sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Lembranças

Inevitavelmente tem acento?
- Não, como não tem nenhuma palavra terminada em mente, porque a sílaba tônica é men, mesmo se tivesse til - que não é acento, é sinal de nasalidade (Como é que alguém termina jornalismo sem saber isso??)

O editor-chefe entrou na sala um pouco atordoado, interrompendo a conversa. Quando ele entrava na sala assim, ela já sabia: ele não estava satisfeito. Pediu desculpas pelo atraso, sentou-se e começou a reunião. As pautas da semana seguinte realmente não estavam lá muito interessantes: o perfil da nova RTV de uma agência de publicidade da moda, um grupo de homens adultos que se encontravam todo final do dia pra jogar botão num subúrbio da cidade, o campeonato de remo dos padres vicentinos, a mania de arroz de pequi que saíra de Minas e estava dominando todo o Sudeste, o filho recém-nascido da atriz de novela. Júlio logo escolhera o perfil da publicitária. Carla pedira a fraternidade do botão. Entre o catolicismo e o mundo das celebridades, o arroz de pequi era pelo menos mais exótico. Manoela ficara com ele. Depois de todos terem dito em que pé se encontravam, gradativamente a equipe foi deixando a sala de reunião. Todos saíam, o editor-chefe juntava alguns papéis, e notou que ela estava mais esquisita do que o seu normalmente esquisito.

- Tá tudo bem?
- Tá.
- Tem certeza?
- Ahn?
- Tem certeza?
- Ah, tenho.
- Bom, qualquer coisa berra, tá? Até segunda.
- Até segunda.

Manoela foi pra casa direto aquele dia. Quando chegou, o entregador da farmácia já estava na porta esperando por ela. Ela pagou correndo, morrendo de medo de que os vizinhos conseguissem enxergar qual era o remédio que comprava. Entregou a receita para o rapaz como se naquele pedaço de papel estivesse o maior segredo do ocidente - e subiu. A noite estava com um ar esquisito. O azul marinho do céu se juntava ao preto dos prédios, que de novo se juntava ao azul marinho da Lagoa Rodrigo de Freitas, tornando a paisagem um enorme e contundente borrão escuro. A nesga de lua por trás das nuvens criava uma atmosfera ainda mais dramática. Era uma noite bonita, com um levíssimo ar frio - na medida em que o Rio de Janeiro pode ser frio em fevereiro... Ela acendeu um Marlboro vermelho, serviu-se de uma taça de vinho e foi para a varanda. Ficou lá, parada, contemplativa, fazendo a única coisa que fazia com verdadeiro prazer: pensar. Sempre que se dava conta, ficava abismada com a maneira como funcionava seu cérebro - sempre projetando, sempre inventando histórias, criando situações em que ela fosse protagonista, mas com subtextos e contextos sempre aleatórios. Assim, podia viver em pensamento suas outras vidas, e seguir em frente com a sua própria história. Tinha sido assim desde que se conhecia como gente e não fazia idéia de como era pensar de outro jeito. Suas primeiras lembranças eram de sua vitrola que fechava como uma malinha - ela oitenta centímetros rodando em volta da música - e vivendo as vidas além da sua. Toda uma nova maneira de existir se abriria pra ela depois daquele mínimo objeto, e de repente ela sentiu um medo que jamais tinha conhecido antes. Estava com muito medo de que, de agora em diante, não fosse mais assim, fosse de um jeito todo novo, desconhecido (mas não era exatamente para isso que tinha trocado o almoço pela consulta com o psiquiatra, mais cedo?). Um tipo de medo pesado, denso, sufocante. Manoela engoliu o remédio a seco. Em voz alta, ela pediu ao tempo que fechasse e chovesse a noite inteira. Mas não ia chover. Ia continuar aquele clima estranho ainda por muito tempo. Até de manhã. Até a hora em que Manoela ficasse cansada de chorar e fosse dormir.

Texto por: Maíra Fernandes de Melo

Imagem por: Bruno do Amaral, inspirada no texto.

2 comentários:

  1. fantásticas as luzes crepusculares de bruno amaral encontrando um angulo obliquo inusitado para fotografar nossa mais q conhecida lagoa. no conto da maira, me reconheci na manuela sempre pensando em outras vidas e vendo como esquisito aquilo q é belo. mas em frances e espanhol, esquisito é belo mesmo...

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