segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Lena e Lino - e as cachorradas do destino



Vídeo: Júlio Rodrigues

Lena não era exatamente infeliz. Achava que gente infeliz queria morrer, e ela não queria morrer. Era verdade que ela não era totalmente satisfeita com o rumo que as coisas na sua vida tinham tomado. Mas até que se achava um pouco feliz. Até porque ser infeliz era coisa de quem não reconhece a plenitude divina, e nisso Lena era boa, em reconhecer a plenitude divina. Ela e deus eram amigos desde quando ela caiu da árvore, com sete anos, e quebrou dois dedos. Desde então, sempre que precisava apelava pra ele. Mas nem era daquelas que só pediam – também agradecia, e conversava. Lavando a louça, regando as plantas, sempre que podia conversava com deus. Mas uma coisa que ainda não tinha conseguido entender era porque deus não levava logo aqueles vizinhos com aquelas músicas horrorosas. Lena morava em Copacabana, numa rua calma – a rua, porque a favela que tinha atrás era uma barulheira só. Morava de fundos pra quadra da favela, e dia sim outro também tinha pagode ou funk, alternados, aos berros. Ela podia imaginar aqueles corpos suados e já loucos de cerveja dançando ao som daquelas músicas – e aquilo nem era música... Nessas horas, colocava um bom Bach, Prelúdio e Fuga em D maior na vitrola – sim, ela ainda tinha uma vitrola, que funcionava direitinho. O único problema é que o som dela não era alto o suficiente e às vezes o barulho do funk se misturava à graça do Bach – “Ih, eu dô o cu de cabeça pra baixo / ó, visualiza” não combinava com aquele contexto Bach vitrola plantas na varanda. Mas seu irmão gostava da música clássica, então não fazia isso só por ela, fazia por ele também. Desde que seus pais tinham morrido, há muitos anos, primeiro sua mãe, de complicações de uma cirurgia no intestino, e depois seu pai, de tristeza, era ela quem cuidava do irmão seis anos mais velho, esquizofrênico. Era difícil, mas ela não gostava de pensar assim. Às vezes desejava lá dentro, mas bem dentro mesmo, quando as luzes se apagavam e ninguém podia ouvir seus pensamentos, ela desejava que o irmão morresse. Que tivesse uma doença, que não fosse muito dolorosa, mas que fosse fatal e irremediável, que ele descobrisse a doença e durasse só três dias, ou uma semana no máximo. E aí ela poderia ter uma vida com v maiúsculo. Ela sentia muita culpa ao pensar isso, e deixava o pensamento lá guardado num canto. Mas ela não sabia mesmo o que era uma Vida. Quando era mais jovem, tinha sacrificado todos os seus desejos em função de estudar, arrumar um emprego bom, mesmo que fosse chato, que lhe desse uma estabilidade financeira e uma garantia de velhice. Nem muito pra namorado tinha dado tempo, tamanho era o investimento no seu projeto de futuro, e acabou nem casando. Pensava que aí sim, quando se aposentasse, iria curtir a vida, beber todas, cair na farra, viajar, trepar muito, quem sabe até com desconhecidos, andar de carro conversível, de repente até cheirar cocaína, que era uma coisa que ela tinha muita curiosidade, mas ao mesmo tempo muito medo. Mas agora ela já tinha se aposentado e há quinze anos cuidava do irmão esquizofrênico. Adeus namorados, adeus para-quedas, adeus baseado... Esquizofrênico. Era uma palavra feia, mas não tão feia quanto um espécime do gênero. Que doença desgraçada, e como era difícil lidar com ela e cuidar dele. Quando ele ficava agressivo, ela tinha que trancá-lo dentro do quarto, até que o surto passasse. A sorte é que ele era franzino, tinha puxado sua mãe, que sempre fora magrinha. Já ela não, era a cara do pai, robusta, quase gorda. Assim, ela ainda conseguia ter uma certa força pra dominá-lo nas crises. Mas o físico nem era o pior. Às vezes chorava num canto, escondida, pensando em porque deus tinha feito isso com ele, que era um rapaz bonito, relativamente inteligente e que teria tanto potencial para ter uma vida linda. Era injusto esse mundo mesmo. E injusto com ela, que não tinha nada com isso, mas que por laços familiares que ela nem tinha escolhido se sentia na obrigação de estar ali por ele.

