sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Comeback Special



Música: Diego Kern Lopes

Lucas, o Souzão tá mal. Foi internado ontem após um infarto. Estou marcando de reunirmos Os Baitas lá no CTI, dar uma força pro nosso amigo e planejar um comeback pra quando ele sair dessa. Abraço, Murilinho.


E foi assim, na linguagem seca dos e-mails, que percebi o fato azedo escondido sob o entusiasmo plastificado do pior baixista de todos os tempos. O Souzão, vocalista de um sonho defunto chamado Os Baitas, estava morrendo.

Sim, morrendo. Na hora em que li o e-mail senti aquele ardido gelado no esôfago que a gente tem quando vê que uma pessoa querida vai morrer. Não sei de onde o Murilinho tirou esse otimismo todo. Vai ver não conversou com o médico, falou apenas com a futura viúva, e a gente sabe que os médicos adoram mentir pras futuras viúvas e pros futuros órfãos. Vai ver ele está com medo de perceber que, mal ou bem, estamos todos à beira da morte. Ou melhor, estamos todos mortos, perambulando sem sonhos, sem sucessos... Sem nada, pra falar a verdade.

De qualquer jeito, troquei as cordas da guitarra, vesti meu blazer indigo blue e fui visitar o Souzão. Não podia entrar. O horário de visita era só meia hora mais tarde. Tudo bem, pensei, é o tempo do Murilinho e do Baqueta chegarem. Prefiro entrar lá com eles. Vai que o Souzão tá acordado, de boca aberta, magricelo, pálido, abatido… Vai que ele resolve me dar oi, me perguntar da vida, me dizer que tá melhor hoje do que ontem… Eu vou chorar. Porque depois dos 50 a gente tem uma diarréia nas glândulas lacrimais; eu choro até vendo pôr-do-sol pela TV, o que vai ser de mim seu eu vir um amigo segurando a mão da morte?

Os dois outros integrantes chegaram, e o Baqueta propôs a viadagem de entramos todos de mãos dadas. Ainda bem que foi ele que sugeriu. Debochei bastante da idéia, mas estava louco pra entrar de mão dada com alguém, quiçá abraçado, com a cabeça enfiada na parte de dentro do casaco dele gritando “mamãe, me tira daqui”. O Murilinho puxou o trem e entrou primeiro. Depois entramos todos. O Souzão estava lá, apagadão, cheio de aparelhos e apitos. O médico disse que a situação era estável. Eu achei isso péssimo. Se ele está estável ele não está melhorando, pensei.

O Murilinho achou que estável significava “alta até domingo” e nos convidou a fazer uma maratona de ensaios. A banda tinha que estar afiada pra que, quando o Souzão saísse, fizéssemos um baita show em homenagem à sua melhora. O Baqueta deu uma de babaca e perguntou, "E se ele não puder mais cantar?" Eu nem quis falar nada, pra mim o Souzão estava ali trocando idéia com a morte em pessoa, mas o Murilinho se irritou com o comentário e chamou o Baqueta de velho. Aí eu tive que lembrar que todos estamos velhos mesmo, e que depois de certa idade a vida consiste em freqüentar velórios se preparando para o seu próprio.

Silêncio de uns dez minutos.

Chegamos no estúdio da casa do Baqueta. Tinha um pôster meu solando o nosso maior sucesso, “Minha um dia ainda”. Tinha uma foto do baqueta de boca aberta, e outra do Murilinho tentando ser charmoso com um cigarro no canto da boca. Mas o retrato que quase infartou o resto d’Os Baitas foi o do Souzão, novinho, com a mão estendida em direção a uma platéia ensandecida. Aquele era o Souzão. Qualquer coisa que saísse do hospital que acabamos de visitar seria, no máximo, o Sr. Augusto Mendes de Souza. Nunca o Souzão. Nunca mais.

Ensaiamos por 7 dias, quase que sem intervalos pra nada. Comíamos tocando e por duas ou três vezes quase me urinei nas calças pra não perder a vibe do negócio. A mulher do Souzão tentava nos animar, dizendo que ele continuava estável, ou seja, pálido e boquiaberto na cama.

Fechamos o playground do Murilinho para o show. Convidamos amigos que eu nem lembrava que existiam. Ressuscitamos via internet o nosso fã-clube e descobrimos que exatamente 87 internautas tinham feito parte dele. A mulher do Baqueta lavou e engomou o lençol que colocávamos atrás do palco. Tudo pronto.

Quase tudo.

E na semana seguinte, Os Baitas, todos de preto, fizeram o seu comeback. Instrumental. Os 63 fãs presentes se encarregaram de balbuciar alguns trechos das letras mais famosas. Saímos dali para o cemitério para realizarmos o último ato roquenrol de nossas vidas: enterrar os instrumentos bem do lado da lápide do Souzão. Vai em paz, amigo, e prepara o estúdio pra nós no inferno.

texto: Saulo Aride

4 comentários:

  1. Parabéns Saulo e Diego: EXCELENTE post! abraço

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  2. de todos aqui no clp, o diego k lopes talvez seja o mais surpreendente e mutante. ele vai do dissonante ao lírico, do expressionismo surreal ao experimentalismo pop. suas obras são sempre um desafio q exigem do escritor q se supere e q seja tbm surpreendente, q faça de seu txt um pequeno laboratório de invenção. o multiversátil e talentoso saulo aride talvez seja seu melhor correspondente, procurando em seus contos sempre formas inusitadas para novas direções temáticas. aqui, para ilustrar este musak incidental do diego, ele faz uma historieta aparentemente banal ser cortada pela compreensão melancólica da idade e a chegada infernal e inescapável da morte.

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  3. É por isso que sou fã declarado do Saulo Aride! :) E Preger, excelente comentarista, ttem toda razão sobre o Diego.
    Parabéns, Diego!; Parabéns, Saulo! :)
    Fico feliz ao ver o CLP unindo não só imagens e palavras, mas tb música.

    E prometo visitar mais... Sei que ando sumido, mas por boas causas! :)

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