quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Entre Livros

Numa lavanderia, Sarah e Ed encontram-se pela primeira vez. Ambos estão lendo enquanto esperam que as respectivas máquinas terminem as operações de lavagem para que a roupa lavada seja transferida para a secagem. A leitura de ambos continua. Discretamente tentam descobrir quem é o autor e o título do outro. Quando ele larga o livro na cadeira para pegar o dinheiro do troco, ela aproveita para investigar e estica o olhar praticamente sem mexer o pescoço. Pois bem, ela consegue e o título é “Noite do Oráculo”, portanto de Paul Auster, um livro que ela adora pela forma genial com que o autor conseguiu mesclar complexas histórias dentro de histórias, sem confundir o leitor. Ela lembra do personagem Nick, editor de 35 anos em Nova York que, ao ser quase atingido pela fachada que descola de um prédio, entende que uma nova vida lhe foi dada e decide comprar uma passagem, só de ida, no próximo primeiro vôo, para onde quer que fosse. O acaso levou Nick à cidade de Kansas, com a roupa do corpo e a intenção de apagar o passado como se o passado fosse um objeto concreto e descartável. Sarah fica fascinada com a possibilidade de fazer o mesmo (quem não fica?) e revive esta sensação a cada vez que lembra do livro.
Ela está lendo “1933 foi um ano ruim”, de John Fante, sobre Dominic, um rapaz de 17 anos que também pretendia sumir do mapa, num outro contexto. Dominic sonhava mudar de cidade para fazer carreira como jogador de beisebol, apenas lhe faltava algum dinheiro e por isso venderia a única e velha misturadora de cimento do seu pai, um pedreiro.
O sucesso parece estar sempre a uma distância que os braços não podem alcançar, como uma miopia maligna que desafia a tecnologia. Dominic precisa conversar com Nick, pensa Sarah, precisam se conhecer. Pessoas que conhecemos mudam o percurso de nossas vidas e raramente admitimos isso. Ela resolveu compartilhar com Ed seus pensamentos.
- Conheço o livro que você está lendo. Está gostando?
- O que?
- Ah, desculpe interromper a sua leitura.
- Só pedi para você repetir, pode falar. – ele foi simpático.
- É que eu notei o livro que você está lendo, “Noite do Oráculo” e ...
- Também notei o seu “1933”! – disse ele.
- Ah, é sempre assim, queremos saber o que está ocupando a mente de quem está por perto. Eu já li o livro que você está lendo e esse livro me diz muito. Sabe, olhei para você lendo o seu livro para tentar descobrir que tipo de pessoa você é.
- E o que descobriu? – Ed franziu a testa.
- Nada, quer dizer, algumas coisas... que você se concentra mesmo, que realmente consegue abstrair o ambiente, que tira os olhos do livro de repente e enxerga através das coisas... que não tem máquina de lavar em casa...
- Também já li o seu “1933” - disse Ed orgulhoso.
- Isso é coisa de leitores apaixonados... por livros, claro. Acha que alguém que não dá a menor bola para livros, vai se interessar pelo que alguém está lendo? De jeito nenhum.
- É mesmo, não tinha pensado nisso.
- Adoro ouvir alguma coisa que nunca pensei, e você? – Sarah quis saber.
- Quando alguém me diz alguma coisa que nunca pensei, não quero perder essa pessoa de vista. Mas às vezes, ouvir o que nunca pensei me dá angústia, como se justamente aquilo que eu não sei, representasse toda a ignorância do mundo.
- Então - continuou Sarah - você já leu o “1933”. Gostou?
- Muito.
- Não acha que nossos livros tem personagens que teriam muito o que dizer um para o outro?
- Não sei, é mesmo? Como quem? – perguntou Ed.
- Como o seu Nick para o meu Dominic.
- E o que eles conversariam?
- Nick diria para Dominic que ele não deveria ter devolvido o misturador de cimento que quase roubou do pai. Deveria ter ido até o fim com o projeto.
Dominic responderia que ele, Nick, realmente não sabia nada sobre como ser correto, uma vez que tinha dito para a esposa Eva que ia comprar cigarros e fugiu para outra cidade. (Nesse ponto a roupa seca já está sendo dobrada) - Sarah continua - Nick ficaria irritado por Dominic, um atleta, não ser capaz de pensar estrategicamente, ou seja, focar no resultado. Nick diria que portas têm que ser batidas e não pelo vento...
- É, você tem razão, eles têm algo em comum! – Ed concordou.
- Bom, já terminamos nossas tarefas – ela diz.
- Foi rápido, né?
- Foi sim.
- Quando é que você volta aqui? – Ed tinha intenções.
- Nem faço idéia. Quando juntar roupa suficiente.
- Posso saber aonde você vai agora?
- Vou ao mercado comprar umas maças para fazer uma torta.
- Adoro torta de maça!
- Então anota aí meu endereço e aparece lá pelas nove.
- Nick vai conversar mais com Dominic? Tenho umas ideias do que eles poderiam discutir. – Ed disse e estava entusiasmado mesmo.
- Bem, depois que os autores nos apresentam os personagens, os personagens passam a ser nossos, dos leitores, como marionetes, como modelos.
- Será que podemos mudar o rumo das histórias?
- Acho que podemos mas não sei se devemos. Parto da premissa de que os autores predestinaram, como Deuses. – Sarah já ia saindo.
Ed a seguiu. - Posso ir com você comprar as maças?
- E vem me ajudar a fazer a torta também?
- Acho que somos personagens de alguma história...
- Também acho. – e ela sorriu.

