quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Meu Filho Nasceu de Bigodes

Meu filho nasceu de bigodes, eu disse pro doutor, e ele me respondeu que Tudo bem, normal, acontece, mas eu ressaltei Olha, não é buço, é um bigodão, ruivo, de homem, Não precisa se preocupar, está tudo bem, me falou com uma tranqüilidade que nunca vi, nem com meus florais de Bach, então pensei É, pode ser, transgênicos-cigarros-bebidas-fast food-poluição, tanta porcaria dentro das pessoas, sabe-se lá o que é que tá indo pro DNA dos nenenzinhos, não é mesmo, mas, peraí, falei pro médico, Tudo bem bigode ser meio normal, mas não é só isso. Meu filho nasceu de bigode e, quando tomou a palmada pra chorar, não chorou. Em vez disso, fez um olhar blasé e disse Não dá pra acreditar, mais de dois mil anos desde Hipócrates e ainda não conseguiram inventar nada mais civilizado que um tapa... ai que cansaço do mundo..., Olha, isso sim me preocupa, comentei. Mas o médico disse que a criança era saudável, isso é o que importa, essas eram preocupações menores. Tudo bem, né, o homem estudou um monte pra me dizer essas coisas, quem sou eu afinal de contas?


Aí, já em casa, fiz o seguinte raciocínio: meu filho nasceu de bigodes – e que bigodão de marechal francês – e, ainda por cima, já sabe falar, donde só mamar, um arroto e fraldas limpas talvez não seja suficiente para pô-lo para dormir. Matutado isso, apesar dos três dias de idade, achei que o pequeno já estava crescidinho pra curtir uma historinha até pegar no sono. Tive que ligar de novo pro pediatra, porque eu comecei Era uma vez uma linda princesa, quando ouvi Ah, pára, não tem um Kafka, um Joyce, não? E, sinceramente, se quiser que eu durma, é mais fácil me trazer um Lexotan ou uma boa dose de uísque. Importado. 12 anos. E relatei isso tudo pro doutor, e de novo recomendaram calma, É comum se assustar nos primeiros dias, curta mais seu bebê, não fique só se preocupando. Logo você acostuma.


Esqueci de perguntar se podia ter dado o uísque. Dei, mas com um pouquinho de água, que ele ainda é uma criança. Mas que criança danada de esperta, porque perguntou se eu achava que ele não reconhecia um puro scotch e pediu Por favor, troca esta dose e, dessa vez, sem água, gelo ou brincadeiras. Me assustei, né? Nunca tinha visto disso. Nem do que vi no outro dia de manhã. Fui dar papinha ¬– ele perguntou se essa casa não tinha bacon nem café –, mas estávamos no desjejum, quando meu filho alisou os bigodes e disse que precisávamos conversar seriamente. Eu disse Claro, diálogo e conversas francas são a chave para uma boa criação – não sei porque, começava a tentar demonstrar pra ele minha maturidade. Pois, dito isso, meu menininho reclamou que estava se sentindo sufocado no meu quarto, Quero meu espaço, minhas coisas, minha intimidade e, além do mais, não agüento roncos. Dá pra acreditar? Cogitei ligar para o médico e dizer olha aqui doutor..., mas, enquanto eu pensava no que relatar, o garoto bateu palmas e perguntou onde estava o caderno de economia do jornal. E mais um pouco de café preto, por obséquio, completou.


E não te conto o que aconteceu à tarde. Fui pegá-lo no colo, apesar dos protestos, para um passeio de carrinho – quem não sonha fazer isso? –, mas ele veio com Pirou, eu não vou passar essa vergonha, me larga, já basta o suplício lá na maternidade, aquele monte de enfermeira e véia coroca me babando e bilubilubilu atrás do vidro, eu não quero isso de novo, um pouco de paz seria pedir muito? Por essa não esperava, então falei Olha, querido, só queria dar uma voltinha, tomar um sol, mas o danado é enfezado, quando crescer vai ser mandão pelo jeito, nem me deixou terminar, Quer dar um passeio, vai, pode ir, ninguém te impede, só me deixa, por favor, ali na poltrona, e bota no canal de notícias, o parto, o trauma pós-parto, ah, ainda estou exausto. E estava mesmo, acho que nem assistiu o primeiro programa e pegou no sono. O que me deu tempo pra organizar meus pensamentos sobre isso tudo. Ai do doutor que me diga que isso tudo é normal. Aliás, vou ligar pra outro médico e pedir uma segunda opinião. Vai ser bom. Vou contar tudo, tim-tim por tim-tim, pra ver se tá tudo bem mesmo com essa criança, tão avançada, gente, mas não agora, que meu filho acabou de me chamar ali na poltrona, onde dormiu. Tá dizendo que eu já fiquei tempo demais na frente do computador e que assim a janta vai atrasar.


Texto por: Reginaldo Pujol Filho (perfil)


Photobucket


Animação por Johandson Rezende (perfil), inspirada no texto.

10 comentários:

  1. Nossa que fantástico esse blog realmente é fabuloso!!! UM SUPER PARABÈNS PARA A DUPLA!!!

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  2. É legal ver uns lances mais contemporaneos como a video-arte do Julio Rodrigues ou, agora, a animação como a do Johandson. Parabéns!!! O texto do Pujol também é bom!

    Mudando de assunto, gostaria de pedir aos administradores do Caneta pra darem uma olhada nessa questão dos comentários. Nas últimas vezes que tento deixar meus recados, não tenho conseguido ou tenho que fazer a rotina mais de uma vez. Abração e obrigado!!!!

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  3. Que bacaninha a animação. Parabéns aos dois pelo excelente trabalho!!!

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  4. Parabéns pela animação e parabéns pelo texto.

    Quero ratificar o comentário do Pédro...Tenho tido a mesma dificuldade em postar meus comentários... Pode dar uma olhada nisso Renato Amado?

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  5. Texto e animação muito bons! Parabéns aos artistas.

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  6. Agradecemos a todos pelas palavras. Quanto à dificuldade apresentada para comentar, infelizmente o sistema do blogspot apresenta esse problema com freqüência. Contudo, na segunda tentativa sempre se consegue postar o comentário.

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  7. Muito, muito engraçado!
    Também adorei a animação do Johandson!

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  8. o txt insólito do pujol é ótimo (mas cadê a mâe?) e está mais q bem representado na animação como sempre genial de johandson, o filósofo das animações. gostei do resultado conjunto q já sugere futuras conjunçoes de formas literárias e imagens.

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