quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O destino ordinário de Felisberto Xifontes





Imagem: Marcos Sêmola

Nenhum pensamento, nenhuma emoção especial tocou Felisberto Xifontes naquela manhã de segunda-feira. No domingo ele andara preocupado com o preço da carne. Pretendia fazer um churrasco em seu aniversário, mas previu que a mulher não o ajudaria nas despesas (da última vez, ela reclamou muito pelos gastos e pela noite perdida, arrumando a cozinha). Seu filho também não ia ajudar, o pobre moleque ganhava menos de trezentos reais, entregando água mineral em Copacabana. Contrariado pelas circunstâncias, Felisberto começou a achar que Deus não existia e que o mundo estava contra ele. Chegou a pensar que a vida talvez fosse um perpétuo sacrifício, um palco macabro onde assistíamos nossos sonhos naufragarem perante as ondas de um mar violento e indiferente. Um obscuro sentimento de revolta o tomou por quase dez minutos, antes que ele decidisse ir à igreja para “limpar a cabeça de tanta idéia ruim”. Mas Deus é tão bom que nem esperou que ele chegasse ao templo. Na mesma tarde, seu amigo Nivaldo passou para um café, e falou de um açougue para os lados de Ibissuruna, que vendia carne mais barata, comprada de criadores locais. Felisberto percebeu, aliviado, que o mundo ainda tinha lugar para ele. Ainda era possível encontrar um evento casual que servisse à sua felicidade, em vez de contrariá-la. No fim do dia, conversou com a mulher, e ela disse que não tinha importância o churrasco, se ele não deixasse os amigos entrarem na cozinha com os sapatos imundos de terra do quintal. Mais esse ato favorável deixou o homem feliz como criança, e ele pôde dormir sossegado, seguro de seu parentesco com Deus.

Na segunda, portanto, ele não pensava em nada. Na hora do almoço, abriu sua marmita e se deliciou com angu, couve, arroz, feijão e carne. Graças a Deus, sua mulher estava parando com a mania de mandar beterraba crua. Depois lavou a boca no tanque, olhou o céu, que estava sem nuvens, e deduziu, satisfeito, que não ia chover naquela tarde. Se cortasse logo as fôrmas, poderia sair mais cedo e passar no Filomeno antes de ir para a casa. Por isso trabalhou em silêncio, com atenção e afinco. Não desejou estar no dia seguinte, não se emocionou com lembranças de amigos falecidos, não se sentiu humilhado por ser pobre, tampouco se sentiu especial; não teve absolutamente nenhuma idéia original e não descobriu que partilhava o mesmo destino de outros milhões de felisbertos, espalhados pelos mil cantos do mundo. E essa segunda-feira, sem chuva e sem presságios, foi o molde invariável do resto de seus dias. Nem mesmo um escritor socialista veria nele algum encanto especial. Sua pobreza não bastou para lhe dar uma epopéia.

texto: Ronaldo Brito Roque



4 comentários:

  1. Caro Ronaldo, vc pode dizer que é babação de ovo, mas com sua licença, "que conto!" e "que foto!" ;)

    Abraços.

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  2. O conto está excelente mesmo, mas estou para descobrir quem é esse fotógrafo! :-)

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  3. o interessante na foto do semôla é este deslocamento, esta distorção do sinistro corredor do fundo, q mostra q a foto está fora de seus eixos, "out of joint". no conto do ronaldo, parece não haver redenção para a vida ordinária de Felisberto. nenhuma epopéia poderá redimi-lo, mas seria mesmo necessária? não seria o estranhamento do conto, já uma razão suficiente? não precisa mesmo de uma epopéia, basta um conto do ronaldo...

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