Aquele dia estava realmente muito quente. Ela já tinha lavado a louça, regado as plantas, se deu ao luxo até de fumar um cigarro, o que só fazia em momentos de muita tranquilidade. Seu irmão estava na clínica, ele ia pra lá duas vezes ao mês dar continuidade ao tratamento e conviver socialmente com outras pessoas que não ela. Quando ele ia à clínica, ela finalmente tinha tempo e quando ia chegando assim a tarde até parecia que a vida dela era dela mesmo. O dia estava muito quente, mas ela não queria desperdiçar um dia de vida dentro da casa que ela via todos os dias – e resolveu dar uma volta. Não sabia onde ia, não ia a lugar nenhum, ia só dar uma volta pela rua, pegar um sol no corpo e reforçar o estoque de vitamina D. Tomou um banho, botou um vestido fresquinho floral e uma sandália aberta – que não usava nunca. Se olhou no espelho, podia até dizer que estava bem – não bonita, mas bem aparentada com certeza.

E saiu. Na esquina de casa, viu um casalzinho jovem com uniforme de escola se abraçando no muro do prédio. Eram bonitos, o menino e a menina, e ela pensou que eles eram jovens e tinham a vida toda pela frente e que tomara que não tivessem um irmão esquizofrênico ou outra coisa do gênero pra cuidar. Do outro lado da rua, avistou uma senhora mais velha que ela, senhora mesmo, bonita, toda bem vestida, de chapéu pra aguentar o sol. A senhora estava tão bem, e era tão simpática com todos que passavam, e sorria e falava com todo mundo que ela até saiu de seu habitual ranzinza e acenou pra velha, sorrindo também, sem nem a conhecer, pelo simples prazer de compartilhar um momento leve e feliz com desconhecidos.
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Lino vinha pela calçada contrária, na coleira, passeando com seu dono. Já tinha feito cocô e uns três xixis, mas ainda não se sentia totalmente satisfeito. Precisava dar mais umas voltinhas – e ainda que seu dono forçasse a barra puxando a coleira prum lado, achou que devesse puxar pro outro, e foi o que fez. Nisso de puxa pra cá puxa pra lá, a coleira afrouxou e, no esforço que estava pra ir para o outro lado, acabou se soltando. Lino era um simpático cachorro salsicha, que tinha muito amor de seus donos e vivia uma vida feliz para um cachorro salsicha. Mas agora estava ali, solto da coleira no meio da rua. Não que estivesse um dia agitado, a rua estava até calma, mas solto assim era demais pra ele, que era um cachorro bem doméstico e não estava acostumado com estripulias externas.
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Laura vinha brigando com o marido pelo celular, ele andava chegando tarde do trabalho e ela tinha certeza de que ele a estava traindo. Não que tivesse fatos que comprovassem a suspeita, mas tinha nele alguma coisa errada e mulher sempre sabe, sente, fareja quando tem alguma coisa errada. Brigava, berrava, chorava. Estava transtornada quando dobrou a esquina no seu carro e viu um cachorro salsicha sozinho perdido no meio da rua. Ela estava meio mal mas teve a sagacidade de desviar do cachorro. Ela gostava de cães e não era por causa de um marido canalha que ia atropelar um pobre cãozinho. Desviou bem em cima da hora, girou o volante do carro direto pra direita e acabou subindo a calçada.

Lena sentiu o baque. Respirou uma última rajada de ar antes de sentir dor. Pensou no irmão esquizofrênico. Pensou que ele não ia ter quem cuidasse dele. Que quando a van da clínica fosse trazer ele de volta não iam encontrar ninguém em casa. Que de repente assim levavam ele pra clínica pra sempre. Que pelo menos ela se livrava do fardo que era tomar conta dele. E sentiu um alívio. Estatelada no chão, ela ainda teve tempo de ver o sangue escorrendo da cabeça com uma dor enlouquecida enquanto perdia as forças. E fechou os olhos.

