quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Peguei um Ita no Norte

Imagem: Fabiano Gummo


O refrão do samba-enredo salgueirense, campeão do Carnaval de 1993, foi a primeira coisa que me veio à mente (ou seria à alma?) logo que morri. Em seguida, vi meu corpo estatelado. Não consigo, porra, não consigo lembrar o que me levou a terminar o dia assim, um cadáver em frente a um pé-sujo, numa calçada imunda. Tenho a sensação de que estou lembrando, como aquela palavra que está na ponta da língua, mas o branco não permite que saia. Cacete, o que houve? Coisa boa não deve ter sido. Quer dizer, certamente não foi, a menos que eu considere morrer algo bacana. Mas minha experiência com a morte ainda é muito insipiente para que tenha uma opinião formada. Se eu buscar reconstituir os fatos, talvez consiga recordar.

Lembro-me de estar bêbado, bem bêbado, quando passou por mim um anão e eu o fiquei sacaneando. Fala sério, o cara não precisaria se ajoelhar para dar uma mamada. Anão é um negócio engraçado por definição. Enfim, fiquei zoando o tal anãozinho (prefiro essa palavra, não vejo sentido em que termine em “ão”) por um bom tempo, até que o pigmeu se emputeceu e veio tirar satisfação comigo. Um anãozinho peitar alguém consegue ser mais cômico do que sua simples presença, fato por si só, digno de ilustrar cartaz de teatro de revista. Quanto mais ele me “peitava” (seu peito-minha cintura) e mais apontava o dedo para minha cara (meu tórax), mais escandalosa era minha gargalhada. Mas ele ficou tanto tempo falando... falando... e falando... que fiquei de saco cheio e resolvi dar uma surra naquele duende para ele parar de me aporrinhar. Dei-lhe um pontapé ao qual ele retribuiu com um olhar que demonstrava estar disposto a levar a contenda às últimas conseqüências. Seus olhos disparavam ira, revolta, além de asco por mim. Seria assustador tivesse ele um metro a mais. Como não tinha, eu estava longe de estar com um problema grave, pensei. Contudo, deveria ter lembrado que não existe enterro de anão, por isso, fatalmente sobraria para mim.

Enquanto ele despejava sua fúria pela retina, acertei-lhe novo chute. Meu diminuto oponente tentava se aproximar, mas acabava levando socão. Levava um socão atrás do outro, mas voltava resoluto como um cachorro atrás de um Biscrock (quem tem cão sabe o que quero dizer). Queria encurtar a distância do combate, claro, afinal, apenas de perto conseguiria me acertar. Minha única preocupação eram os bagos, pois estavam bem na altura do seu pequeno punho. Portanto, quando ele chegou perto, fui logo garantindo proteção à futura prole. Entretanto, para meu espanto, ele acertou-me um intrincado, diferente, impressionante e dolorido golpe na altura do coração. Foram alguns toques precisos e rapidíssimos. Senti um estalo dentro do peito, uma dor profunda, e cuspi sangue pela boca. Fiquei debilitado, no entanto continuei lutando. Mas, para meu espanto, o até então destemido inimigo, justo agora que eu estava enfraquecido, recuava a cada passo dado por mim. Foram cinco passos em seu encalço e então tombei agonizante. Morri em instantes, com o coração em frangalhos. A última frase que ouvi em vida foi: “cinco pontos que explodem o coração, Uma Thurman, em Kill Bill 2, assisti trezentas e sete vezes.”


Texto por: Renato Amado

4 comentários:

  1. Nunca desrespeite um anão que assistiu Kill Bill. rs. Bom texto.
    abraço

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  2. Esse negócio aqui, essa mistura de caneta, lente e pincel proporciona sensacoes interessantes. Nao sei se gosto, se gosto muito ou se gosto pouco. Mas gosto do resultado final ao ver a imagem e descobrir os multiplos caminhos do texto enquanto leio. Definitivamente gosto da sensação. Para mim, este foi o mais tangível resultado da união entre imagem e texto que, ao meu ver, estariam longe de provocar a mesma sensacao se tivessem sozinhos.
    Well done!

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  3. O Renato Amado está se especializando nesses contos meio surreais, embora surrealismo não seja exatamente a onda. são antes txts que oscilam entre o estranhamento do bizarro ou o deslocamento do insólito. é um caminho interessante q vai amadurecendo. este aqui parece politicamente incorreto mas podemos dizer q no mínimo o narrador recebeu o q mereceu. bom o final.
    já o fabiano gummo, este sim, o mais surreal dos artistas do clp, q sempre gostou dos traços simples, mas q induzem uma curiosa sensação de estranheza, desta vez optou por um cromatismo de mil sugestões. a mim me lembrou mais uma vagina menstruada do q um coração aberto. mas é como bem disse o semola: sensações...

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