segunda-feira, 5 de outubro de 2009

História de Pescador


Imagem por: Marcelo Damm.


Eles Chegaram em uma tarde rubra; as nuvens pegavam fogo.

Aprendi a pescar com meu pai, que aprendeu como o pai dele, que aprendeu com o dele, e assim por diante, até a cabeça doer com tanta lembrança de pai.

Meus outros professores foram o mar e o vento.

O mar era aquela coisa de doido; ora manso e generoso - tanto peixe que a canoa chegava quase a virar -, ora bravio - de forma que a canoa virava de qualquer modo mesmo. Já o vento, conduzia nossos pequenos veleiros, quando a necessidade nos levava mais longe. Às vezes, mar e vento se juntavam e era cada onda que a gente só ficava na areia, as tarrafas guardadas, abestalhados.

Muita vez, nas ignorâncias da juventude, não dava atenção aos sinais. Partia sozinho, no enfrentamento de raios e tufão. Chegando em casa era aquela surra de mãe - pai ficava no balanço da cadeira, com um sorriso matreiro, de cachimbo na boca. Mãe ainda dizia: "Acuda, minha Nossa Senhora, que esse minino ainda me mata!". À noite, enquanto sonhava, me dava um beijo. E sorria.

Se foram em uma sexta-feira da Paixão. Por quarenta dias me retirei; remos em punhos. Alguns golfinhos e aves vinham me visitar, percebendo minha tristeza, pois tem muito bicho mais esperto e sensível que muito homem.

Superado o luto, voltei à vida de mar e peixe. Construí canoa e dei a ela o nome Gratidão, em homenagem aos velhos. Casei, tive filhas - duas sereiazinhas - e fui capitão de barco - o melhor que já existiu na vila.

O tempo foi assim passando. O sol deixando suas marcas na pele.

Até aquela tarde rubra, quando eles chegaram.

À bordo de Gratidão, vi o estranho barco surgir dentre as nuvens e pousar a meu lado. Olhei em volta, em busca de ajuda, mas ninguém me via.

Por um bom tempo ficamos ali; eu numa curiosidade só, o barco-balão a me encarar.

Foi quando uma visão na janela da embarcação me fez remar ao seu encontro. Os pescadores ao longe sorriam - vai ver, era uma boa história de pescador -, alheios ao que se sucedia em volta.

Na janela da nau, meus velhos também sorriam, a me esperar.


Texto por: Alberto de Lima, inspirado na imagem.

7 comentários:

  1. Caramba, Alberto, que lindo!
    Muito obrigado por me brindar com esse texto!
    Mesmo!

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  2. Um texto delicioso, parabéns, Alberto!!!
    Marcelo, vc tem talento e técnica pra valer. Muito, muito, muito bom!

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  3. Marcelo, eu é que agradeço a imagem que me remeteu loago à infância. Muito obrigado mesmo :)

    E Deborah...obrigado pelo elegio, viu?

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  4. uma bela história do alberto envolvendo a fantasia mais onírica. gostei do barco se chamar "gratidão". o marcelo damm sempre arreneta e esta nau está ótima!

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  5. Sempre achei mesmo escatológica essa história de "Balão Mágico"... ;) Hahahaha!
    Post que junta dois talentos que admiro. Os desenhos do Damm e o texto do Alberto! Parabéns aos dois!

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  6. Ola Alberto! Ha tempos nao nos falamos, mas sempre sigo de longe seus textos, sempre muito inteligentes e que nos fazem refletir bastante. Continue assim, espero que nos encontremos por ai...

    Um abraco!

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