quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Eterno Retorno

Imagem: Fernanda Franco (- perfil)



“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio” (A Gaia Ciência / Friedrich Nietzsche).



A astrologia explica como retorno de saturno. Um café e um livro do Nietzsche. Eterno retorno, ele diz. Daqui a 20 dias, 30 anos. Ainda cheia de citações de livros e filmes que eu já vi.


Vomito palavras para salvar minha própria vida, ou para evitar verbalizar todo o clichê da mulher de 30.


Mas o homem chegou, e eu o mandei ir embora.


Existe um trabalho que segura a onda e as contas.


Existe a grana, o apartamento, a viagem dos sonhos, o gato em cima do sofá.


Existe um buraco no estômago, uma fome de não saber o que, e ainda livros espalhados pelo chão para que me expliquem inclusive, a ânsia que eu tenho de escrever.


Escolho um boteco sujo no Lido. Vontade de descer do salto de menina bem nascida e me misturar com as putas e o resto. O tempo passa e aparentemente aos 30 a gente já precisa saber quem é. Eu passo longe disso.


Nos cinco primeiros minutos eu vejo que não sou tão descolada assim. Deixo a cerveja de lado e morro de medo dos caras que passam. Saio com decote e salto para desaparecer no meio de todas aquelas pessoas que transpiram sexo e putaria. Mas a minha própria presença incomoda demais.


Volto a casa.


Os livros continuam no chão.


Nietzsche me encara.


A merda do eterno retorno.


Acendo um cigarro na janela, não parei de fumar, ainda olho as cartas do cara que mandei ir embora, escrevo de volta, tento dormir cedo, trabalho logo ás 9h, ainda não sei quem eu sou, os 30 anos chegam em 20 dias, não consigo ser puta mesmo que eu queira e sim...


Ainda procuro o amor.


Tudo que vai, volta.


Ele previu.


E talvez seja mesmo essa a maldição a que me colocaram à prova.


Mas num impulso infantil de ironia, ou de vontade de me salvar a vida ou a insônia que chega, eu lembro de todas as grandes coisas que já passaram por este mesmo apartamento que agora me encara, e abro as portas para que as coisas retornem.


Aquieto-me.


E recomeço de onde parei.


Texto: Paula Gicovate (- perfil)

4 comentários:

  1. Confidências e profecias. Angustiantes retornos ao mesmo cenário, ator sem aplausos, talvez passos que avançam invisíveis a olhos nus.
    Livros espalhados pelo chão, como se pudéssemos trilhar sobre palavras.
    Belíssima imagem do etéreo em movimentos lilases. Conexões e cores em sonho.

    ResponderExcluir
  2. paulinha, que bom te ver por aqui! a angústia quando é bem descrita até alivia um pouco. muito bom o texto.

    ResponderExcluir
  3. Sem comentários... (?, hehehe) Excelentes palavras e imagem (imagens?)!

    ResponderExcluir