sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Confissões de Laura Craft


Imagem: Marcos Sêmola



À minha direita está o meu marido Lucas, o corno. À minha esquerda Marcelo, o amante. Eles são melhores amigos. Nós três formamos uma banda que mistura metal melódico a música flamenca. Eu não tinha caso com Marcelo quando começamos o grupo. Mas éramos um trio que convivia muito, com grande cumplicidade e intimidade. Quando estes dois fatores se juntam acho natural rolar sexo. Transa só não acontece por falta de intimidade, seja porque uma pessoa não se sente à vontade despida e entregue à outra, seja porque tem vontade de fazê-lo, mas a timidez impede. Havendo uma ligação sincera e profunda caem as barreiras; por que manter exclusivamente a sexual? Sinceramente, não entendo como até hoje não rolou nada entre eles dois. Bem, talvez tenha rolado e eu não saiba, assim como Lucas nunca soube de mim e Marcelo. Na verdade, eu gostaria que ele soubesse, já que considero totalmente natural. Contudo, Marcelo insistia para que eu não dissesse, que o Lucas poderia não sentir as coisas desse jeito e coisa e tal. No entanto, essa obrigação de manter segredo do meu próprio marido, o meu grande amor, com quem tenho enorme cumplicidade, estava me matando. Disse isso para meu amante, que não tinha mais como guardar sigilo e enganar a pessoa que mais amo, que falaria com ele e seria compreendida. Mas não fui compreendida sequer por Marcelo, que se exasperou, começou a gritar que eu não podia contar, que não me dava esse direito. Fiquei puta, claro! Desde quando preciso de autorizações? Disse que revelaria e ponto final. O homem entrou em frenesi, partiu para cima de mim, me chamou de “sua piranha, vagabunda!” e outros adjetivos de equivalente valor semântico. Fiquei, evidentemente, machucada, psicológica e fisicamente. E ainda tive que suportar - “diz pra ele que você foi atropelada, porra! Te vira, tua égua!” - uma pérola de recomendação. Mas eu não queria mentir ainda mais para Lucas. Decidi terminar o relacionamento com Marcelo e na hora “h” de me abrir com meu esposo “fui atropelada, meu amor, em frente à Cobal”.

Sentia muita falta do seu corpo. Do rosto colado ao meu... do cavanhaque roçando minha nuca... do seu... deixa pra lá. Procurei um terapeuta, pois estava muito infeliz, e ensaio após ensaio, show após show, me esforçava para não agarrar o objeto de desejo do qual inacreditavelmente eu decidira me afastar. O terapeuta não era um homem bonito. Tampouco sei se era interessante, já que ele quase não falava, entretanto o fato é que se tornou um substituto e logo as sessões deixaram de ser psicológicas para serem fisiológicas. E não me refiro a política.

Como eu queria o psicanalista mais e mais, no entanto só podia tê-lo quarenta e cinco minutos por semana, resolvi mudar de psicólogo. Para não cair em tentação desta vez, procurei uma mulher. E bem feia e enOrme de gOrda. Chamava-se mÔnica. Foi então que, com ajuda desta profissional, descobri ser uma dependente de amor e sexo. Acho que isso é um eufemismo para ninfomaníaca. Passei, portanto, a freqüentar um grupo, os “Dependentes de Amor e Sexo Anônimos” (DASA). Lá havia um homem muito admirado e respeitado. Ele era um paradigma, pois se livrara do vício e estava há três anos sem sexo. Achei isso abominável! Saí do DASA e concluí que se o meu problema era necessitar de sexo a todo instante, tinha um marido e ele deveria me dar o que eu precisava. Pelo bem de sua testa. Passei a exigi-lo três vezes ao dia. Olhe novamente para a foto. Ela foi tirada há dez anos, no auge do meu envolvimento com Marcelo. Lucas, à minha direita, hoje está com o físico de Marcelo. Já este... está freqüentando os vigilantes do peso.


Texto: Renato Amado.

2 comentários:

  1. Interessante a imagem do Sêmola com a nitidez da imagem feminina ao centro e a sombra das silhuetas masculinas mais atrás. No escrachado conto do Renato foi muito boa ideia inserir uma referência à foto no tx. laura craft é um ótimo título, meio david lynch. aliás a foto do semola tem um mistério meio sinistro como os filmes do diretor...

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