havia partido de um sujeito chamado Pierre, um poderoso advogado que trabalhava para uma Sociedade Anônima localizada perto do bairro boêmio da Lapa. Além de causídico, Pierre, era um poeta bissexto, que buscava firmar-se como artista de renome. Estávamos bebendo no restaurante Nova Igreja, em uma noite quente, quando ele sugeriu que eu participasse de um obscuro blog coletivo chamado “Transmutação”. A premissa era a seguinte: mensalmente, textos de autores participantes seriam vertidos em obras de artes visuais, como fotografias, pinturas, desenhos. Em outro momento, ocorreria a criação inversa.. A princípio, achei que era uma idéia (com acento ainda) muito boa e eu poderia exercitar a prática de contos fantásticos, tema de que gosto muito.


Comecei a desconfiar de que algo estava errado, depois de muitos meses de ativa participação, quando um dos meus contos, chamado “ A menina”, fora anexado a um foto de um corpo em decomposição. A autora da fotografia, uma jovem chamada Lívia, disse-me que um trabalho artístico único de singular criatividade.


Depois tudo tomou um rumo inesperado. Pierre me ligava quase diariamente, perguntando como estava minha produção literária. Me mandava e-mails dizendo que eu atrasara a postagem em alguns dias. Por fim, proibiu a entrada de outros participantes, alegando que uma fraternidade deveria ser exclusiva.


Talvez tenha sido no final da primavera que me afastei inesperadamente do blog Transmutações. Encontrava-me enfermo e padecia de um mal repentino que os médicos alegavam ser uma doença desconhecida. Julgava-me, entretanto, amaldiçoado.


Ao retornar do trabalho, quando passava pelo Districto Rio Branco, fui surpreendido por uma voz feminina oriunda de um beco: “Você está vinte e dois dias atrasado. Vinte dois”. A mulher que me dizia tais palavras segurava um pequeno revólver e, logo em seguida, mandou que eu entrasse em carro na esquina.


Fui levado pra um espécie de porão onde meus olhos foram vendados e minhas mãos amarradas. Algumas horas depois, um tipo de julgamento começava. Era acusado de não entregar os textos no momento certo, não participar das festividades onde se bebia sangue, de não almejar profissionalismo como artista. A sentença daquele tribunal de exceção era previsível.


Todavia, antes de ser morto, meus colegas do “Trasmutação”, falaram que eu teria a oportunidade de escrever um derradeiro texto pra eternizar minha qualidade como prosador.


Qualidade como prosador? Eu quero é ter direto a última refeição!



Texto por: R.Martson



Imagem por: Marcelo Damm, inspirada no texto de R.Martson

9 comentários:

  1. Puxa, que ótima história, Martson! E a imagem também, Marcelo! Beijos!

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  2. Gosto muito da ironia do texto, além de estar muito bem escrito. A imagem também dá a cara exata à pressão que o personagem sofre. Adorei.

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  3. Hahahahahaha!!! Sem palavras, apenas risos. :)

    Martson, ótimo texto, com a presença tradicional da Lapa, da banalização da violência e da ironia. Damm, que trabalho essa imagem deve ter dado, heim? Mas o resultado valeu a pena! "Life imitates Art far more than Art imitates Life." (O. Wilde).

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  4. Genial, debochado e inteligente. Esse texto é um tapa na burocracia das artes.

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  5. uahahaha. Muito bom. Adoro metalinguagem. E a imagem estilo HQ do Damm está espetacular. No puxa-saquismo explícito, a cada imagem que vejo do Damm, fico mais convencido de que temos um gênio entre nós.

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  6. tô com o alberto: kkkkkkk!

    ótima produção da dupla. o txt do martson é digno dos melhores da fraternidade. o desenho do damm é uma verdadeira transmutação. meu deus será q estamos todos amaldiçoados?

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