segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sem Título

Olhava para minha infância e via todas as letras bem alinhadas, num azul desbotado, porém belo: TV TUPI. Aqueles pedaços de madeira, ou seja lá qual fosse o material, eram testemunhas e provas documentais da história. Mas aos poucos eles foram sumindo. A primeira letra a debandar foi o “V”, que saiu sem se despedir, apenas deixando um breve bilhete: “Vou-me”. E foi-se.
Em seguida, desapareceram os tês. Ao que dizem, cansaram da vida de ruína de patrimônio histórico negligenciado, juntaram-se a um “A” que vagava perdido pelo mundo e fundaram uma multinacional de grande sucesso: AT & T.
Aos treze anos de idade, vi a memorável TV TUPI se transformar num assignificativo “UPI”. O prédio já estava a ponto de desabar desde minha tenra infância, as letras eram as únicas sobras em estado apresentável da histórica casa e agora restavam poucas dentre elas. A TV TUPI de tantas histórias, tantos Repórteres Esso e telenovelas. Ah... a Tupi, sinto saudade dela mesmo ainda não existindo durante sua inigualável trajetória. Agora, um “UPI” era tudo que restava da sede carioca do primeiro canal de televisão deste país, do antigo canal seis. Não podia permitir que este resto de memória se perdesse. Subi, com uma mochila nas costas, o muro da casa em ruína pela Avenida São Sebastião, que, a despeito do seu prenome, trata-se de uma ruela estreita e sem saída por onde mal passam dois carros. Caminhei sobre o teto e desci para o parapeito, ficando em frente ao meu precioso “UPI”. Abri a mochila, peguei uma rede e argamassa. Prendi muito bem o emaranhado de náilon em volta do resto de história. Pronto, agora tinha certeza de que as letras não fugiriam.
Entretanto, qual não foi minha surpresa no dia seguinte pela manhã, quando me deparei com a rede rasgada e a ausência do “U”? Interroguei um mendigo que vivia sob a antiga construção, que no centro tem um arco, por baixo do qual passa uma avenida. Viver naquele lugar era, sem sombra de dúvida, um ato de extrema coragem, afinal aquele troço podia desmoronar a qualquer momento. O homem me respondeu que durante a madrugada o “U” ficara contorcendo-se, debatendo-se e jogando-se contra a rede. Um transeunte, vendo o desespero da letra, apiedou-se, foi em casa, buscou uma tesoura, subiu no telhado da construção e libertou a letra. Revoltei-me com a atitude do coração mole. Apenas um irracional nos deixaria com aquele “PI”! Uma madrugada fora suficiente para destruir meu primeiro plano. Percebi que teria que me doar com mais afinco à causa se quisesse salvar o que o Poder Público, em conluio com o tempo, estava em vias de destruir.
Na primeira oportunidade em que passei pelo meu quarto, abri o armário e procurei pelo empoeirado vinte e dois do meu avô. Prendi-o no cós da calça, peguei um velho e carcomido saco de dormir, coloquei-o dentro da minha mochila, escalei o mesmo muro e fui para junto das letras. “Muito bem”, disse, “acabou a farra, ninguém mais escapa! Farei guarda a noite toda, todas as noites. Qualquer movimento além da dilatação leva bala!” O dia não me preocupava, pois sabia que o movimento de carros e pessoas inviabilizaria uma fuga.
Nas oito primeiras noites tudo transcorreu bem. Graças ao controle que tinha sobre meu corpo, adquirido após anos de meditação zen-budista, mantinha o sono leve, de modo que acordava com qualquer barulho ou movimento. Bastava uma dilatação um pouco maior numa noite quente para que eu levantasse com a arma engatilhada e apontada para o suspeito, numa fração de segundos. Contudo, este estado de constante alerta não me permitia sonos reparadores. E foi isto que deu ensejo à história da nona e fatídica noite.
Por volta de uma da madrugada, meu corpo cansado se aferrou a um profundo sono. Sequer sonhava, meu estado de total exasperação não permitia tal gasto de energia. O coração batia lenta e fracamente, minha respiração acompanhava-lhe o ritmo. Um leigo podia julgar-me morto. Percebendo o erro fatal, “I”, que apesar de grande como as demais letras, era minúsculo (não o represento aqui desta forma para realçar sua imponência), utilizou seu pingo para cutucar “P”, que, assim como eu, dormia profundamente. Assustada, a letra de Pedro, Paulo e tantos outros nomes, deu um pequeno pulo, incapaz de retirar-me daquele estado de hibernação. “I” apontou para mim com seu pingo. Ao notar a situação em que se encontrava o agora patético guardião, “P” não resistiu e me deu uma cabeçada na boca do estômago. Meu metabolismo se acelerou rapidamente e acordei arfante, sem qualquer noção do que se passava ou onde estava. Foi quando “I” empurrou-me para fora do parapeito, fazendo com que eu despencasse, ainda ofegante, na Avenida João Luiz Alves. Ao atingir o solo, parei de tentar inspirar, vi as duas últimas letras do monumento se embrenhando no mato do Morro da Urca, enquanto as estrelas me convidavam a compartilhar-lhes a eternidade. Foi quando percebi que havia entrado para a história como o único homem assassinado por um par de letras.



texto Renato Amado

vídeo Júlio Rodrigues

21 comentários:

  1. Mais um trabalho excelente do Julio Rodrigues. O texto do Renato Amado é bom demais, mas é super dificil. Achei incrivel o paralelo que o Julio fez entre a "falta" das letras e o passar dos anos pelo seu "personagem" no video. Parabéns aos dois.

