sábado, 3 de outubro de 2009

ELE


Imagem: Rudy trindade


Trabalhava duro. De segunda a sábado, debaixo de chuva ou de sol. Não era que não gostasse. Sua mulher tinha problemas com a bebida. Seus filhos tinham problemas com a escola – os que iam pra escola, porque dos sete um ainda não tinha idade e outros dois, os mais velhos, tinham largado os estudos pra ajudar ele e a mãe no trabalho. Não era mesmo que não gostasse. No campo, sua mente ia pra longe, pro mundo que via na TV, e isso era bom. Aquela pequena TV preta e branca, do tamanho de uma bandejinha, só que gorda. Tão diferente da TV da novela. A televisão da casa da mulher da novela era enorme e fina, parecia uma folha de papel, só que aumentada umas trinta vezes. O campo era bom mais ou menos por causa da televisão da mulher da novela.

Naquele dia tinha acordado mais tarde do que o normal. Ficara mais tempo trabalhando no dia anterior e resolveu – nem sabia de onde tinha tirado essa presença de espírito, esse cuidado com ele mesmo – mas resolveu levantar uma hora mais tarde, pra compensar o trabalho duro do dia anterior. Quando chegou na roça, seus filhos pequenos já idos pra escola, os mais velhos já na fazenda do vizinho e a sua mulher já bêbada, pareceu ouvir um barulho. Não deu muita atenção a ele de primeira. Continuou cortando os galhos, cortando, separando, cortando, separando, empilhando, separando, cortando. Até que ouviu o barulho de novo. O céu estava baixo, a luz do sol batia direto na sua cabeça, e fazia uma sombra esquisita em torno da sua figura. A luz do sol ia dar lá embaixo, lá onde a gente perde de vista. E o barulho no seu ouvido, na sua cabeça. Não distinguia muito bem o que era, talvez um sopro de vento, talvez o cantar dos pássaros. Mas resolveu largar os galhos. E ouvir o barulho. Ouvia um sopro, misturado com assovio, mas não tinha nenhuma pessoa, nem nenhum bicho, pelo menos nenhum de onde pudesse estar vindo aquilo.

Demorou um tempo ali calado, só ouvindo. Até que resolveu ir. Foi embora atrás do barulho.

Foi seguindo o barulho, seguindo o barulho, seguindo o barulho até tão longe. Tão longe tão longe que foi embora. O sol batia de cima, fazendo um ângulo oblíquo com alguns galhos de árvore, e na curva das nuvens ele foi embora.

E ele desfeito, na poeira do chão. Na curva do vento. Já era um ele. Seus filhos pequenos, seus filhos mais velhos, a mulher e o álcool. Ele desfeito, pra sempre desfeito, desfeito sumido.

Texto: Maíra Fernandes de Melo

7 comentários:

  1. ELE me deixou arrepiada.
    Belíssimo conjunto. Parabéns

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  2. Por um instante desconfiei que o barulho fosse o curupira. Texto excelente, imagem linda, das melhores que já tivemos aqui.

    Obrigado dupla, por me permitir começar o dia deparando-me com tão bela obra.

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  3. Maíra
    Valeu o texto, gostei.
    Minha foto apenas emoldurou seu lindo texto.
    abraços

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  4. q bela imagem esta do rudy. meio apocalíptica, o contraste P&B entre os galhos e o céu tenebroso. parabéns maira pela estréia, num conto quase fábula, bem imaginativo, algo triste.

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  5. Uma ótima foto só poderia inspirar um ótimo texto. Fiquei com medo dele. Do texto. :) Vou parar de cobiçar a televisão da moça da novela! ;) Hehehe!

    Parabéns a ambos!

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