terça-feira, 3 de novembro de 2009

Os Pássaros


Imagem: Bruno do Amaral


Imagina aquele monte de pássaros, aqueles com as cores na mochila, parece que trocam toda hora. Você olha numa tarde e são tão azuis e na outra, já são amarelados, girassol míope pintado na barriga, aponta pra toda direção. Mas é o mesmo jardim, você pensa, e são os mesmo pássaros, como podem estar com cores tão diferentes? Onde será que os pássaros trocam de roupa? O que não está nos livros está onde, meu amor? Capítulo 1: algumas cores afetam o movimento das asas de certas espécies. Capítulo 2: como observar os verdes sem confundi-los com a paisagem. A moldura da minha janela nunca acerta um abraço, escapa. Você já abriu a sua hoje? Então imagina aquele monte de pássaros. Eles têm carinho no corpo. É como eu e você, mas o carinho deles cobre também do lado de fora e sustenta no ar. Se eu lhe disser “pula”, posso lhe fazer não bater no cinza, mas se um deles gorjeia, quero dizer, fala com penas, se um deles gorjeia “pula”, o ar fica cheio. Voa.

E quando o ar preenche, eu que não bato as asas dos olhos pra não perder nem um minuto deles passando. É tão bonito. O homem levanta prédios tão altos, mas no andar dos pássaros ninguém mora. Não perturbe a melodia deles, está bem? E a gente acha que o mundo das coisas construídas é imenso, mas imenso mesmo é o mundo antes do céu. Do céu, eu disse. Olha pra cima. Vê.

Não, eles não têm medo. Mesmo os menores, eles não precisam dar a mão pra atravessar a rua. Capítulo 3: algumas mães deixam seus filhos atravessarem o oceano sozinhos. Pode uma coisa dessas? Às vezes, sim. Pois como eu ia dizendo, no Inverno, os pássaros que dormem no Big Ben – o Big Ben fica na Inglaterra – descem para a África do Sul. Será que eles dormem sobre o relógio para não perder a hora? Onde eles aprenderam a entender ponteiros? Capítulo 4: o despertador dos pássaros sempre toca. Eu lhe digo, fecha os olhos e imagina ou abre os olhos e imagina ou pega um lápis colorido e imagina. Pássaro com tosse faz mais vento? Mais vento eu não sei, mas deve fazer menos música. Sim, música. Ouve.

Já me disseram que os pássaros que nascem mais cedo cantam melhor. Um prêmio por serem mais rápidos ou é apenas porque eles começaram a treinar antes? Capítulo 5: A manhãzinha faz bem pra garganta do bicho. Capítulo 6: Nunca deixe um pássaro dormir até tarde. Além disso, os machos (os meninos) tentam impressionar as fêmeas (as meninas) cantando difícil. Eu lhe digo, garotas gostam de rapazes inteligentes. Pode dizer o que quiser, meu amor. Eu não tenho pressa. Vamos.

Eu já lhe contei sobre como eles gostam de doce? Ainda bem que formiga não voa, senão ia ter briga. As flores dão beijos de açúcar pra eles. O néctar. Não se preocupa, o seu suco eu não vou colocar na janela. Copo com pétalas e eles aparecem. Vêm.

E as estrelas? Eu já lhe mostrei? Elas não voam, bóiam. Ainda bem, assim os pássaros podem usá-las para guiar seu caminho, assim como o Sol, o cheiro e os barulhos. Capítulo 7: depois das Três Marias, vire à direita. Não tem erro. Verdade.

Quando eu era pequena, eu achava que os pássaros, assim como as nuvens, formavam desenhos quando passavam. Repetidas frases com “v”. Um sempre à frente dizendo baixinho para o grupo: deixa comigo, eu sei o caminho. E quando o sol fica mais forte e o olho dele se cansa do laranja, ele volta pro fim da fila. E, assim, chegam sempre. As nuvens deveriam aprender com os pássaros a serem mais organizadas, você não acha? Capítulo 8: a linha reta das nuvens.

Mas digo isso e não sei se você sabe, porque não posso ser águia, nem espalhar penas no chão para amortecer as suas quedas, que serão muitas, se você voar sozinho. Me perdoe por isso. E nem posso deixar um sol no quarto, duas estrelas na sala e alguns barulhos na cozinha para guiar você. E que hoje, com apenas doze meses de vida, ou um ano, ou o tempo que os pássaros da Austrália levam até Casablanca no Verão, você pode dar um passo, que a sua mãe está aqui. Sim, dê um passo. O seu primeiro. Pode vir.

Texto: Ilana Reznik


3 comentários:

  1. Belo texto.
    Também tenho pássaros, mas é um poema

    Pássaros

    Sempre é muito tarde
    Ou muito cedo.
    Sempre na hora errada
    Apareço.


    Ontem nos olhamos,
    Pedi um momento.
    Antes que passem os anos
    E cesse o vento

    alexsartorelli.blogspot.com

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  2. muito boa a imagem bem central da silhueta nítida do pássaro gaivota apesar de ser contra o sol, que ilumina a cena e projeta refrações de azul. alta destreza do bruno capturar o ássaro em pleno vôo como uma forma no espaço. o monólogo interior da ilana desenlaça os mais líricos devaneios, q ao contrário do vôo estático da gaivota, "voam" de um lado para outro do txt. parabéns aos dois pelo momento de poesia aqui no clp.

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