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  2. Muito bom mesmo. O texto é bom. O video nem se fala. Ótima parceria. Eu nem vi o paralelo que o Pédro comentou, como importante. Achei o "zapear" muito inteligente, como recurso sonoro. Parabéns!!!!

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  3. Sem qualquer tipo de julgamento leviano, acredito que este é o melhor texto do Renato Amado. O Julio, sabiamente, realizou mais um excelente trabalho artistico. Parabéns à dupla.

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  4. Otimo post. Parabéns ao Renato e ao Rodrigues. É fácil sentor o cuidado que ambos tiveram na execução de suas obras. Até a nomenclatura foi bem escolhida: "SEM TÍTULO". Excelente rapazes.

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  5. Concordo com a Agar. Super sacada essa de usar o "zapear" da TV como sonorização para o vídeo. Eu senti que o Julio Rodrigues aproveitou o texto do Amado para fazer uma critica à televisão. Será? abraços aos dois.

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  6. É incrivel como a arte faz com que cada pessoa tenha o seu ponto de vista e, de certa forma, escolha o que quer ver. Excelente texto, excelente video, excelente comentarios. Parabéns à equipe no Caneta.

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  7. Parabéns pelo post. Super legal ambos os trabalhos. Sucesso ao blog.

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  8. Garotos, bom trabalho. Mauro, concordo com o texto d'"as letras de Tupi" ser um dos melhores da mente doentia do Renato. A sua vivência dá um toque especial no texto.

    Julio também faz um vídeo interessante, uma crítica excelente à "escravidão" de algumas vidas (muitas desde à época das falecidas Tv Tupi e da Manchete) ao ecrã do televisor.

    No entanto, com todo carinho aos dois, apesar de serem duas boas obras, não consigo as ver como um conjunto, uma única obra. Vejo-as como duas boas obras com a mesma inspiração, mas não como uma obra conjunta. Na minha opinião, a única falha, pois o trabalho de ambos está exemplar. Meus parabéns.

    Abraços.

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  9. Excelente o video do Julio. Mais uma vez ele consegue provocar o espectador. Mais uma vez ele nos excita a pensar, algo tão dificil hoje em dia, com a massificação.

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  10. Também acho que SEM TÍTULO é o melhor texto do Renato Amado. Quanto ao video do Julio, penso que tá na hora dele fazer algo menos bom, assim dando chance pra gente falar mal. rsrsrsrsr. Parabéns aos dois. EXCELENTE!!!

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  11. Parabéns ao Amado e ao Rodrigues. Excelente texto, extraordinário video. Gostaria de pedir licença ao Guilherme para, com todo carinho e respeito, ir em desarcordo ao seu comentario acima. Acredito, Guilherme, com absoluta certeza, que a imagem tem vida e força própria. Por mais que o artista visual faça sua obra calcada no texto do escritor, a imagem SEMPRE falará sozinha ao espectador. Por isso, há séculos, afirma-se sobre o poder da imagem. Abraços a todos os amigos.

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  12. É verdade Fernando. Estudiosos como a brilhante portuguesa Ivone Ferreira já comprovaram, cientificamente, que as imagens têm papel preponderante no estimulo de emoções. E, Antonio Damasio, neurocirurgiao internacional, afirma que o nosso cerebro faz, antes de tudo, um intrepretação, predominantemente visual.

    Por tudo isso, quero sinceramente agradecer ao Renato Amado pelo belo texto. E ao Júlio por me fazer pensar a cada post. Pela possibilidade de pesquisar e querer entender mais desse mundo pra mim tão distante que é a video-arte.

    Obrigado também à equipe deste Caneta, Lente e Pincel. Tenho sido mais feliz a cada visita!!

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  13. Frases soltas e imagens aleatórias tão rápidas que tangencio e posso perceber como uma corrente elétrica imaginária de tempo e memórias. Julio como sempre brilhante em tudo que faz.
    O conto das letras vivas é muito divertido e visual. Excelente texto do Renato!

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  14. O video é realmente brilhante! E, na minha opinião, o texto foi feito para o video e o video para o texto. Mesmo quando não achando relevancia nisso. Abraços.

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  15. Amei o texto e o video. Parabéns meninos.

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  16. Gostei muito do vídeo e achei o texto ótimo,muito divertido.Parabéns!

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  17. fantástico, brilhante o txt do renato, q nos mostra como os signos podem ser esquivos e fugidios e ainda assassinos! e no maravilhoso video do julio, numa cacofonia de mil referencias, o rosto torna-se o signo mais fugidio de todos, mas ainda essencial. parabéns a dupla!

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  18. Julio Rodrigues, você é realmente MUITO talentoso. Parabéns!!!

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  19. Ótimo video. Inteligente e sagaz.

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