Renato correu para o meio da rua. Recolocou a coleira em Lino e foi embora, pra casa. Lino voltou, sem antes dar uma última mijadinha. Até hoje Renato sonha com a cena, com o seu cachorro ali no meio da rua e ele sem poder fazer nada. Com a confusão que se seguiu, com o estrondo que ouviu logo em seguida, com a mulher que saiu correndo aos prantos do carro. E acorda de madrugada. E quando sonha esse sonho, vai até a sala e olha para Lino deitado na sua caminha de cachorro. E agradece a deus.

Texto: Maíra Fernandes de Melo

18 comentários:

  1. Muito bacana o texto da Maira. Adorei!

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  2. Parabéns Maira...texto muito agradável de ler.

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  3. Antes de comentar, visitei todos os videos do Julio Rodrigues aqui no Caneta só pra ter certeza de que realmente ele é um puta artista. E que mesmo na "brincadeira", como o passeio de um cachorro, ele sabe fazer arte contemporanea no seu melhor estilo. Parabéns!!!

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  4. Texto bacana, divertido, bom de ler!! Video muito bem sacado...Parabéns à dupla!

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  5. Realmente um texto gostoso de ler. Gostei demais do video, mostra a capacidade criativa do artista. Particularmente, gostaria de saber o que ele estava pensando durante o processo de criação. Excelente trabalho!!!!

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  6. Que cachorrinho danado esse seu, Julio!!! rsrsrs Parabéns à dupla. Amei o post.

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  7. Olha Julio, já assisti mais de 10 vezes o seu video. Muito bom!!!!!!!!

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  8. Adorei o post. Texto agradavel, video com o excelente tratamento, como costumamos assistir nos trabalhos do Julio.

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  9. Tava numa manhã já cansada do terror da noite. Agora, depois de ler o texto da Maira e assistir ao video do Julio, já estou pronta pra mais um dia. Excelente trabalho. beijos

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  10. O texto é muito gostoso de se ler do começo ao fim. Me emocionei com a parte do irmão esquizofrênico que atrapalha a vida da Lena. Tive vontade que a história continuasse apesar do excelente final. Maíra, você escreve muito bem, parabéns!
    Amei o vídeo do Julio (como sempre!), hoje com um ritmo frenético que acompanhei super curiosa e sem me cansar (sentido figurado e literal). O final despretensioso é adorável.

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  11. Trabalho redondo da dupla. Bom texto, video interessante!

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  12. Concordo com a queridissima amiga Deborah. O texto da Maira é tão bom que fica o gosto de "quero mais". O Julio, como sempre, faz um excelente trabalho. Nos prendendo até o fim se sua mostra. Legal a utilização dos cortes secos. Mais uma vez a sonorização é muito boa. Será que o Julio não tá a fim de partir para um "cinema" diferente? rsrsrs Beijos aos dois artistas.

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  13. Quando menos esperamos o Julio vem e se renova. Parabéns!

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  14. na agitação frenética dos cachorros do julio antes de sair a gente sente o próprio ou impróprio desejo, não apenas desejo de liberdade ou fuga, mas o puro desejo, q só no ar livre da rua pode se expressar completamente, pois a rua é o reino do imponderável e do acaso. o desejo nos faz caninos ou são os cães q se humanizam ao desejarem? no conto multiplot de maira, são os "amores perros" q convergem, entre o desejo reprimido e canino de lena (é de todo desejo guardar-se) por uma vida mais ampla e o desejo humano de fuga de lino, para se encontrarem numa imensa "cachorrada" do destino (e todo destino é o desdobrar de desejos) para marcarem tragicamente (e toda tragédia é a tragédia do desejo) as vidas e destinos de renato e laura. excelente(s)!

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  15. Vídeo bom, bacana, interessantemente frenético e ainda por cima envolvendo cães. Coisas com cães costumam ser boas. Texto simplesmente maravilhoso, muito parabéns. Linhas paralelas que se encontram antes do infinito.

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