segunda-feira, 30 de novembro de 2009

De uma janela, em Copacabana


Onde ela nasceu não é assim pequeno pros lados, mas é pequeno pra frente. A pessoa cresce, não precisa nem ser muito, e vai trabalhar na lanchonete da avó, na vendinha da mãe, no açougue do pai. Lá onde ela nasceu, quem tem sorte, divide o pai com muita gente. Quem não tem, tem só a mãe mesmo. Mas tá bom. Pra ser alguém na vida, só indo pra cidade grande, ela pensava. Grande pra frente, de oportunidade. Oportunidade é uma palavra que ela aprendeu no jornal da TV e gostou, passou a usar. Assim como passou a usar “muito maneiro”, ao invés de “muito massa”, embora os irmãos estranhassem nas cartas.

Agora ela está na cidade grande, no bairro grande, no apartamento que é um exagero. Nunca tinha visto tanto espaço vazio junto. Ela trabalha em Copacabana, bem no finzinho, dá até pra dizer pras amigas que é quase Ipanema. Ipanema é muito maneiro, ela pensa. Agora ela está na janela, quer dizer, atrás da janela fechada, mas que tá tão limpinha, que é como se estivesse aberta, dá pra ela ver tudinho. O mar, que logo que ela chegou, contava quantas vezes o tinha visto, mas quando chegou na vez 30, parou de contar. Lá de cima, da janela, ela não consegue ver os peixes, de coisa que nada, ela só vê mesmo uns barquinhos lá no fundo e uns homens. “Eu que num tenho coragem”, é o que ela diz pra Dona Elizabeth quando a patroa pergunta se ela já mergulhou.

Dali ela vê os meninos vendendo côco o dia todo. O côco prontinho, aberto e com canudo. Ela se pergunta quem é que sobe na árvore pra catar a fruta, já que esses meninos são muito magrinhos pra isso. Tem também muita gente com pressa embaixo dos pés, que vai de carro, de ônibus, de van, de todo jeito. E ela olha, olha, mas como não tem pressa embaixo do olho, não consegue acompanhar.

Se a patroa chegasse agora, ia ver as bochechas dela pegando fogo, é que acabou de passar no calçadão, o Raimundo, o porteiro do 1530, da praia mesmo, que ela conheceu na feira. Ela gostou dele. Mas não está entendendo porque é que ele sentou ali no banco, ao lado do homem de ferro, que fica o ano todo lá parado, sentou e pegou o telefone, bem na hora do serviço. Ela podia até gritar, mas não gosta de abrir a janela pra não parecer que tá à toa, sem fazer nada. Ela ouve um barulho que não é a campainha. É o celular novo, cor de rosa, que começou a tocar na cozinha. Deve ser Raimundo.

texto: Ilana Reznik



Imagem: Marcos Semola, inspirada no texto (www.s4photo.co.uk).


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