Texto por: Deborah Geller


Foto de Andre Korenblum inspirada no texto.

9 comentários:

  1. Que texto primoroso! :)))
    Um diálogo de duas pessoas cultas (que somente poderia sair de uma mente tão culta como a de Deborah) que não perde a naturalidade. Aliás, aguardar a roupa ser lavada em uma lavanderia é um ótimo momento para se ler e para se conhecer pessoas. A grande graça é alguém, ao escrever, lembrar que isso existe. E que pessoas normais leem, falam, conversam e flertam. Deborah humaniza a literatura, traz pessoas normais à vida com suas palavras sem com que se perca o quê de divino do dom da literatura.

    "Será que podemos mudar o rumo das histórias?" A resposta de Sarah é sábia, mas L. F. Veríssimo é um mestre que nos mostra que podemos, sim, mudar e imaginar outras rotas do que foi "predestinado" na mente dos autores. :)

    É o que André fez na foto. Nela, ele já casou livros e vidas numa estante de armário. Livros de Sarah e de Ed. A foto está boa, o desfoque intencional é perfeito para esconder os títulos dos livros. Apenas sinto a pena que o texto, na minha singela opinião (e não a tome como crítica, meu caro), poderia ter sido mais bem aproveitado com uma ida a uma lavanderia. Com livros, uma cesta de livros. Mas o desfecho fotográfico foi bom. Digno de um texto primoroso. Parabéns a ambos pela bela obra coletiva.

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  2. Eu gosto tanto da Deborah e dos seus "sentimnentos escritos", que tenho receio de não saber expressar o quanto me agrada ler seus textos. Já me declarei fã da Danielle Costa. E, com igual prazer, serei seguidor de Deborah Geller. Parabéns!!

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  3. Querida Deborah. P A R A B É N S ! ! ! Você é uma surpresa maravilhosa!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. "Acho que somos personagens de alguma história", sim a história deste blog que se tornou tão importante para mim, justamente por ter excelentes colaboradores como a Déborah, com seus textos que à primeira vista parecem quase pueris mas que nos conduz exatamente para o fim que ela determinou, como o fazem os grandes.

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  6. eu acho q sim, podemos mudar as histórias, q os personagens é ditam os rumos dos acontecimentos e os autores é q os seguem e q todos nós somos mais personagens q autores de nossas próprias vidas. mas talvez eu seja muito otimista ou voluntarioso. predestinação é um encontro entre necessidade e acaso. boa reflexão q a déborah nos conduziu.
    q bela foto do andré, bela em seus rigor e austeridade.

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