quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Assombro

Imagem: Pilar Benet Domingo



Quando dei por mim, ela estava ali. Num primeiro momento, imóvel e obscurecida, quase se esquivando entre os papéis e livros sobre minha mesa. Depois, pensei que ela me imitava, procurando arremedar meus gestos cansados, simulando minha vida como um second life entediante e persecutório.
Voltei para o Cortazar em minhas mãos. Li um trecho que dizia “e o que o ogro tem a ver com isso?”, repeti em voz alta e olhei para ela, pensando no que o ogro tinha a ver com aquilo e percebi que ela me encarava de modo fixo. Buscava nas minhas feições algum entendimento, uma compreensão sobre mim, sobre ela própria, talvez sobre o ogro, isso ou aquilo?
Pouco a pouco, achei que seu desejo era apenas de rompimento e percebi que ela se divertia às minhas custas. Sempre que eu trabalhava, ela descansava. Enquanto eu escrevia, ela chorava. Enquanto eu chorava, ela lia. Enquanto eu lia, ela pensava.
Sem dúvida, à medida que eu vivia, ela vivia.
Quando eu me perdia, ela continuava ali, sonhando. Enquanto eu sonhava, ela questionava e, pessimista, pensava no que poderia dar errado. Daí eu desistia, e era ela quem me estimulava a prosseguir. Mas quando eu dava um passo pra frente, ela dava dois para trás. E eu tentava ser impulsiva, enquanto ela falava de cautela.
Me apaixonei, ao passo que ela se queixava de solidão. Se eu queria comer doce de leite, ela queria waffle com manteiga. Eu bebia água mineral, quando ela só queria coca-cola. E bastava eu colocar um disco do Chico Buarque que ela cantarolava uma música do Caetano.
Tudo daria certo, eu pensava, mas, daí, ela me fazia crer que o fracasso me aguardava. Quando eu me achava derrotada, ela pensava em triunfar. No frio, ela sentia calor. No calor, queria se agasalhar. Eu estava exausta e a via dançar, incansável nos seus movimentos, às vezes inesperados, mas às vezes metódicos, como eu nunca fui.
Aborrecida, perguntei para ela:
Se eu morrer, o que você vai fazer?
Ela respondeu, imitando meus gestos, obscura feito a noite:
Se eu morrer, o que você vai fazer?
Essa pergunta me assombrou durante algum tempo.
Porque era certo que à medida que eu vivia, ela vivia.
Mas percebi que mesmo enquanto eu morria, ela ali, vaga e invencível, continuaria vivendo. Livre de mim.


texto: Danielle Schlossarek

7 comentários:

  1. Parabéns Pilar. Parabéns Daniele.

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  2. Um belo texto da Dani e uma interessate imagem da grande artista Pilar, que provavelmente usou técnicas que eu nem imagino, mas que seria fascinante compreender.

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  3. riscos horizontais coloridos sobre uma superfície rugosa e uma sombra q estende um braço como o q? um gesto de dança? um apontamento de direção? em sua simplicidade, q imagem misteriosa esta da pilar! é mesmo um assombro, como no txt da dani. a sombra q nos acompanha, q vive à medida q vivemos (como ficou legal este efeito repetitivo!), mas q tem sua própria autonomia, sua vida q nos excede e ultrapassa nossa morte, gerando obscuros, vagos e invencíveis sentidos para além do esquecimento.

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  4. Curti para caramba esse texto. Uma boa representação desse diálogo interno que temos conosco, muitas vezes contraditório. Muito bom!

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  5. Ficou uma combinação perfeita, as duas estão de super parabéns!! O texto é um diálogo super instigante.
    Parabéns para a dupla.

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  6. Caramba ! uma situação ótimamente asombrosa Como A Vida Mesma ! adorei , ótimo mesmo . a vida como ela é , e nós nem desconfiamos , e por isso somos tào confiantes ! Viva a Arte da Expressão !

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