segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Os Cisnes Selvagens de Carolina Matias

Imagem: Maria Matina


É sempre mais frio antes do amanhecer. Ele partiu e foi o melhor para mim.
A mente de Carolina Matias parecia um lindo lago azul, onde esses pensamentos flutuavam como dois belos cisnes brancos.
Mas eram cisnes selvagens, impedindo a aproximação de qualquer outro pensamento.
Mas o que você fará agora? Um outro cisne ousou a entrar no lago e foi atacado pelos dois primeiros, maiores e mais fortes. Atacaram o invasor com impiedosa fúria até que a vítima, em poucos minutos, se desse por vencida e voasse em fuga.
Ali, parada, diante do espelho, enquanto, com uma navalha, cortava a primeira mecha dos cabelos louros e empobrecidos, sua figura era patética. E pouca diferença fez quando um sorriso pálido surgiu em seu rosto, ao imaginar os dois cisnes enfurecidos. Sua figura não era mais patética e, sim, enlouquecida.
Olhou para a navalha com carinho, com o afeto que se tem por uma amiga fiel. Depois, Carolina Matias fez um carinho no próprio rosto. “O que você fez com a própria vida, menina?”, disse, “Como pôde permitir que a maltratassem tanto?
Mas o que você fará agora sem ele...?
De novo, os cisnes foram implacáveis.
Mas não tenha medo. Logo tudo estará bem. É sempre mais frio antes do amanhecer. Ele partiu. Foi melhor assim, pois a partir de agora, você começa a viver.
Imediatamente pensou em enchimentos, reparos, maquiagens, injeções e microcirurgias. O que mudaria primeiro? Talvez aquele traço meio sinuoso na testa, como um risco feito por uma criança em um cimento ainda fresco. Parecia uma tatuagem anunciando ao mundo as centenas de vezes em que foi traída por ele.
Para onde você irá? O que irá fazer...?
Depois viriam os preenchimentos das rugas ao redor dos olhos, resultado das tantas vezes em que chorou. E os sulcos onde escondiam-se os olhos, conseguidos em tantas noites sem dormir, à espera dele. E o discreto corte no canto direito do lábio superior, fruto da última agressão.
Mas com que dinheiro...?
Ela não mediria esforços para mudar. Nem sequer queria pensar onde conseguiria dinheiro, pois dinheiro não haveria de ser obstáculo. Nunca se deve poupar ao se fazer algum bem para si mesma. A vida estava em débito com ela e nada a impediria de reaver suas perdas. Porque ele partiu e foi melhor assim.
Quem irá cuidar das coisas...?
Não tenha medo, É sempre mais frio antes do amanhecer. Ele partiu e foi melhor para mim. Os pensamentos se repetiam como um mantra. Nada de arrependimentos, nada de pena por si mesma, nada de dúvidas, tampouco medo. Ele partiu e foi melhor para você. Decidiu começar pelos cabelos pegajosos. Havia se tornado loura para agradá-lo. Por isso, não poderia restar nada dos dias em que vivia para ele. Voltou a ocupar-se da lâmina, os dedos nervosos a tratar de extirpar mais uma mecha. Ele partiu e foi melhor para mim. Precisava confiar nesses pensamentos como um trapezista precisa confiar em seu parceiro.
Quem irá cuidar de você?
Ele partiu e foi melhor para mim. Eu serei outra mulher, mais bonita, mais confiante, mais feliz.
Mas ele não estará aqui para ver tudo isso.
Então, aconteceu. De repente, por algum motivo, os cisnes não estavam lá. E um invasor aproveitou-se rapidamente. Depois, outro...
Você conseguirá viver sem ele?
E outro...
A quem você está tentando enganar?
E outro...
Foi mesmo melhor para você?
Os olhos de Carolina Matias estavam arregaçados como nunca estiveram.
No segundo seguinte, estava fora do banheiro frio. Na cama, no quarto ao lado, lá estava ele, seminu, em meio ao sangue ainda cor de morango, mas tornando-se vinho tinto. A garganta cortada enquanto dormia.
O choro veio tempestuoso. Carolina Matias, sentindo a sua confiança morna se transformar em um desespero férvido, se perguntou “Por quê?”. Com um olhar meio louco, as mãos trêmulas, a respiração descontrolada, ela insistiu em voz alta: “Por quê?”, cada vez mais alto, enlouquecida: “Por quê vocês não o impediram? Eu não podia pensar nisso. Eu não podia fraquejar, não podia pensar nele. Foi melhor para mim. Então, por que vocês me deixaram pensar nele?” Quase aos berros, ela repetia, incansável, a pergunta aos cisnes. Mas não havia mais cisnes e Carolina Matias não se lembrava de ter se sentido tão só. Antes, haveria a presença grande e forte dele à confortá-la. Agora, o que havia?
Foi quando sentiu a presença da navalha em sua mão.

Texto: Júlio Corrêa

4 comentários:

  1. aos traços sempre líricos e singelos de matina, carregados de poesia, julio correia opõe os cisnes selvagens de sua imaginação. o conto começa de um jeito para sofrer uma reviravolta no meio e aí toda a perspectiva muda. a mulher de olhos "bem fechados" não ousa se encarar no espelho, parece uma escova de dente em sua mão, mas é uma navalha e os cisnes q eram selvagens e pareciam a confundir seriam na verdade seus salvadores q a impediriam de "pensar nele". podia ser a promessa de uma nova manhã mas é apenas o início de uma mesma noite. parabéns aos dois!

    ResponderExcluir
  2. Achei muito doido, hehehehe adorei acho que ficou muito bom!! A combinação foi boa.

    ResponderExcluir