quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Pavão



Música por Gilson Beck (- perfil)

Isso é granada ou trovão?
Não olha pra trás, Magrela. Hora de vazar. No Alemão já deu. Nossa casinha fodida de bala. Nem a porta ficou de pé.
Tá vendo lá embaixo o caveirão? Carrega só documento.
Essa chuva vermelha é banho de Deus. É batizado.
Vou arrumar um barraco no Pavão e vou fazer a tua festa dos quinze. Na laje com dj e privadas de cerveja. E vou te falar, tá ligada, de noite o Pavão aceso é uma árvore de natal o ano inteiro.
A praia é logo ali. Um pulinho. Tu vendendo chiclete. Eu no mate-leão. Tu no carnaval. Eu
no reveillon. Tu chorando de rir no posto seis. Eu morrendo de amor no posto médico.
Amor bala de chupar que vem com tatoo de henna lavável.
Os turistas em diarréias olímpicas, em tour-favela, rodízio de carne, falsa blitz. E a gente flutuando sobre o Rio numa bolha de sabão. Lá no alto. No topo do mundo feito aquele gorilão.
Agora ri esse riso de dentes quadradinhos que eu paguei em três. Com esse charme que ganhou de Deus ou do diabo, sei lá.
Vamos viver um grande amor que eu vou carregar numa sacola do McDonald's pra não derramar.
Alguém já te amou assim? Na moral. O meu nome no teu pé, o teu aqui na virilha. Tribal na panturrilha. Fazendo um amor na sílaba e os fantasmas só de butuca. Invisíveis. Vou te falar, Magrela, o amor é o cinema dos fantasmas.
E a gente guarda a dor numa sala bem secreta com uma senha muito difícil de lembrar.
Nosso moleque vai falar inglês, tirar a maior onda, andar pela cidade com sapatos de sucesso. E se vacilar mora até no estrangeiro.
Não fica assim borocoxô, atravessada. Chora não. Vem que eu te pago um Chicabom.
Amanhã vai tá tudo lindo.
Os turistas torrando na areia, na digital, no tresoitão.
Eu de boné e tú de passista ensaiando um samba do avião.
Embaixo deste céu azul sem fim.

Texto por James Loureiro Pinheiro (escritor e leitor - perfil)

9 comentários:

  1. James Pinheiro é leitor de Caneta, Lente e Pincel. Enviou uma amostra da sua produção literária para canetalentepincel@gmail.com , foi aprovado, e convidado para encerrar esta rodada. Estamos aberto a contribuições de qualquer tipo de arte, basta enviar uma amostra e um pequeno perfil para nosso e-mail e aguardar possível convite.

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  2. não consegui ouvir a música, mas o texto é muito bom. a música inspiradora deve ser também, então...

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  3. Sempre acreditei no talento deste escritor. Não tenho dúvida que seu livro, quando escrever, vai ser de tamanho sucesso. Por isso James, trate logo de escrevê-lo.

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  4. Belíssimo texto de James Pinheiro.Retrata o dia-a-dia das nossa metrópoles, os relacionamentos, enfim...Adorei! Tica

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  5. Bacanérrimo. Achei original e contundente.
    Quero mais.

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  6. Que texto é esse!? Beleza Pura! Parabéns ao autor!!!

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  7. Chapado! Texto ousado e mágico. Muito bom. Onde encontro mais deste autor?

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