sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Sem Título

Ele poderia ter escrito livros. Tinha um bom nome para colocar nas lombadas, não tinha dúvidas quanto a isso. Mais do que lido, talvez sonhasse ser catalogado. Todos os bibliotecários do mundo o reconheceriam pelo sobrenome. Associariam de imediato seu nome de família a sua obra. Os jovens chegariam nas bibliotecas e o pediriam. As moças suspirariam com seus poemas, mesmo os desconhecidos. Textos de outros autores seriam atribuídos a ele. Só poderia ser dele. Com essa ironia. Com essa sofisticação. Comentariam seus novos livros em bares e cafés espalhados pela cidade. As resenhas dos mais respeitados jornais seriam as melhores possíveis. Seria o assunto. O bordão. O personagem do ano. Talvez o convidassem para entrevistas. Para participar de badalados programas de auditório. Para comerciais de produtos cobiçados. Seus livros não precisariam ser lidos. O seu nome já seria uma grife. Sinônimo de qualidade. Seu silêncio seria aplaudido de pé. Sua ausência um traço de personalidade. Seus livros não teriam fotos suas. Não teriam sua biografia. O colégio em que completara os estudos lhe ofereceria uma placa. Seu editor não acharia necessário. A casa em que passara a infância viraria uma creche batizada apenas com suas iniciais. Seria o bastante. Deveriam apenas se sentir fascinados pelos seus livros. Pelas suas espessuras. Pela grossa camada de poeira que se acumularia nas estantes dos consultórios. O grande público passaria a usar óculos como os seus. A marca de seus charutos favoritos. O vinho que ouviram dizer que ele consumia. Talvez até respondesse a processos para investigação de paternidade. Não haveria modelo que não quisesse ter filhos com o escritor. Aquele do livro robusto que fica na vitrine da livraria. Aquele citado na prova do vestibular. Aquele que fica na cabeceira da cama da Miss Universo. Aquele! Ele poderia ter sido qualquer um. Poderia ter sido até um escritor. Mas tinha apenas uma hora de almoço para brincar de ser ele mesmo.


Texto por: David Cohen



Imagem de Srta.K., inspirada no texto.

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